GP do Japão de 1987

07/10/2011

A conquista do terceiro Mundial foi mais fácil do que se imaginava: no primeiro dia de treinos no Japão, o rival Mansell acabou nocauteado pelo próprio desespero:

Circuito de Suzuka, 30 de outubro de 1987. Primeiro dia de treinos para o Grande Prêmio do Japão. Apenas Nelson Piquet e Nigel Mansell brigam pelo título na penúltima corrida da temporada. E como brigam. Se sempre foi assim, agora é mais do que nunca. Cada milésimo de segundo será disputado palmo a palmo entre os pilotos da Williams. O primeiro round é pela pole position. Mansell sai na frente. Piquet não deixa barato e baixa o tempo do inglês, que parte desesperado tentando recuperar a preciosa pole. Quando seu carro pinta na curva, ninguém pode imaginar que dali a segundos o Mundial de Pilotos vá chegar ao fim. Mansell bobeia, roda e bate forte nos muros de proteção. Nocaute: o grande rival de Piquet está fora de combate. Piquet é campeão do mundo pela terceira vez. “O melhor piloto é aquele que comete poucos erros”, já se cansou de falar Nelson Piquet a quem queira ouvir. Certamente esse pensamento lhe voltou novamente à cabeça depois do acidente de Mansell. E partiu para a comemoração antecipada de seu tri-campeonato. Uma glória que poucos monstros sagrados do automobilismo podem exibir em seus currículos. Quatro, para ser mais exato: o australiano Jack Brabham, o escocês Jackie Stewart, o austríaco Niki Lauda… e o brasileiro Nelson Piquet.

Eles só perdem para o monstríssimo argentino Juan Manuel Fangio, pentacampeão na década de 50.

Se dependesse da vontade do pai, Piquet seria hoje um campeão no tênis. Se dependesse da mãe, seria um executivo ou alto funcionário federal, como os irmãos. Só que Nelson decidiu bem cedo que se tornaria um dos maiores pilotos do mundo. Trilhando uma carreira brilhante até chegar a três títulos na mais competitiva fórmula de automobilismo internacional. Sujando as mãos ao preparar seus carros nos duros tempos do começo de carreira. Transformando-se num dos maiores test-drivers da Fórmula 1. Travando inesquecíveis batalhas nas pistas. Suportando inúmeros problemas de relacionamento dentro de sua própria equipe, exceção feita ao pessoal da Honda. Piquet parte agora para uma nova etapa. No ano que vem, estará ao volante da Lotus. E lá que continuará fazendo o que mais gosta na vida: correr a 300 km/h ouvindo o ronco de um motor. “Eu não sei fazer nada a não ser isso”, diz ele. “A competitividade, o trabalho, a perfeição me fascinam.” Segue em frente, Piquet. A nossa torcida antecipadamente te agradece. Vai firme, tricampeão!

CURIOSIDADES
  • Segunda vitória e segunda pole position na carreira de Gerhard Berger, que já soma 51 GPs.
  • Pela 13ª vez em quinze corridas, pelo menos um brasileiro subiu ao pódio nesta temporada.
  • Primeira corrida do brasileiro Roberto Moreno na F1.
  • Primeira vitória da Ferrari após 37 corridas. A tradicional equipe italiana não ganhava desde o GP da Alemanha, em 1985.
  • Piquet está prestes a bater um recorde histórico na F1: o de total de pontos numa temporada. Se terminar entre os seis primeiros na Austrália, ele quebrará o atual recorde, de Alain Prost, que somou 76 pontos reais em 1985.
  • Com 41 vitórias, o Brasil é o terceiro maior vencedor na Fórmula 1, ficando atrás apenas da Grã-Bretanha (129) e da França (54). Em títulos mundiais, agora é o segundo, com cinco, empatado com a Argentina. A Grã-Bretanha lidera com dez.

UMA GRANDE FESTA

Brasileiros, japoneses e italianos tiveram motivos de sobra para comemorar a penúltima etapa do Mundial. Só mesmo os ingleses é que não tinham por que estar alegres:

Se não fosse uma corrida de automóveis, o GP do Japão bem que poderia ter sido apenas uma grande festa. Afinal, o que não faltou ali foram comemorações. Comemoraram os brasileiros com o tricampeonato antecipado de Nelson Piquet e o segundo lugar na prova de Ayrton Senna, que, assim sendo, ainda pode ser vice-campeão, completando uma dobradinha histórica para o país. Comemoraram os japoneses com a sexta posição na corrida do ídolo local Satoru Nakajima e com o título de campeã para a Honda. E, principalmente, comemoraram os italianos com a magnífica vitória, de ponta a ponta, do austríaco Gerhard Berger, interrompendo um jejum de mais de dois anos da Ferrari sem ganhar um GP.

Só mesmo quem não teve motivos para vibrar em Suzuka foram os ingleses. Eles esperavam ver rolar a disputa pelo título até a última volta do GP da Austrália, mas acabaram tendo de engolir a derrota de Nigel Mansell antes mesmo da largada do GP japonês.

REGINALDO LEME

Enquanto pode, a Williams tentou convencer Mansell a toner, ele é que não quis.
O tricampeonato de Nelson Piquet começou a ser ganho na última corrida do ano passado, na Austrália. Ali, ao terminar a temporada em terceiro lugar, tomou a decisão de se preparar com muito mais rigor para ser campeão em 1987. “Só a falta de preparo físico explica os erros que cometi no ano passado. Por isso, este ano passei o inverno inteiro fazendo muita ginástica e me preparando mentalmente para aumentar meu poder de concentração e, assim, errar menos.” Hoje. Piquet tem certeza de que esse trabalho valeu. Mas nem por isso teve um ano tranqüilo. O acidente em Imola, logo na segunda prova da temporada, o afetou bastante. Passou a duvidar de tudo, até mesmo se deveria continuar correndo. E, se fosse para continuar, teria que mudar de equipe. Mas para qual? Inseguro, o brasileiro temia não encontrar uma outra grande equipe para correr em 1988, porque vinha perdendo prestígio rapidamente. Tudo, porém, logo mudou. Apesar da sorte que ele mesmo reconhece ter tido em algumas ocasiões na temporada, este foi o mais difícil ano de Piquet na F1. Os três meses seguintes ao acidente de Imola foram terríveis: sentia dores musculares e na cabeça, tinha problemas estomacais e dormia com dificuldade. “No máximo três ou quatro horas por noite e sempre um sono muito agitado.” Piquet procurou esconder isso de todo o mundo. Não falava porque, caso contrário, teria de procurar um médico, e isso é uma das coisas que mais detesta na vida. Na pista, sua maior vitória foi ter passado de derrotado a campeão. “Eu achava que não tinha mais chances e pensava assim: bom, se não posso vencer, tenho que chegar em segundo, porque isso poderá valer alguma coisa mais tarde.” Valeu. O tri foi, na verdade, um título sofrido. Não lhe caiu de graça com o acidente de Mansell, como se poderia pensar. Até porque, se Mansell não pôde correr no Japão, Piquet também não o fez em Imola. E mesmo assim foi campeão com boa margem de pontos. Dentro da Williams, o brasileiro enfrentou muitos problemas que acabaram por criar “uma situação dura, cheia de atitudes baixas, sujas, traiçoeiras mesmo”, como denuncia. Foi uma temporada de muitas rivalidades. principalmente com Ayrton Senna e Mansell. “O Senna é hoje o mais habilidoso piloto da F1, mas se perde em precupações que não são prioritárias. Nossa briga este ano foi por bobagens de ambos os lados. Mas um dia isso acaba. Ele é um piloto que qualquer equipe gostaria de ter. Até eu queria tê-lo, se fosse dono de uma. Já com o Mansell é diferente. Ele passou o ano todo jogando sujo, fazendo fofoca com os meus mecânicos. No México, chegou a dizer para a equipe que havia tentado jogá-lo fora da pista enquanto tudo que eu fiz foi valer o meu direito de escolher o melhor traçado para ultrapassá-lo na segunda largada.”
Mas a maior mágoa que Piquet leva da temporada foi a política adotada pela equipe em favor de Mansell. A tal ponto que só recebeu a confirmação de que Mansell não iria correr no Japão doze horas depois de o próprio inglês afirmar para Frank Williams que não queria mesmo correr. Ou seja, a Williams ficou doze horas tentando convencer Mansell a largar, porque essa era a última chance de ainda roubar o título de Piquet. Não foi. E Piquet levou a melhor. De novo.

Comentarista da Rede Globo de Televisão

PRÓXIMO GP

GP DA ÁUSTRALIA – ADELAIDE – 15 DE NOVEMBRO

Agora a luta é de Senna pelo vice, fechando a dobradinha brasileira
Pela terceira vez, a cidade de Adelaide, na Austrália, terá o privilégio de encerrar a temporada. Só que, ao contrário do ano passado, desta vez não estará em jogo o título de campeão, mas apenas o de vice. E, também aí, pode dar Brasil. Ayrton Senna poderá ser vice-campeão no lugar de Mansell, se ganhar a corrida. Neste caso, mesmo que o inglês termine a prova em segundo lugar, a dobradinha brasileira estará garantida. Há 23 anos, desde 1964, quando os ingleses John Surtees e Graham Hill foram, respectivamente, campeão e vice, que isso não acontece na F1. As chances de Senna são bem grandes, pois, além de ainda não estar certa a participação de Mansell na prova. Adelaide é um circuito que agrada ao brasileiro: é de rua e ideal para as suspensões computadorizadas da Lotus.

fonte: http://f1gps.wordpress.com

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1 comentários :

TW disse...

bons tempos aqueles !! Que lembrança!! parabéns!

abs