Entrevista com Luca Colaianni

23/11/2011

Luca Colaianni, 46 anos, é uma testemunha ocular do que aconteceu na Ferrari nos últimos Mundiais da Fórmula 1. Funcionário da equipe há 20 anos e desde 1999 responsável pela comunicação esportiva da montadora, ele coleciona até alguns fãs na Itália que criaram uma comunidade no Facebook fazendo campanha para vê-lo no lugar do presidente Luca di Montezemolo.


Foi com essa bagagem que ele concedeu entrevista exclusiva  nesta quarta-feira, quando acompanhou Felipe Massa em um evento aberto ao público em um shopping da zona sul de São Paulo. O italiano admitiu que o brasileiro está sob pressão para reagir na próxima temporada, negou existir um primeiro piloto na escuderia, comentou sobre a possível aposentadoria de Rubens Barrichello e confirmou uma mudança no planejamento da Ferrari, contando detalhes sobre o recém-criado programa de desenvolvimento de jovens pilotos do time.

Nesse trabalho de base, Massa e especialmente Fernando Alonso - segundo Colaianni "o melhor piloto" da atualidade - são "pontos de referência". A iniciativa pretende no futuro ceder um cockpit vermelho a nomes como o mexicano Sergio Perez, 21 anos, e o francês Jules Bianchi, 22. Esse futuro pode ser já daqui a dois campeonatos, como especula a imprensa italiana? "2013 está ainda muito longe", desconversa o simpático e atencioso dirigente. Enquanto o brasileiro vive em 2012 o último ano de seu contrato com a equipe, o espanhol renovou em maio passado o vínculo até 2016.

Confira os melhores trechos da entrevista:
 
O presidente da Ferrari Luca di Montezemolo disse na última terça-feira que Massa joga a "reconfirmação" de seu valor na próxima temporada. Essa declaração coloca pressão extra no brasileiro?
Felipe é o primeiro a saber que no próximo ano seu contrato termina, então é claro que se alguém deve decidir se vai renovar um vínculo é importante o que vai ser feito no ano que vem. Creio que Felipe sinta algum tipo de pressão.

Como a Ferrari avalia o desempenho de Massa em 2011?
É uma avaliação comum: não foi o melhor ano nem para a Ferrari nem para Felipe. Dito isso, sabemos quanto vale Felipe, não há discussões sobre isso. Ele tem ainda um ano de contrato e em 2012 tem todo o potencial para mostrar o que vale. É claro que a nós cabe a tarefa de lhe dar um carro que esteja à altura da situação.

Como está o relacionamento entre o brasileiro e a equipe - os mecânicos e os demais funcionários?
Felipe cresceu com nós. Quando o conhecemos tinha 20 anos, era um garotinho e se tornou um homem, um pai, um marido, há um relacionamento especial entre nós e ele. Quando o conheci também eu era jovem para o mundo da Fórmula 1. Juntos crescemos com tantos outros - mecânicos, técnicos. Posso apenas dizer que é um relacionamento de família.

Di Montezemolo afirmou também que Alonso é o melhor piloto da Fórmula 1. Você está de acordo?
Sim, para mim Fernando é o melhor piloto que compete no campeonato. O fato que tenha obtido dez pódios (em 18 corridas na temporada até aqui, contra nenhum de Massa) com um carro não competitivo ao nível máximo mostra ainda mais o seu valor.

Superior, portanto, a Massa.
É claro. Se devo avaliar o que foi o ano de 2011 seguramente Fernando obteve resultados melhores. Isso dizem os números (são 245 pontos contra 108).

Mas então a Ferrari terá um primeiro e um segundo piloto definidos desde o início de 2012?
Não, não. O primeiro piloto é quem vai mais rápido. Sempre foi assim, não vejo porque se volta sempre a essa questão. (Já) mostramos com os fatos que se há um piloto mais veloz que o outro, quando é o momento de poder fazer alguma coisa para ajudar esse piloto a ter certos resultados, a equipe trabalha nesse sentido. Foi assim entre Kimi (Raikkonen) e Felipe em 2007 (quando o brasileiro cedeu a vitória na última prova do ano, em Interlagos, levando o finlandês ao título mundial) e de modo invertido em 2008. (Até agora) não nos encontramos de novo nessa condição: em 2010 houve uma corrida na qual os dois pilotos - os dois pilotos (repete), porque as ordens de equipe estavam proibidas - avaliaram aquilo que era melhor para o resultado geral da Ferrari. (Colaianni cita o GP da Alemanha, no qual Massa liderava e facilitou a ultrapassagem do parceiro na 49ª volta após receber uma polêmica indicação via rádio: "Fernando é mais rápido que você, você confirma que entendeu a mensagem?").

Muito se especula que Jules Bianchi e Sergio Perez poderiam substituir Massa a partir de 2013. A Ferrari pretende trabalhar mais com pilotos jovens para os próximos anos?
Em 2009 criamos um programa que se chama Ferrari Driver Academy, que tem o objetivo de criar o que poderá ser um piloto de F1 crescido na nossa base. É um programa claramente a longo prazo, não é uma coisa que acontece da noite para o dia. Começamos a trabalhar com um grupo de pilotos cujas idades e categorias das quais participam são variadas - se vai desde (o canadense) Lance Stroll, um garotinho de 13 anos que corre de kart, a Raffaele Marciello (suíço, 16 anos) e Brandon Maïsano (francês, 18), que correm na Fórmula 3 Italiana; temos também Jules Bianchi, que no ano passado e neste competiu na GP2 e que foi protagonista dos três dias de testes em Abu Dhabi (segundo colocado em dois dias dos trabalhos dedicados a novatos na semana passada, só atrás do compatriota Jean-Eric Vergne, da Red Bull); e depois entrou em 2010 no programa um piloto que já fez sua estreia (na F1) como Sergio Perez (que defende a Sauber).

Esse programa representa uma mudança no planejamento geral da Ferrari? E Alonso pode ser considerado um ponto de referência para esses jovens?
Sim, Fernando e Felipe. Claro que se você é um jovem que se aproxima do automobilismo seu sonho é chegar à máxima competição, à F1. Começando a fazer parte de um programa da Ferrari é óbvio que suas referências sejam os pilotos oficiais. Acontece - não frequentemente, mas acontece - de esses jovens encontrarem em Maranello (sede da escuderia) Felipe e Fernando, quando eles estão presentes. É claro que para todos o sonho é um dia conseguir aquele posto. Quando e se acontecerá só podemos saber no futuro.

Esse futuro pode vir já em 2013?
Veremos. 2013 está ainda longe, agora estamos concentrados em 2012.

Falando em 2012, como está o desenvolvimento do carro?
Estamos trabalhando, mas só quando começa a ir à pista para os primeiros testes começamos a ter uma sensação. E a verdade se descobre apenas no primeiro treino classificatório, em Melbourne (na Austrália, prova que abrirá o próximo campeonato).

Di Montezemolo chegou ainda a dar declarações fortes cobrando mudanças na Fórmula 1. Qual é exatamente a posição da Ferrari?
Acreditamos em uma Fórmula 1 que se deve renovar na qual existam a máxima competição tecnológica e a possibilidade de transferência de tecnologia entre a pista e a estrada. Se você observar os carros de hoje, vê que o que faz diferença em termos de desempenho é a aerodinâmica, mas o que vem da aerodinâmica para carros de rua - e até para carros de alta performance? Pouco ou nada. Então, para o bem da F1, creio que seja o momento de reequilibrar o peso dos vários elementos, tornando a mecânica e o motor fatores mais importantes.

O outro ponto é o dos testes. Passamos de ter um ano como 2005 em que fazíamos 90 mil km de testes durante a temporada a agora, quando não se pode testar por mais de 15 dias, não se faz mais de 15 mil km. Francamente isso não faz sentido para o desenvolvimento do carro e também impede os jovens de crescer. Penso em Jules: ele pôde guiar só em Abu Dhabi por três dias. No ano teve apenas algumas oportunidades em testes aerodinâmicos e alguns "filming days" (demonstrações). Como faz para crescer? Como faz para adquirir a experiência necessária?

Você trabalhou com Rubens Barrichello entre 2000 e 2005 na Ferrari. Ele chega ao GP do Brasil deste fim de semana podendo se despedir da F1. Você torce para que ele continue nas pistas?
Visto como correu em Abu Dhabi (onde o brasileiro da Williams largou na penúltima colocação e terminou na 12ª), ele mostrou ter ainda uma grandíssima vontade de lutar. Desejo que ele encontre ainda um volante no próximo ano. Rubens fez uma carreira - para mim - extraordinária, venceu tanto (soma 11 vitórias na categoria). Não conseguiu ganhar o Mundial provavelmente porque quando teve o carro para isso - com nós - teve ao lado o maior piloto da história, que na minha opinião continua sendo (o alemão) Michael Schumacher.

O Brasil corre o risco de encerrar uma temporada sem ao menos um piloto subindo no pódio pela primeira vez desde 1998. Como você vê a fase atual do País na F1?
São momentos cíclicos que vivemos também na Itália. Há alguma coisa de semelhante entre a Itália e o Brasil, países que têm uma tradição fortíssima em termos de pilotos. Falta uma geração intermediária. Na Itália depois de (Jarno) Trulli (37 anos, atualmente na Lotus) e (Giancarlo) Fisichella (38 anos, atualmente colaborador da Ferrari) não tivemos um piloto da geração de 25 anos - aqui tem um (Colaianni interrompe a entrevista e cita Massa, que naquele momento chegava ao evento e cumprimentava carinhosamente o italiano).

O Brasil tem Rubens, Bruno (Senna) - que chegou de uma maneira um pouco atípica, não fazendo um percurso linear -, e vejo que depois há dificuldade para encontrar mesmo nas categorias inferiores um piloto brasileiro pronto para dar o salto à F1. São momentos difíceis e o próprio Felipe está empenhado nisso com a Fórmula Futuro (categoria criada em 2010 por Massa) porque ele sente que haja alguma coisa que está faltando.

fonte: terra.com.br

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