Ele viveu por seu sonho

04/07/2011


Dezembro de 1993 o telefone toca.

Depois de tantos anos no Japão, seria a chance que tanto esperava. Era Nick Wirth, dono de um novo time da Fórmula-1. A tarefa, nas palavras do dirigente, parecia simples. Deveria reunir uma certa soma em dinheiro para fazer parte do projeto Simteck.

Roland Ratzenberger, então, inicia uma corrida contra o relógio.
Antes mesmo das festas de fim de ano, vai em busca de amigos e patrocinadores. Consegue, com uma executiva monegasca, parte do dinheiro necessário. Mas, ainda não era o bastante. Precisaria de mais. Afinal, como sobreviver sem nenhum tostão no bolso?

Assim, vai à Áustria, onde coloca a casa e o "fusca" à venda.

Fevereiro de 1994

Mal podia acreditar que estava ali, no autódromo Enzo e Dino Ferrari, para testar, pela primeira vez um bólido de Fórmula-1. Aquele, sem dúvidas, era o dia mais feliz de sua vida. Pelo menos foi o que disse aos jornalistas que lá estavam. Porém, depois de tanto sacrifício, teria poucas chances para provar que não era velho demais para a categoria.

Seu contrato com a Simteck lhe daria direito a cinco corridas. Mas, aquele era seu momento. Finalmente, estava dentro do cockpit de um F1. Agora, era o momento de acelerar.

30 de abril, 1994

Pressão.

Já havia queimado uma chance no Brasil, após falhar na classificação para a corrida. Não conseguia se perdoar. No Grande Prêmio do Pacifico, termina na 11ª colocação. Um verdadeiro feito, em razão dos inúmeros problemas apresentado pelo S941. Mas, será que os dirigentes das grandes equipes teriam notado sua performance?

Com essa e muitas outras dúvidas, Ratzenberger coloca as luvas e a balaclava. Vai para a pista tentar fazer a diferença.

Tragédia

A tragédia de Ratzenberger acontece aos 18 minutos do treino oficial, quando seu carro passa reto pela curva Villeneuve, em Ímola, a 320 Km/h. As câmeras pegam o exato momento em que o carro, desgovernado, para atravessado na pista.

Após 12 anos, o circo convive novamente com uma tragédia. As entrevistas coletivas são suspensas. Sua morte é anunciada às 15h05, horário local. E, como em uma tragédia, no mesmo palco de sua estreia.

1º de maio

Ainda existem dúvidas em relação ao acidente. O francês Jean Alesi*, que assistia os treinos de uma tribuna, revela que presenciou o momento em que uma parte da asa do Simteck se solta. Um fotógrafo italiano resolve a questão, pois havia registrado o momento em que Ratzenberger atinge em cheio uma zebra.

Pressionado por Ecclestone, Nick Wirth anuncia que participa da corrida com David Brabham. "Em respeito à memória de Roland, vamos participar da corrida. Não há razão para que desistirmos. Roland amava as corridas e acreditamos que o desejo dele seria de que prosseguíssemos com a batalha".

Com um olhar distante, Ayrton Senna se acomoda dentro do cockpit. Inclusive, já havia preparado uma homenagem em caso de vitória. Carregava, consigo, uma pequena bandeira da Áustria. Para Ratzenberger restaram as notas de rodapé. Afinal, era um mero desconhecido do grande público.

***

*Jean Alesi recuperava-se de um acidente sofrido em Mugello, durante testes da pré temporada.

**Durante o tempo em que esteve no Japão, Roland pagou para o jornalista Adam Cooper escrever seus press-releases. O piloto utilizava essa ferramenta para manter dirigentes e jornalistas informados de suas performances. Temia que sua carreira caísse no ostracismo. Foi assim que Nick Wirth o descobriu no Japão.


*** A frase de sua lápide é o título desse texto.

****Ah, sim. O texto foi elaborado com base em inúmeros depoimentos do jornalista Adam Cooper, frequentador e colaborador do fórum AtlasF1.

Leia mais sobre o piloto.

Posts Relacionados

1 comentários :

PH Miniaturas disse...

Todos sentimos a morte de Ayrton Senna. Mas é triste que a sua tragédia tenha ofuscado quase que completamente a morte do jovem Ratzenberger, um piloto tão dedicado e apaixonado pelas corridas.

Para mim, assim como para todos que amam o esporte, aquele foi um fim de semana maldito. Todos tristes com a morte do austríaco. Infelizmente nunca vou esquecer minha mãe chorando. Mas vou então procurar lembrar dos bons momentos do austríaco.

No filme Senna, vi alguns registros dos testes dele, o quanto ele exigia de si mesmo, o quanto achava que estava maltratando o carro. Ele não merecia ter tido uma carreira tão curta. Que Deus o guarde, sempre.