A Formula 1 e os seus públicos

10/10/2011

alonso en oviedoO post do leitor de hoje foi enviado por José Carlos Albuquerque. Vamos ao post dele.

Dois públicos, duas percepções

Uma das minhas professoras de teoria literária, sempre dizia que toda grande obra de arte tem diferentes níveis de leitura. Formula 1, obviamente, não é arte, mas assim como a boa arte, sua complexidade acaba dividindo o seu público em vários grupos distintos, que têm diferentes percepções do jogo.

Eu e você, com perdão da pouca modéstia, podemos ser enquadrados entre a elite, aqueles que absorvem o esporte com prazer e conhecimento análogo àqueles que degustam um belo Chianti.

Esses finos apreciadores podem ser chamados de entusiastas. Eles são capazes de destrinchar detalhes técnicos e históricos do esporte; interessar-se pela sua faceta política ou midiática — ou, simplesmente, se divertir com elaborados e aparentemente inúteis detalhes estatísticos. São essas pessoas que entendem as sutilezas da F1, que são capazes de entender e respeitar o valor de cada piloto ou equipe, que vagam pela internet à busca de informação detalhada e acurada sobre o esporte.

Como conseqüência de tão profundo interesse, são eles que criam e elaboram conteúdo paralelo ao fornecido pelos veículos de comunicação já consagrados, escrevendo sobre o esporte em blogs e que encontram-se em fóruns para discutir esses intrincados detalhes.

O outro grupo, maior e mais homogêneo, é aquele capturado pela voracidade da televisão ao redor do mundo. São, mais distintamente, “telespectadores”. Eles jamais construirão a sua rotina de final de semana em torno do grande evento da F1, a corrida. Jamais se disporão a consumir altas cargas de crua informação para discutir o esporte à exaustão após cada corrida. O grande apelo que mantém esse público atado ao esporte é, na maioria das vezes, o apoio a qualquer piloto (às vezes equipe) que com ele divida a mesma nacionalidade.

Para a FOM, companhia detentora dos direitos da F1, o público mais importante, não há muita dúvida, é esse, maior e mais homogêneo, mas menos crítico e hábil para perceber as sutilezas e detalhes do esporte.
A influência da TV e do público sobre a F1

A influência da TV e do público sobre a F1

No decorrer dos anos, a F1 tornou-se cada vez mais dependente do dinheiro proveniente dos direitos de exibição da TV. Não é raro que a procura da FOM por audiência comprometa a identidade da categoria e a deforme como esporte, tornando-a mais confusa. Não é coincidência, então, que há décadas atrás, quando a influência desse público e da televisão eram menores, o esporte tinha regras técnicas mais consolidadas e estáveis.

A adoção do safety-car e do reabastecimento no início da década de 90, as sucessivas formatações da classificação, ou mesmo a recente e malograda sugestão na mudança do sistema de pontuação, são exemplos do esporte sofrendo mutações no decorrer dos anos em nome do espetáculo e da necessidade do telespectador por entretenimento.

Para esse público, o que importa é apenas a ação na pista, comprimida naquela quantidade de tempo, inserido dentro de uma grade de televisão imutável.

É para esse público que a FOM tenta formatar o esporte, usando como ferramenta a FIA, entidade que o gerencia, para injetar via regulamento doses maciças de entretenimento em suas veias.

Portanto, há um claro embate entre a integridade histórica da F1 como esporte, valorizada pelos fãs “hard-cores”, e sua viabilidade econômica, provida pelo público médio da televisão, fornecedor dos gordos pontos de audiência ao redor do mundo.

Nem sempre o desejo desses dois públicos é conflitante. De fato, na maioria das vezes, suas aspirações quanto à direção do esporte são convergentes. Às vezes, FIA e FOM tendem a subestimar a mentalidade do telespectador médio e a insultar a inteligência do entusiasta aculturado do esporte, tomando decisões unilaterais sem sustentação de dados reais provenientes de pesquisas.

A missão de FIA e FOM, então, é encontrar o equilíbrio que torne a F1 novamente um esporte íntegro, com regras claras e simples. Que mantenha, ao mesmo tempo, vivo o DNA histórico do esporte e lhe ofereça rentabilidade econômica na mesma proporção.

Será que Max Mosley e Bernie Ecclestone estão preparados para tal missão?

A FOTA pode ser a resposta

A FOTA, entidade representativa das equipes, parece ter a chave para manter tal equilíbrio. No início desse ano, a entidade liderada por Luca di Montezemolo fez razoáveis sugestões para uma reformulação da categoria que mantivesse sua identidade e também viabilidade econômica. O mais importante é que a FOTA baseou suas sugestões para a FIA em uma ampla pesquisa global de mercado feita em 17 países, indagando e sugerindo soluções ao próprio fã da categoria.

A Formula 1 é o esporte mais complexo que existe, que converge ao mesmo tempo a mais alta tecnologia e o elemento humano em um mesmo universo competitivo. Para mantê-lo vivo e saudável é preciso ter essa mesma perspectiva: tecnológica, humana e histórica.

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