François Cévert: O "playboy" de olhos azuis

20/08/2011

François Cévert teria sido talvez o mais romântico dos Campeões do Mundo, caso não tivesse morrido num acidente. Moreno e de olhos azuis, viveu a sua curta existência dividido entre duas paixões: as corridas e as mulheres. Cévert foi um dos pilotos mais queridos na F1, pela sua constante alegria e "glamour".
François Cévert  O "playboy" de olhos azuis -

François Cévert nasceu rico, em Paris. Filho do joalheiro judeu Charles Goldenberg, de origem russa e então já na meia idade - que, ainda menino, tinha acompanhado a família em 1905, fugindo às purgas imperiais - o seu nome completo era Albert François Cévert Goldenberg. Porém, depois da II Grande Guerra, durante a qual a família tinha escondido dos nazis as suas origens judaicas utilizando o apelido Cévert, quando o seu pai quis regressar ao original e patriarcal Goldenberg, o resto da família, liderada pela sua mãe Huguette, opôs-se - e François ficou Cévert até ao fim.

Também desde cedo, François era um assíduo frequentador da alta sociedade, dos seus bailes e festas épicas, derretendo corações e conquistando a beleza feminina com aqueles que foram considerados na altura os olhos mais azuis de França. Brigitte Bardot foi uma das que não lhe resistiram. Mais tarde, nos "paddocks" de F1 era frequente vê-lo rodeado de belas mulheres e sempre com o seu magnífico e contagiante sorriso: nada parecia conseguir pará-lo, no caminho para um sucesso tão magnífico como a sua vida.

Uma vida de adrenalina
Rico e audacioso, com o futuro garantido pelos milhões do pai já idoso, François Cévert - que era cunhado de Jean-Pierre Beltoise - tinha muito por onde escolher, para que a sua vida fosse sempre emocionante e repleta de adrenalina. A escolha recaiu na velocidade. Começou tudo por uma brincadeira, com a Vespa da mãe - lançando-se então nas corridas de motos. Contudo, gastou pouco tempo nas duas rodas: o seu coração balançava para os automóveis, mais "glamourosos" e atractivos.

A sua estreia aconteceu, no entanto, apenas depois de cumprir o seu serviço militar. Aos 22 anos, decidiu inscrever-se na escola de pilotagem de Le Mans, antes de passar para a de Magny-Cours e, finalmente, participar no Volante Shell; chegou à final e ganhou a última corrida. O prémio foi uma temporada no campeonato francês de F3, com um monolugar Alpine - mas, apesar de toda a sua força vontade e enorme desejo de ser bem sucedido, o ano não correu bem. O carro era pouco competitivo e, apesar de rico, não tinha fundos familiares que lhe suportassem esta paixão, demasiado arriscada e mortífera, nessa altura. Mas desistir não fazia parte do vocabulário de Cévert e, depois de garantir alguns apoios, trocou o péssimo Alpine por uma bem melhor Tecno, começando a ganhar corridas e sagrando-se Campeão Nacional de F3. Com este título no bolso, conseguiu um lugar na equipa oficial da Tecno, no Campeonato da Europa de F2. E foi aqui que a estrela de Cévert mudou de brilho - numa corrida em Crystal Palace, o jovem francês impressionou o escocês Jackie Stewart, com a sua coragem e ausência temerária de qualquer medo. E, claro, também pela sua fineza de pilotagem, onde conjugava perfeitamente o espectáculo das derrapagens controladas, com uma eficaz precisão de trajectórias. Impressionado, Stewart chamou a atenção do seu patrão, Ken Tyrrell, para aquele prodígio. O velho lenhador, uma vez mais, viu em Cévert um diamante em bruto - e convidou-o para a sua equipa de F1.

De bom aluno a delfim
François Cévert estreou-se na F1 em 1970, na Tyrrell, depois do súbito abandono de Johnny Servoz-Gavin. Nesse ano, apenas fez três provas mas, nas três temporadas seguintes, foi um fiel e brilhante aluno de Jackie Stewart. O escocês tomou à sua responsabilidade aquele piloto sempre sorridente e amigo do seu amigo e ensinou-lhe tudo o que sabia. Cévert não desdenhou o professor e provou-lhe que estava a ser um óptimo aluno ao vencer a sua primeira - e única - corrida, o Grande Prémio dos Estados Unidos, em Watkins Glen, em 1971. Cévert foi o segundo piloto francês a vencer uma prova de F1, depois de Maurice Trintignant, que triunfou duas vezes no Mónaco, em 1955 e 1958. Em 1972 e 1973, Cévert continuou a sua tarefa principal: a de escudeiro de Stewart, ajudando-o a lutar pelo título, tal como o tinha feito no ano anterior. O escocês foi batido em 1972 por Emerson Fittipaldi mas, em 1973, com o melhor carro do plantel e ainda melhor secundado por Cévert, garantiu o terceiro título antes do final da temporada. Nesse ano, Cévert foi segundo classificado tantas vezes, que ficou também conhecido como "O Poulidor da F1", numa referência ao ciclista seu compatriota, o eterno segundo no Tour de France. Porém, talvez também por isso mesmo, a estima de Stewart pelo seu pupilo e amigo chegou ao extremo de, quando decidiu intimamente abandonar as corridas - foi o segredo mais bem guardado da F1, nem a sua mulher Helen disso tinha conhecimento! - ter a certeza de que tinha no jovem francês o delfim mais perfeito. François Cévert estava bem preparado e pronto para ser campeão em 1974.

Porém, o destino não quis assim. Durante os treinos de qualificação para o Grande Prémio dos Estados Unidos, na infame pista de Watkins Glen, quando lutava com Ronnie Peterson pela "pole position", François Cévert perdeu o controlo do Tyrrell, nos "S", uma zona que a maioria dos pilotos fazia em quinta velocidade, a meio-gás, mas que ele optava por cumprir em quarta a fundo. O acidente foi provocado por uma das muitas bossas que o asfalto tinha naquele local; ao tocar o limitador, já descontrolado, o Tyrrell saiu de pista e embateu com enorme violência nos "rails" - que simplesmente funcionaram como catapulta, atirando o carro para o outro lado da pista. Onde também embateu nos "rails", mas de rodas para cima e no horrível ângulo de 90º - o que foi fatal para Cévert.

As barreiras metálicas actuaram com uma lâmina, retalhando o carro e o piloto, que teve morte imediata, ao ser degolado pelos "rails". José Carlos Pace, seu amigo predilecto, foi o primeiro a chegar junto dos destroços e soçobrou na pista, num choro convulsivo. Logo de seguida, parou Jackie Stewart, que não teve dúvidas sobre a sorte do piloto francês. Chocado, Stewart já não participou naquela que seria a 100ª e derradeira corrida da sua carreira - o seu delfim tinha desaparecido, da pior forma possível. Stewart nunca mais correu, dedicando-se com ainda maior fervor e convicção à premente questão da segurança em pista e nas estradas. Em Watkins Glen, quando se soube da morte do piloto de olhos azuis, o público nas bancadas levantou-se em massa, numa sentida e espontânea homenagem àquele que tinha tudo para suceder a Jackie Stewart na galeria dos Campeões do Mundo, mas que viu esse desiderato cruelmente cortado pelo destino.

fonte: autoandrive.com

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