O Brasileiro e a Fórmula 1

07/12/2010

O texto a seguir foi escrito por Ernesto Rodrigues, renomado jornalista brasileiro, que trabalhou na Rede Globo nos anos 80 e 90, como editor de esportes, e autor do livro "Ayrton - O Herói Revelado", a biografia esportiva mais bem sucedida da história do Brasil. Foi escrito em 04 de abril de 2008.


Sacanagem na Fórmula 1

O que me leva a dividir com os amigos do GPTotal um sentimento que creio não ser novidade para os conhecedores profundos do automobilismo, independentemente de nacionalidades, preferências e torcidas? Trata-se de um fenômeno que me incomoda e que atinge um personagem que está para sair de cena. Um personagem que, no âmbito brasileiro, sempre teve suas inegáveis virtudes e seus conhecidos defeitos totalmente embaralhados por circunstâncias do seu tempo, por algumas injustiças e, principalmente, por uma lamentável ignorância em matéria de automobilismo, tanto de jornalistas ditos “esportivos” quanto de milhões de torcedores de ocasião, mal-acostumados com as glórias aparentemente fáceis de Emerson, Piquet e Senna. Refiro-me, claro, a Rubens Barrichello.

Para ficar num exemplo da temporada atual, basta observar o que está acontecendo com o bicampeão Fernando Alonso para entender o que muitos brasileiros - ao contrário, insisto, da maioria dos leitores deste GPTotal - jamais compreenderam, ao cobrar resultados de Barrichello na Jordan e na Stewart: sem um carro competitivo não há vitórias ou títulos, seja qual for o piloto. É claro que Rubens só piorou a situação ao longo de todos aqueles anos de Jordan e Stewart, não na pista, mas nas entrevistas à imprensa brasileira, cedendo sistematicamente à tentação de dizer impossibilidades bem-intencionadas e confiar na vitória, nos inícios de campeonato e nos seus sempre desastrosos Grandes Prêmios do Brasil.

A incapacidade que a maioria dos brasileiros tem de avaliar equilibradamente o desempenho de Barrichello continuou e se agravou ainda mais, tornando-se piada nacional, nos sete anos de Ferrari. Sempre, infelizmente, com a ajuda do próprio Rubens, mais uma vez fora da pista, agora cedendo ao desejo incontrolável de dar entrevistas considerando-se detentor das mesmas atenções que a equipe italiana dava a Michael Schumacher. Essa desastrada estratégia de comunicação, aliada a algumas situações humilhantes que a Ferrari impôs a Barrichello nas pistas, impediu que a grande maioria das pessoas percebesse a façanha que ele protagonizou ao andar tão próximo e por tanto tempo de um dos gênios do automobilismo de todos os tempos. E com um equipamento não necessariamente tão bom.

Até mesmo um momento em que Barrichello foi impecavelmente mais veloz que Schumacher, fazendo com que a Ferrari o obrigasse a ceder o primeiro lugar ao alemão no GP da Áustria de 2002, costuma ser lembrando, por nós, como vergonhoso para Rubens, quando a vergonha e o constrangimento deveriam recair muito mais na hipocrisia da equipe e de Michael. Não tenho as estatísticas à mão, mas há outro grande feito de Barrichello do qual poucos se dão conta: a baixíssima taxa de erros dele em treinos e corridas, mesmo tendo como parâmetro, ali do lado, no boxe da Ferrari, a montanha intransponível de eficiência e velocidade que era o alemão. Apenas para ilustrar, vale comparar a taxa de erros de Felipe Massa, tendo ao seu lado Kimi Raikkonen, num carro praticamente idêntico.

A façanha de resistir psicologicamente ao alemão e ao fundamentalismo ferrarista durante tantos anos, vencendo nove corridas e ainda ganhando algumas dezenas de milhões de dólares, dá bem uma idéia da capacidade de Barrichello enfrentar a máquina que hoje parece começar a triturar a carreira de Massa. Mas não adianta: nem o fato de se tornar o recordista em participações e uma das maiores pontuações da história da Fórmula 1, faturando, dizem, mais US$ 12 milhões com a Honda na atual temporada, impede que Barrichello continue sendo uma piada no Brasil. Quanto menos do ramo forem, claro, os participantes da conversa. Barrichello virou piada no Brasil, de certo modo, por culpa – obviamente involuntária - de Emerson, Piquet e, principalmente, Senna.

Tentando explicar: Emerson inspirou o surgimento de milhares de “entendidos” em automobilismo, Nelson os elevou aos milhões sem lhes retirar as aspas e Ayrton incendiou a multidão, transformando boa parte dela em uma espécie de religião, não importando muito entender de automobilismo, principalmente depois da tragédia de Imola. Para complicar, antes mesmo de Imola, houve o choque irremediável entre sennistas e piquetistas, com danos, incompreensões e injustiças irreparáveis e duradouras para ambos os lados.

O tremendo descompasso entre o tamanho do contingente de fãs brasileiros – piquetistas ou sennistas - e o grau de conhecimento que esses mesmos fãs tinham dos princípios básicos do automobilismo só contribuiu para que a discussão sobre Fórmula 1, em nosso país, se tornasse cada vez mais descolada da realidade do esporte. E Barrichello, respeitado e reconhecido lá fora como um dos bons pilotos da categoria nos últimos 15 anos, é a principal vítima desse descompasso na mídia não especializada e em muitas rodas de “entendidos”. Aqui no Brasil é assim: ou o cara é campeão ou, como diria Marcelo Madureira, é uma merda. Puta sacanagem.

Dando seqüência ao nosso entendimento dos "90% que assistem às corridas de F1 torcem pela seleção, e só 10% gostam de corridas", temos agora mais um texto escrito por Carlos Chiesa, comentarista da Rádio Bandeirantes e maior referência nacional quando o assunto é o automobilismo pré-F1.

Entendidos

Vou retomar o tema da coluna Sacanagem na F1, que o Ernesto Rodrigues desenvolveu com maestria, expondo a injustiça que opiniões levianas fazem com, por exemplo, Rubens Barrichello. Penso que o assunto ainda não se esgotou. Continuarei a faxina com o trio global, de quem se espera opiniões nada levianas, exatamente porque são os maiores formadores de opinião deste negócio, que em tempos pré-Ecclestonianos era classificado como esporte. Galvão é, caso você tenha chegado de Marte ontem, uma espécie de Silvio Santos da transmissão esportiva. Ele não está lá propriamente para narrar, mas para entusiasmar. Ele enxerga tensões e méritos onde boa parte dos fãs do GPTotal enxerga banalidades. Seu objetivo, claro como o sol do meio-dia reverberando na areia do Bahrein, é alavancar audiência.

Você pode não gostar do estilo, que seria o mesmo se ele transmitisse campeonato de autorama ou futebol de botão, mas ele é bom nisso. E é por essa razão que a ultraprofissional TV Globo, que não dorme em cima do Ibope, o mantém. O número de pessoas que enxergam defeitos no GB deve ser ínfimo perto dos que gostariam de segurar um cartaz “Filma eu, Galvão” em algum autódromo. GB aproveitou muito bem os tempos felizes em que tivemos três campeões mundiais, um após o outro, para instalar na parte de trás dos nossos cérebros que é a coisa mais normal do mundo ter um brasileiro como campeão mundial. É praticamente uma obrigação. Um direito divino que só traidores do verde-amarelo deixam de exercer. Quem conhece minimamente F1 sabe que a França só teve um campeão mundial até hoje e a Alemanha idem, se descontarmos as corridas pré-2a Guerra, países intimamente ligados ao automobilismo desde o parto deste.

Ele faz a mesma coisa com o escrete canarinho e ai de quem perder uma Copa. Por isso ele trata de sugerir, direta ou indiretamente, temporada após temporada, desde que o Senna morreu, que ainda há esperanças. Tenta aumentar o número de telespectadores que acompanha a F1 ou, ao menos, não perder os que acompanham só porque tem brasileiro na pista. Sim, aquele cara que vai procurar notícias sobre o Dinamo de Kiev se tiver algum jogador nascido entre o Oiapoque e o Chuí jogando lá. Seu trato benevolente com o pequeno Piquet, a promessa brasileira da vez, é um sinal inequívoco. Ele já foi assim com o “Massinha”, com o Pedro Paulo Diniz, com… tantos. Mas, se você quer continuar assistindo ao vivo os GPs, é melhor não reclamar muito, porque se o Ibope cair abaixo do nível de bom negócio, a Globo pode mudar de idéia e aí você vai ver que falta faz o padrão de qualidade da emissora carioca.

Quem gosta de automobilismo e tem quilometragem no assunto tem que ouvir suas narrações como algo folclórico, na tradição de Geraldo José de Almeida, Raul Tabajara, Luciano do Valle, seus antecessores, especialistas em elevar batimentos cardíacos dos incautos nas transmissões esportivas. Dê risada com o exagero no uso dos bordões tipo “que sufoco”, “haja coração” “ele está guiando na ponta dos dedos” e não espere concisão, informação para especialistas. Ele quer pegar exatamente os novatos, aqueles que devem assistir a F1 vestindo a camisa da seleção canarinho, apenas esperando que algum piloto resolva comprovar que com o brasileiro não há quem possa. Esses são os mesmos caras que acham que um piloto que ganha nove Grandes Prêmios [Rubens Barrichello] é um braço-duro. Os mesmos que acham que a única equipe não-européia da história da F1 [a Copersucar] é um fracasso. Do futebol. Por qualquer coisinha o técnico é burro, o craque vira um perna-de-pau, o juiz foi comprado etc. Não perdoa o menor dos erros. Como psicólogo amador, diria que esse tipo de espectador está projetando suas frustrações nos pobres pilotos e jogadores de futebol.

Ele adoraria mandar seu chefe para a vendedora-do-amor-que-deu-à-luz mas lhe falta coragem, a mesma coragem que ele cobrava furiosamente do Rubens quando este estava na Ferrari e teve que fazer o jogo da equipe, favorecendo você sabe quem. Por que o Rubens não deveria respeitar seu contrato de trabalho, como qualquer funcionário? Porque sua obrigação maior era dar a esse senhor com problemas a satisfação de sair por aí transbordando de orgulho de ser brasileiro. Reginaldo e Luciano travam uma disputa particular pelo mesmo posto. Reginaldo usa a experiência de trás das câmeras, Luciano a da frente das câmeras. Visivelmente Luciano leva vantagem para a audiência mais esclarecida, impressionou bem no começo mas agora dá pinta de ter diminuído o ritmo, para acompanhar seu colega, que parece estar sentindo a pressão. A telemetria acusa algum problema de memória em Leme, que apresenta seguidas falhas ao descrever passagens que presenciou.

Talvez RL esteja sofrendo do mesmo mal que Hamilton, exagerando, abusando da auto-confiança e da eventual falta de memória do telespectador novato. Pena, pois tanto ele quanto Luciano poderiam dar um cunho mais jornalístico, abordando aspectos menos óbvios.

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4 comentários :

Cauny Ramos disse...

Excelente post ...

Devil Ricky disse...

FABULOSO!!!!
Brasileiro e sua total falta de conciencia e memoria - vide a politica.


Estou sem palavras #tamojunto

Anônimo disse...

mano grande historia mas usar o branco com o fundo preto dificulta um pouco a leitura =\

Anônimo disse...

"Mano" Jean, relaxa cara, contra o império não temos força.
Ruim com Galvão?
Pior sem ele!
Reginaldo gagá?
Melhor que o Carsughi Trigagá!
Só o Luciano do valle que não engulo.. marqueteiro de 2ª, lembra do Rui Chapéu? Adilson Maguila? hehehe... e depois narrar O Fittipaldi era fácil.
Téo José é um pouco arrogantezinho.
Conta pra galera "maluco" do Maverick, um tal de Edgar... esse era fodão!
Quanto ao RB, se te contar que já dei umas voltas no Kartodromo de Interlagos com ele vc não acredita.
hehehe, e ele era um pré adolescente ainda.
Jean, hj em SP está chovendo pra k7... dei umas esticadas agora à pouco que fiquei com medo, inclusive de final... imagina esse louco de Rubens Barrichello na chuva!?!?!?!
retardado mental! Ganha até do Senna, que já ez merd@ pacas na chuva também.
Belo Post
carreras son carreras
[ ]s amigo
Mr. Inforrock