Como passou um titulo de mãos dentro da Mclaren!

08/12/2011

Como passou um titulo de mãos dentro da Mclaren! -


Derrotado por Senna em 1988, Prost resolveu usar no Ano seguinte a mesma estratégia de 1988 e foi bastante regular durante 1989, conseguindo vários pódios, enquanto Senna seguia o lema do 'win or wall'. Em certo momento do campeonato, Senna e Prost ficaram empatados com 27 pontos, mas com o brasileiro tendo três vitórias e o francês apenas uma. Desde a confusão em Ímola, os dois protagonistas deixaram de se falar, mas cada entrevista dos pilotos da McLaren era cercada de cutucões e acusações veladas ao adversário. Mesmo com quatro vitórias, Prost tinha uma boa diferença de 16 pontos com relação a Senna, que contava seis triunfos após o GP de Espanha desse Ano. Porém, o sistema de descartes ainda dava esperanças ao brasileiro, mesmo que Ayrton ainda tivesse a difícil missão de obter duas vitórias nas duas provas restantes, enquanto Prost, que não podia mais descartar pontos, tinha que evitar uma vitória de Senna. Fosse da forma que fosse!

Durante os treinos, Prost anuncia que ganharia o campeonato no Japão e por isso mudaria sua atitude, sendo mais agressivo, principalmente com Senna. O francês já havia deixado a porta aberta para Senna algumas vezes e o recado estava dado. Prost fecharia a porta a Senna, não importando em que situação. Como de costume, Senna consegue uma volta voadora e incrível nos treinos, colocando impressionantes 1,7 segundos em cima do tempo de Prost, o segundo colocado no grid. Ambos sairiam na primeira fila para a largada mais importante da carreira deles!

Grid:

1) Senna (McLaren) - 1:38.041

2) Prost (McLaren) - 1:39.771

3) Berger (Ferrari) - 1:40.187

4) Mansell (Ferrari) - 1:40.406

5) Patrese (Williams) - 1:40.936

6) Nannini (Benetton) - 1:41.103

7) Boutsen (Williams) - 1:41.324

8) Alliot (Lola) - 1:41.336

9) Modena (Brabham) - 1:41.458

10) Larini (Osella) - 1:41.519

O dia 22 de outubro de 1989 estava nublado no Japão, num clima muito parecido com o do ano anterior, onde Senna havia conquistado a vitória e o título de 1988, mas a diferença era que a chuva, tão favorável a Senna e que o tinha ajudado no ano anterior, não faria a sua aparição naquele ano. Já era um ponto a favor de Prost, que não se impressionou muito com a diferença brutal que o separou de Senna no grid. O francês já havia levado surras semelhantes ao longo do ano e Alain era o rei da pressão psicológica e dos ‘mind-games’, portanto isso não seria um factor contra Prost. Uma das virtudes de Ayrton Senna era ser exímio nos arranques, mas Suzuka parecia não concordar muito com essa virtude do brasileiro e como havia acontecido em 1988, Senna larga mal e Prost assume a liderança da corrida. Porém, Ayrton não perde mais nenhuma posição e permanece em segundo, logo atrás do seu companheiro de equipe.

Ao final da primeira volta, haja o que houvesse do terceiro lugar para trás, os demais 24 pilotos eram personagens menores naquele dia no Japão. As estrelas do dia Prost e Senna abriam uma enorme diferença para os demais, mas o francês começava a distanciar-se do seu rival. A cena mais comum de ver Senna abrindo com relação a Prost era vista exatamente ao contrário naquele início de corrida, com Prost abrindo diferença frente a um impotente Senna, que parecia não ter muito a fazer. Os carros estavam bastante iguais, com a diferença entre os dois McLarens a ficar apenas à conta do acerto de cada um. Prost acertara seu carro para ser muito rápido nas retas, sendo um dos mais rápidos no speed trap, enquanto Senna preferiu um acerto que o ajudasse nas curvas rápidas do circuito japonês. Na curva 130R, a última antes da chicane, Prost rodava em sexta e tinha que enfileirar as marchas até a segunda na travagem, enquanto Senna contornava a rápida curva de quinta velocidade, com o motor se aguelando, mas tendo menos trabalho na travagem. Era uma briga nos detalhes!

Prost mostra o quanto estava agressivo no trato com os retardatários, deixando-os para trás quando normalmente ele perdia tempo, algo que Senna conseguia tirar uma vantagem significativa. Quando o francês faz sua única visita à box na volta 21, quase atinge o Ligier de Olivier Grouillard e sai escorregando do pit lane. Senna faz a mesma manobra duas voltas depois, devolvendo a liderança de 5 segundos a Prost, mas havia uma mudança significativa. Aquele set de pneus do McLaren número 1 parecia ser mais de acordo com o brasileiro e Senna passou a tirar a diferença para Prost. Alain permanecia com um ritmo forte, mas a aproximação de Senna era inexorável e a disputa que definiria aquele campeonato aproximava-se a cada metro. O clima carrancudo no circuito de Suzuka contribuía para que a enorme tensão ficasse ainda mais aparente no circuito. Todos esperavam pela disputa entre Senna e Prost. Se a agressividade de Senna era conhecida, havia a curiosidade de como se comportaria um 'agressivo' Prost.

Na volta 40, com menos de treze para o final, a diferença entre os líderes era inferior a 1 segundo e todos no circuito e na televisão estavam com a respiração ofegante. Graças ao seu acerto, Prost resistia na primeira posição sem muito esforço, enquanto Senna parecia sem muitas condições de ataque. Então, na volta 46, um dos lances mais polémicos da história do automobilismo mundial acontece. Saindo da curva 130R, Senna tenta um ataque desesperado e trava tardíssimo para a última chicane, surpreendendo Prost, que deixara a porta razoavelmente aberta. Por enquanto. O francês, como mostrava a sua câmera on-board e as imagens de helicóptero, joga sua McLaren em cima de Senna, fazendo que ambos, com as rodas enroscadas, fossem para a área de escape da chicane de Suzuka. Imediatamente Prost sai do seu carro, enquanto Senna gesticulava em direção ao francês. Sem tempo a perder, Ayrton pede para que seu carro seja empurrado, enquanto Prost já tirava seu capacete. Aqui vale um detalhe. Nunca foi permitido que um carro fosse empurrado para que o motor funcionasse e o piloto voltasse a corrida. Se Senna e os fiscais de pista sabiam disso ou não, o fato foi que uma multidão de japoneses (provavelmente ídolos de Senna, quase que um semi-Deus no Japão) empurraram o McLaren do brasileiro e Senna cortou a chicane e partiu novamente para a corrida.

Faltavam sete voltas e mesmo com o agora segundo colocado Alessandro Nannini quase um minuto atrás, a asa dianteira do McLaren estava claramente avariada e durante a volta 46 o aerofólio se soltou, fazendo com que Senna diminuísse o ritmo e fosse lentamente à box. A McLaren fez uma troca rápida e o brasileiro voltou a pista que nem um louco, rodando mais de 3 segundos mais rápido que Nannini. Faltando três voltas para o fim, Senna alcançou Nannini na mesma curva do incidente com Prost e meteu o bico por dentro. O italiano da Benetton queimou a travagem, mas deixou a porta aberta para que Senna assumisse a liderança e recebesse a bandeirada em primeiro. Contudo, a irregularidade de Senna tinha sido clara, como dizia o comentador global e Galvão Bueno nem pôde berrar muito quando Senna cruzou a linha de chegada de uma das corridas mais emocionantes da sua carreira e da história da F1. O narrador sabia que uma punição poderia surgir e as câmeras logo procuraram Ron Dennis, que parecia preocupado, conversando pelo rádio.

A demora no pódio era o claro sinal do que estava para acontecer. Quando Nannini, Patrese e Boutsen apareceram para receber seus prémios, o campeonato de 1989 estava definido. Senna tinha sido desclassificado (justamente) por ter recebido ajuda externa e por ter cortado caminho ( aqui história para lá de mal contada) e Prost era agora o sexto tricampeão mundial de F1 da história. Senna ficou arrasado e a equipa McLaren apelou da decisão, já que seu piloto em 1990 não seria Prost, mas Jean-Marie Balestre, grande amigo de Prost, já tinha se metido na contenda e aumenta a punição a Senna, chegando a suspender a super-licença do brasileiro por seis meses. Ayrton teve mesmo de fazer um pedido de desculpas formal e a decisão acabou ali. Pelo menos por enquanto... Totalmente sem jeito, Prost comemorava seu título e ainda teve fôlego para atacar Senna. "Estava impossível trabalhar com Ayrton. O problema não é a forma como ele corre, já que ele é incrivelmente rápido, mas ele simplesmente não aceita perder. Se houvesse dois pilotos como ele, toda a corrida haveria um acidente. Eu tinha dito que não iria abrir a porta e por isso sabia que o campeonato terminaria assim e cumpri a promessa." Essa batalha épica em Suzuka apenas reforçou o mito de Ayrton Senna e Alain Prost, pois ambos fizeram uma corrida que emocionou a todos os fãs e que ninguém esquecerá jamais.

Foto: Jean François Galeron

Texto: jcspeedway

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1 comentários :

Teté disse...

Ótimo texto!! Ótimo blog, como sempre! Grande abraço a todos e obrigado!