GP da Itália de 2002

02/09/2011




Com estilo, Barrichello consegue algo que qualquer piloto gostaria de viver um dia: ganhar com a Ferrari diante de sua torcida no histórico circuito de Monza.


Um piloto de Fórmula 1 não pode querer muito mais: guiar para a Ferrari no melhor momento da história da equipe, vencer em Monza e ser aplaudido por uma multidão fanática num domingo de sol. Nem precisa ser campeão. E Rubens Barrichello realizou o que chamou de sonho: ganhou o GP da Itália, 15ª etapa do Mundial, com seu companheiro Michael Schumacher em segundo. Festa maior para os torcedores italianos, impossível.

Foi a sétima dobradinha da Ferrari no ano, a terceira com o brasileiro em primeiro lugar. Rubens chegou à quarta vitória na carreira e não escondeu a emoção. “Ali no pódio, eu via gente até onde meus olhos alcançavam. E uma sensação que pouca gente teve a chance de sentir. Bem que o Michael tinha me dito que era algo muito especial.” 

Barrichello venceu com estilo, sem precisar das infames ordens que sua equipe se especializou em dar na temporada. Ganhou a corrida na largada e na estratégia. Primeiro, conseguiu ultrapassar Schumacher, duas posições à frente no grid, e assumiu a liderança na quinta volta, ao superar o então líder Ralf Schumacher, que quebrou o motor de sua Williams, e Juan Pablo Montoya, que estava em segundo. “Vi que o Raif diminuiu, mergulhei e peguei o vácuo do Montoya. Foi uma volta perfeita e eu saí de terceiro para primeiro.” Schumacher faria uma parada apenas e saiu com o carro mais pesado. Rubens, com dois pit stops programados, tinha o carro mais leve e a obrigação de andar o tempo todo num ritmo muito forte. Pelas simulações da Ferrari, o tempo de prova com um ou dois pit stops seria mais ou menos o mesmo. A escolha de táticas diferentes para seus pilotos deveu-se à dúvida sobre o que a Williams iria fazer. No fim, uma preocupação desnecessária. Além do motor quebrado, o time teve também a suspensão danificada no carro de Montoya, que acabou abandonando.


O resultado foi definido após o segundo pit stop. Barrichello saiu dos boxes poucos metros à frente de Schumacher. “Estávamos dando tudo, eu e ele, mas quando Rubens saiu na minha frente, a equipe pediu que diminuíssemos o ritmo para não arriscar mais nada”, explicou Michael. “Foi uma vitória especial porque não foi dada, eu lutei o tempo inteiro e funcionou”, completou o brasileiro. Para Barrichello, a largada foi fundamental. “Eu passei o Michael e ele não forçou a barra porque tinha muita gasolina e não queria arriscar na freada”, contou. “Estou orgulhoso, porque foi o tempo todo em ritmo de classificação.” No final, Schumacher tirou o pé e chegou a ficar mais de 1s atrás do parceiro. Depois, encostou de novo. Rubens tinha à sua frente Coulthard e Fisichella disputando posição e ficou com medo de acontecer alguma coisa. “A equipe pediu para eu ter cuidado, porque tinha pedaço de carro voando para todo lado”, brincou. “Deixei os dois e fiquei assistindo de camarote.” Ao cruzar a linha, Barrichello abriu o rádio, ouviu um “parabéns do diretor Ross Brawn, e não se conteve. “A única coisa que eu cantava dentro do carro era tã-tã-tã”, disse, cantarolando o “tema da Vitória” da TV Globo, que virou sinônimo das vitórias de Ayrton Senna. Eddie Irvine, da Jaguar, fechou o pódio, que pela primeira vez no ano não teve apenas pilotos das três grandes equipes da categoria — Ferrari, Williams e McLaren. Desde o GP da Itália de 2001 isso acontecia. O irlandês teve uma atuação impecável. “Nada como ficar longe do pódio por um tempo. Quando a gente volta, é mais gostoso”, disse o último playboy da F-1. A Jaguar, que ficou 12 corridas sem pontuar, entre os GPs da Malásia e da Hungria, já havia dado sinais de recuperação na Bélgica, com o sexto lugar de Eddie. “Nosso carro não tem nada a ver com o que começou o ano”, explicou o piloto. “Mudamos tudo. Suspensão traseira, suspensão dianteira, bico, aerofólio, asa, defletores, motor. Só sobrou o banco. Hoje temos um carro competitivo. Nosso motor está entre os três melhores da F-1.” Irvine foi muito festejado em Monza. “Tenho uma casa em Milão. Quando me perguntam por que passo tanto tempo aqui, é só olhar lá fora para entender”, falou, apontando para a torcida. “Os italianos sabem se divertir.”




Nada divertido foi o domingo de Felipe Massa. O brasileiro foi ultrapassado por Pedro de La Rosa de maneira irregular – o espanhol cortou uma chicane -, perdeu a cabeça e deu um “totó” no piloto da Jaguar. Resultado: foi considerado culpado pelo acidente e recebeu uma punição de efeito retardado. Na prova seguinte, em Indianápolis, perderia dez posições no grid. A Sauber resolveu o problema tirando Felipe do GP dos EUA e colocou para correr Heinz-Harald Frentzen, já contratado para 2003. Massa achou que não fez nada de errado. “Ele me passou cortando a chicane e pela regra devei ia deixar eu passar de novo. Mas ficou na minha frente por uma volta inteira. Quando a gente chegou na Ascári, coloquei meu carro no meio da pista e ele tirou o pé. Aí acelerou de novo e nos tocamos. “De La Rosa não teve a mesma visão dos latos. “Ele fez uma das coisas mais inexplicáveis que vi em toda a minha carreira”, resumiu.




O FIM DE SEMANA

Recorde de 1971 continua de pé:
Ao tirar o pé nas últimas voltas, Barrichello perdeu a chance de estabelecer um recorde importante na F-1: o de corrida com maior média horária de todos os tempos. Ele passou a virar entre 3s e 6s mais lento do que na primeira parte da prova e fechou o GP na média de 241,090 km/h. O recorde continua sendo o de Peter Gethin, que ganhou em Monza em 1971 na média de 242,620 km/h.


F-1 chega ao mundo árabe:
Foi em Monza que autoridades do Bahrein comunicaram o ingresso do país no calendário da F-1 a partir de 2004. Um autódromo perto da capital Manama seria erguido a um custo de US$ 85 milhões, levando a categoria pela primeira vez ao mundo árabe. O projeto do circuito seria do alemão Hermann Tilke – responsável também pelos desenhos de Magny-Cours, Barcelona, Zeltweg, Sepang, Nürburgring e Hockenheim. Com 645 mil habitantes, Bahrein tem o tamanho da Baía de Guanabara e fica no Golfo Pérsico.


Colombiano veloz:
A média de velocidade da pole de Juan Pablo Montoya, 259,827 km/h, foi a mais alta para uma única volta na história da F-1. Ele superou a marca de Keke Rösberg, que fez a pole para o GP da Inglaterra em Silverstone/1985 na média de 259,005 km/h num Williams-Honda turbo. Na velocidade registrada pelo colombiano, é possível percorrer os 429 km entre Rio e São Paulo em 1h39min.


Os números de Monza:
Veja os principais números produzidos pelo GP da Itália: Schumacher foi a 128 pontos, recorde para uma temporada (o anterior era dele mesmo, 123 em 2001); o alemão chegou a 129 corridas na zona de pontos, também novo recorde (estava empatado com Prost, 128 vezes entre os seis primeiros); depois de 17 GPs apenas com McLaren, Ferrari e Williams no pódio, o monopólio das grandes terminou com Irvine, da Jaguar, chegando em 3º; Barrichello quebrou jejum brasileiro de 10 anos em Monza (a última vitória fora de Senna em 1992)

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