Caracciola - Parte 4 Final

12/07/2011

Chegou à cidade pouco antes de começar a prova. Uma rapariga colocou um ramo de flores dentro do seu carro, e CARACCIOLA começou a dar a volta ao circuito, lentamente.

Por onde quer que passava Caracciola toda a gente se levantava de seus assentos e para o aclamar e animar como se lhe estivessem a dizer que desejavam ardentemente o seu regresso às pistas. O dia era magnífico, soalheiro e quente. O astro rei reflectia a sua poderosa luz na superfície do mar, banhando também os iates que estavam ancorados no porto.


As enormes rochas que rodeavam a cidade estavam cobertas por uma enorme multidão ávida de espectáculo. A Caracciola cheirava-lhe a primavera, amor e vida, além daquela emoção especial que se sente nos circuitos. A perna ainda lhe doía, conduzindo muito devagar para dar uma única volta e quando acabou teve de travar com a perna esquerda. Parou perante as boxes e apeou-se do carro. Aspirou com fruição o cheiro de óleo de castor queimado, que utilizavam os carros de corrida, ouvindo com deleite o suave rugir dos motores. Depois a bandeira caiu e os carros sairam lançados deixando atrás de si o fumo dos seus escapes que lentamente ascendia para o céu. Caracciola sentiu-se reviver.



Depois da morte de Charly não desejava já muitas coisas neste mundo, muito menos o pilotar carros de corrida, mas então reparou que o mundo das corridas era o seu mundo , o ambiente aonde ele únicamente podia respirar e talvez morrer. Sem aquilo não era nada. Desejava mais do que nunca voltar a correr num GP, sentir aquela poderosa força que se mexia sobre as suas mãos apoiar o seu pé no pedal e lançar-se para a frente, tornar a sentir-se como um gigante entre os homens. Correr... Naquela temporada acompanhou Chiron para todos os lados, seguindo os carros, animando seu amigo e tratando de ser útil nas boxes. Eram inseparáveis.


Chiron era um bom cómico por natureza e contribuia com seu bom humor para manter em forma o decaído espírito de Caracciola, por meio de suas pantominas e a sua sempre eterna alegria, enquanto a perna de seu amigo ia lentamente melhorando. No final da temporada, encontrava-se bastante bem para tornar a conduzir outra vez e ganhar de novo o GP de itália, embora sentisse uma dor aguda nas últimas etapas, pelo que se viu obrigado a ceder o volante a Fagioli. Passou o inverno. A perna por vezes ainda lhe doía, tendo ficado marcado por um sinal, que arrastaria até à tumba, pois a perna direita ficaria 2 polegadas mais curta que a esquerda. Caracciola tinha que fortalecer e reforçar os músculos para o que fazia exercício todos os dias.


Os GP eram naquele tempo corridas de grande duração. A perna tinha que estar suficientemente forte para resistir pelo menos cinco horas de competição, durante as quais , possívelmente teria que travar umas 2500 vezes. Chegaria a estar forte alguma vez?, o mundo insistia, que os campeões que por alguma razão se retiram, já não voltam mais. Mas ele Rudolf Caracciola , demonstraria que estavam enganados. E no ano de 1935 ganhou de novo os GP de França, Espanha, Tripoli, Bélgica e Suiça, quatro deles em tempo record, além de ganhar outras provas menores. Foi coroado campeão da Europa. Deve ter sido o melhor, visto que ganhou a maior parte das corridas quase sempre, mas foi um homem ao qual se fez muita pouca publicidade.



Era considerado inabordável e inacessível. Em lugar de escreverm sobre ele, fizeram-no a propósito de Nuvolari, Varzi, Chiron e outros mais. A lenda de que Caracciola era um campeão desaparecido , morreu como que por encanto visto ele estar a correr. Passou a guerra na Suiça. Possuia dinheiro mais uma pensão que lhe enviava a Casa Mercedes, e que era o que o ia mantendo até que devido à guerra, a Alemanha deixou de lhe enviar mais dinheiro. Quando esta acabou foi à América para correr em Indianápolis aonde se estatelou com um carro, permanecendo em coma dez dias. Mais tarde restabeleceu-se. Mas houve alguna amigos que disseram mais tarde que aquele desastre o tinha envelhecido repentinamente, e que passava largas horas a recordar o passado.



Em 1952 quando a Mercedes tornou a correr de novo, embora de forma limitada, Rudy foi chamado à fábrica novamente e apresentou-se no rallye de Monte-Carlo embora pilotando um carro fechado. Tinha 51 anos e apesar de sua idade, pilotando aquele tipo de carros, conseguiu as melhores marcas na corrida. A sua velha habilidade e astúcia que não tinha tornado a praticar nos últimos seis anos, ainda lá estavam... A Mercedes deu-lhe outro carro para correr as 1000 Milhas. Tratava-se também de um carro fechado. Esteve a praticar sobre o terreno durante quase dois meses e algumas vezes descrevia aos homens muito mais novos que ele, como era aquele circuito quando ele tinha ganho a corrida em 1931.



Durante a prova correu bem, com serenidade e perfeito controle, mas parecia estranhar o circuito que então era já bastante diferente de que quando ele tão intimamente o tinha conhecido. Apesar da boa corrida que fez, não conseguiu mais do que um 4º lugar. Mais tarde foi a Berna tomar parte numa prova de carros desportivos. Durante várias voltas ao circuito correu bastante bem, mas a seguir os outros dois Mercedes da Casa ultrapassaram-no. Eram pilotados por Herman Lang e por Karl Kling, ambos tão velhos como ele. Rudy parecia cansado. Na volta 13 despistou-se numa curva e foi bater contra uma árvore quando ia a 95 milhas/hora. O desastre deixou sua perna esquerda tão maltratada quanto tinha ficado a direita. Ficou oito meses com gesso.


Mas nunca mais voltou a correr. A sua última aparição numa corrida foi em 1958 em Le Mans ao dar umas voltas ao circuito conduzindo um antigo Mercedes do ano de 1930. Uns quantos jornalistas que tentaram aproximar-se dele para lhe fazerem umas perguntas, declararam que se mostrou tão inacessível como dantes. Caracciola morreu no ano seguinte de uma doença do fígado, que pode ter sido cancro, ou como alguns disseram, devido aos efeitos do acidente de Berna, sete anos antes. Quando o grande Caracciola morreu tinha 58 anos. Depois do funeral um dos directores da Casa Mercedes foi a sua casa para tratar de que tudo corresse bem. Entre as descobertas que se fizeram, havia uma adega onde Caracciola tinha armazenado vinhos e champanhes desde o ano de 1900.



Era a adega de um autêntico gourmet, própria de um exigentíssimo anfitrião, que desejava obsequiar devidamente seus convidados com o bouquet e paladar de bons vinhos. Mas Caracciola nunca tinha bebido uma gota de álcool e muito poucos visitantes acudiam a sua casa, partindo da hipótese de que ele preferia estar só. Contemplando aquelas poeirentas e inestimáveis garrafas, era possível chegar a acreditar que Caracciola sempre tinha desejado encontrar-se num círculo de pessoas alegres e sociáveis. Mas nunca o soube fazer. A única forma de expressão pessoal daquele formidável condutor era pilotar carros de corrida. Caracciola tinha vivido só e também morreu só.



IN CARS AT SPEED


ROBERT DALEY 1965

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