A Arte de meter medo

02/05/2011

O post do leitor desta segundona foi enviado por Marcos.

Um domingo destes, em Valência, enquanto Fernando Alonso balbuciava dentro do seu capacete por mais uma das espertezas de Lewis Hamilton, um pequeno japonês em um carro pouco confiável chegava e sem negociar, lhe aplicava uma ultrapassagem nua e crua. E depois, surpreendentemente, conseguira mais uma ultrapassagem no suiço Buemi na ultima curva da ultima volta do GP valenciano. Oras? o traçado de Valência não é de ultrapassagens dificeis? Outra vez Kamui nos mostrou que negociar e ultrapassar, como driblar e dar show no futebol, está cada vez mais restrito a pilotos com nível de coragem e audácia perto da estratosfera.

Foi impressionante e reconheço que meter medo nos adversários é acima de tudo uma arte. Observei como, em qualquer modalidade, estamos cercados de exemplos de atletas que negociam ou não negociam. Nas pistas existem "peitos de aço" como o Kamui Kobayashi, Lewis Hamilton e claro, Michael Schumacher. Na Indy temos o Helinho Castroneves, Dario Franchitti e Scott Dixon.

Como não negociar não significa necessariamente menor talento ou capacidade de conquista - muitas vezes pode ser até uma estratégia mais inteligente, de longo prazo e uma dose maior de autopreservação -, eu incluiria neste time caras experientes como Jenson Button, mas acompanhados de frouxíssimos como Heikki Kovalainen na Fórmula 1 e o ex-piloto da Indy Bryan Herta, eterno freguês do lendário Alex Zanardi... Por puro patriotismo, não vou citar os brasileiros com vaga cativa neste bloco.

É notório, porém, que qualquer piloto desacostumado a negociar é um terror para seus adversários. Afinal, mesmo em se tratando de um campeão como Schumacher, Hamilton e o próprio Alonso, eles só foram alçados a esta condição depois de longo e certamente virulento currículo de acertos e inúmeros erros e acidentes. Na F1 me lembro bem quanta merda Jody Scheckter e Keke Rosberg armaram antes de se tornarem campeões e passarem, só com a sombra no retrovisor, a impor-se sobre os adversários. Claro que em alguns casos raros, mesmo depois de laureados, famosos e milionários, certos pilotos continuam a optar pela alternativa da força bruta ao invés da refinada tática de pressão psicológica ( Mark Webber nos dias atuais é um exemplo claro... ).

Nigel Mansell é um caso típico histórico.

Acredito que sem esta mistura de valentia e irresponsabilidade, o automobilismo de competição seria transformado apenas numa colorida e barulhenta carreata. Mas, para vencer neste jogo onde prevalece a personalidade mais forte, é preciso ter talento e tirocínio. Se o dínamo for somente o ego, a porraloquice, o piloto é no máximo um grande babaca.

Na década de 70, um italiano chamado Vittorio Brambilla pilotava para a March na F1 e, graças ao seu estilo na pista e fora dela, era conhecido merecidamente pelo apelido de "Gorila de Monza". Abrutalhado e intelectualmente quase idiota, Brambilla chegou a ganhar o GP da Austria de 1975, mas demoliu o carro metros depois da bandeirada quando comemorava. Certo dia, ele testava o March em Brands Hatch e, no intervalo do almoço, fui convidado a partilhar de sua mesa por um diretor da empresa chamado Sandro Angeleri. Vibrei de orgulho porque, além de nós dois e de Brambilla, a outra cadeira era ocupada por Max Mosley, ex-presidente da FIA por muitos anos.

Brambilla comemorando sua única vitória já com o seu carro devidamente demolido...

Não abri a boca, mas durante quase uma hora o "Gorila" vociferava, em um italiano chulo, contra um outro piloto que havia o atrapalhado no treino matinal. E prometeu várias vezes retribuir o susto ainda naquela tarde. De forma inacreditável, Vittorio devorou dois pratos transbordantes de espaguete e quase uma garrafa inteira de vinho tinto. Fiquei ainda mais chocado quando ele deu por encerrado o banquete com um arroto daqueles bem profundos.

Voltamos para os boxes e o cara estava com a pança inchada de tanta comida. Pô, Brambilla era um notório piloto e imaginei que daria um tempo para tentar digerir tanta farinha. Mas bastou ver passar pela reta o tal piloto para que insistisse em retomar os testes. Nossa, alojá-lo no cockpit e apertar o cinto foi a maior mão-de-obra e eu podia vê-lo e ouvi-lo arfando sofregamente. Ligaram o motor e o "Gorila" não permitiu sequer que aquecesse devidamente antes de partir, não para testar mas, muito claramente, para meter medo no antagonista num revide infantil.

Foi engatar a primeira marcha, entrar na pista, enfiar uma segunda e sair reto na primeira curva. Encravado no guard-rail por quase 10 minutos, ele saiu blasfemando direto para um hospital. Ao invés de soro deve ter tomado sal de frutas.

Naquele dia aprendi que para impor medo ou respeito não basta vontade.

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