Mike Hawthorn e uma Loira em Monaco

17/08/2010

O inglês Mike Hawthorn é um daqueles pilotos que simbolizam muito bem o que era competir no automobilismo dos anos 50, quando os riscos estavam sempre presentes e a morte rondava o cotidiano da Fórmula 1. Assim como os outros de sua época, Hawthorn vivia no limite do perigo. Mas, no seu caso, a história ganha contornos ainda mais românticos: detentor de uma rara doença nos rins, o inglês sabia que dificilmente viveria muito além dos 30 anos, e tratava de aproveitar a vida ao máximo antes que a sua hora chegasse.

Quando começou a temporada de 1958, Hawthorn tinha uma ideia fixa na cabeça. Ele precisava ser campeão mundial naquele ano porque, em virtude da doença, o mais provável é que não tivesse outra chance nas temporadas seguintes. Piloto oficial da equipe Ferrari, Hawthorn contava 29 anos de idade e começou a temporada com um bom terceiro lugar no GP da Argentina, em Buenos Aires. Depois da prova argentina, a próxima parada da Fórmula 1 era o GP de Mônaco, onde o inglês nunca havia tido muita sorte.

Em três participações até ali, Hawthorn nunca havia conseguido completar a corrida de Monte Carlo. E o fim de semana do GP de Mônaco de 1958 começou muito mal para ele. Durante os treinos livres, Hawthorn perdeu o controle da Ferrari na famosa curva do Casino e bateu com certa força na barreira de proteção. Seu carro ficou despedaçado, e a única opção para o inglês era retornar à pé para os boxes. A caminhada, que não deveria ter mais do que um quilômetro, foi inesquecível para Hawthorn.

Distraído, o piloto da Ferrari vai andando pela calçada quando vislumbra uma belíssima loira na janela de um apartamento de Mônaco. Sem ânimo para voltar aos boxes e explicar ao chefe o que havia acontecido com o carro, Hawthorn decide tentar sua sorte com a garota. Ainda vestido com o macacão e com o capacete na mão, o inglês vai até o apartamento da loira sob o ingênuo pretexto de pedir um copo d'água. Estava realmente quente naquele dia, mas não era para tanto.

Apesar disso, Hawthorn foi recebido com grande gentileza. A boa vontade da moça foi tanta que a equipe Ferrari só ouviu falar de Hawthorn no dia seguinte, quando ele reapareceu nos boxes com o mesmo macacão do dia anterior, meio amarrotado e com o cabelo todo despentedo. E, é claro, com um ar de felicidade que a equipe só conhecia nos dias em que ele vencia uma corrida.

Mesmo com a inspiração da loira, Hawthorn seguiu sua tradição e não completou o GP de Mônaco, embora tenha marcado a volta mais rápida. No fim do ano, porém, cumpriu seu objetivo e levou o título, com apenas um ponto de vantagem para o compatriota Stirling Moss. Imediatamente, Hawthorn anunciou a aposentadoria para aproveitar o pouco tempo de vida que restava. De fato, o inglês não viveu muito mais: em janeiro de 1959, provavelmente por ter desmaiado ao volante, bateu forte seu Jaguar 3.4 numa estrada da Inglaterra e morreu de forma instantânea.

Era o fim da vida de Mike Hawthorn, que faleceu a três meses de fazer 30 anos. Ao menos, fica o consolo de que o inglês, embora tenha vivido tão pouco, certamente experimentou todas as emoções com as quais poderia sonhar.

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