A coluna post do leitor de hoje foi enviada por Marcos Albuquerque de Orlâmdia - SP.

Disputadas seis corridas naquela fantástica temporada de 1988, o cenário desenhado era extremamente complexo, e de difícil interpretação. Afinal, de um lado, Prost dominava a tabela de classificação, 12 pontos à frente de seu rival brasileiro. E de outro, o francês – pela primeira e única vez em toda sua carreira – vinha sendo derrotado por um companheiro de equipe em termos de rapidez e velocidade. E o que era mais impressionante: por uma larga margem. 

Com seis poles em seis oportunidades, Ayrton Senna firmava-se como o piloto mais rápido do grid, e este era um título quase tão importante quanto o de campeão mundial. A Prost cabiam alcunhas como inteligente, maduro e calculista, e elas poderiam muito bem se traduzir num terceiro campeonato do mundo. No entanto, Prost estava longe de ficar satisfeito. Não era assim que ele pretendia vencer. 

Após o triunfo no duelo canadense e a vitória retumbante nas tortuosas ruas de Detroit, o momento emocional era todo favorável a Ayrton Senna. Prost precisava reagir imediatamente, e o fato do GP seguinte ser disputado em solo francês apenas agravou essa imposição. Paul Ricard tinha que ser sua, de qualquer forma. Mas se pudesse ser através da velocidade pura e simples, então seria muito melhor.


Pares da largada
O grid em Le Castellet tinha pares de McLaren, Ferrari, Benetton e Lotus lado a lado 

Pouco antes do GP, Alain Prost comandou uma bateria de testes com novas especificações do motor Honda, visando trazer o comportamento do engenho a um padrão mais condizente com seu estilo de condução. Falando de forma mais clara, Ayrton Senna utilizava uma técnica de diversos toques rápidos no acelerador (“telegrafar”), que tinham a função de manter o turbo ‘cheio’ durante curvas mais lentas. Prost conduzia de forma mais uniforme, e vinha reclamando duramente nos bastidores, alegando que apesar dos motores serem idênticos, eles continuavam sendo feitos sob medida para Ayrton. 

Fosse pelos resultados diretos do tal teste, fosse pela intimidade do francês com a pista de seu país, ou fosse ainda por sua motivação extra, a verdade é que na França, pela 1ª vez no ano, Alain Prost classificou-se à frente de Ayrton Senna. E com direito a colocar nada desprezíveis 478 milésimos de vantagem em cima da melhor marca do companheiro. A torcida não podia pedir nada melhor. 

No domingo, dia 03 de julho, fazia um calor de rachar no sul da França. No entanto, desde que o ano havia começado, aquela era ironicamente a primeira vez em 1988 em que Ayrton poderia fazer uma corrida com a cabeça fria, sem ter a obrigação de vencer. Prost tinha tudo a perder, e tudo que o brasileiro queria era dificultar a vida do dono da casa. Uma condição que permitia, por exemplo, que ele assumisse muito mais riscos.

Luz verde
Prost largou 'bem demais', enquanto Senna teve que dividir a curva com Berger 

Uma das chances de Senna residia na largada, até porque o pole teoricamente partia do lado mais sujo da pista – embora a rigor ambos os lados estivessem imundos. Havia uma grande tensão em torno daquele início, e isso acabou se manifestando de várias maneiras. 

Prost, como tantas vezes fez em momentos decisivos, acabou queimando levemente a largada, mas isso jamais seria um problema para ele num GP francês, muito menos durante a FIA de Jean-Marie Balestre. Senna, por sua vez, arriscou demais na carga de sua tração, e acabou patinando demasiadamente em seu pulo inicial. A ponto, inclusive, de ter perdido a 2ª posição para a Ferrari de Berger, a qual ele iria recuperar na freada para a curva 1. 

A partir daí, não havia muito o que inventar. Prost tinha de fazer uma corrida de puro ataque, enquanto a Senna cabia o papel de perturbar e induzir o francês a algum erro.

Gerhard Berger, Ferrari
Berger ficou em 3º no começo, mas rodou e perdeu posição para o companheiro Alboreto 

Durante as primeiras voltas, tudo no script. Prost tenta fugir, imprimindo um ritmo fortíssimo. O então bicampeão assinala melhores voltas seguidas nos giros 1, 2 e 4, sendo que nesta 4ª volta já marca um tempo que lhe teria rendido a melhor volta de todo o GP, e que ficava a apenas 3 centésimos da sua futura melhor passagem, cronometrada em outra fase da corrida, já na volta 45. Em toda a corrida, somente Alain teve o sabor de assinalar melhores voltas. Senna, por sua vez, limitava-se a controlar a distância, cuidando para poupar o equipamento enquanto ambos não encontravam retardatários. 

Essa fase durou exatamente 17 voltas, até que os guerreiros do fim do pelotão trouxeram um pouco de emoção à disputa pela liderança. 

Entre as voltas 17 e 34 Senna guiou sempre a poucos metros do francês, tentando se aproveitar de algum atraso do rival, da mesma forma como já havia feito no Canadá. Prost, no entanto, não cometeu o menor erro, nem tampouco adotou sua habitual postura conservadora no trato com os retardatários. Após 17 voltas nessa condição, Senna percebeu que a tática dificilmente iria funcionar, e pulou para seu ‘plano C’.

Senna à frente
Senna tentou uma jogada tática e saiu na frente após as trocas de pneus... 

Gozando de uma vantagem segura em relação à Ferrari de Alboreto, Senna rumou para os boxes em busca de pneus novos. Foi uma manobra inteligente, que obrigava Prost a decidir rapidamente. Afinal, ou o francês parava imediatamente, ou logo o brasileiro iria engolir a desvantagem na pista, chegando ao fim do GP numa condição muito mais forte. Foi quando Prost cometeu seu único erro do dia. 

Ao se deparar com as novas variáveis, o francês demorou duas voltas a combinar com a equipe uma troca, o que acabou dando tempo suficiente para que Ayrton Senna descontasse cerca de três segundos, a julgar pelo ritmo de ambos durante a volta 36. Como a diferença entre ambos estava na casa dos 2 segundos quando o brasileiro havia ido aos boxes, Ayrton conseguiu se posicionar à frente, após a rodada de pit stops. Uma liderança conquistada totalmente através da liberdade para arriscar. 

Depois de duas vitórias seguras do brasileiro, mais uma fatura parecia encerrada.

Senna sofrendo
...mas o trambulador do câmbio começou a provocar problemas de condução... 

As coisas, no entanto, começaram a fugir ao script, quando a McLaren de Senna começou a dar demonstrações flagrantes de problemas sérios de dirigibilidade. Enquanto Prost marcava a melhor volta da corrida por duas vezes seguidas entre os giros 44 e 45, Ayrton travava os freios ao menos uma vez a cada volta, e por muito que lutasse jamais conseguia tempos tão bons quanto os do francês. 

Senna na verdade começava a ter enormes dificuldades para encontrar as marchas num câmbio cada vez mais embaralhado, e com isso sobrecarregava cada vez mais o uso de seus freios. Os pneus, por sua vez, também iam se tornando cada vez mais quadrados a cada nova travada. E em meio a tudo isso o brasileiro tentava de todas as formas mascarar a gravidade dos problemas, tentando não acender os instintos caçadores de Prost. Mas não conseguiu. 

O francês partiu com tudo para o ataque, e quando ambos se depararam com uma fila de três retardatários durante a volta 61, veio com muito mais ação para realizar uma ultrapassagem linda e perfeita. A corrida era sua, e Senna ainda teria que lutar muito durante as voltas finais, simplesmente para levar o carro até o fim, quase sem marchas, ainda na 2ª posição, mas cruzando meio minuto atrás.

Prost vence
Prost superou Ayrton e vibrou na vitória em casa - logo se transformando em metralhadora 

“Eu sentia que meu carro estava se comportando um pouco melhor do que o do Ayrton durante a maior parte do circuito, de modo que eu fiquei muito desapontado quando perdi a liderança em minha troca de pneus. Mas as coisas são assim mesmo. Depois disso eu passei a persegui-lo, e fiquei apenas procurando a chance de ultrapassar, me sentindo muito confiante. Então ele ficou preso atrás de uma Minardi e escorregou abrindo um pouco a trajetória, e eu apenas mergulhei por dentro da curva” – explicou Prost após o GP. 

A explicação de Prost, no entanto, jogava a culpa pela troca de posições no meio da corrida toda sobre os ombros da equipe, o que numa análise cuidadosa dos tempos se revela uma grande injustiça. Mas o francês foi além. 

Ao invés de simplesmente admitir que havia guiado de maneira soberba desde os treinos, e que um erro isolado e um pouco de sorte explicavam o restante da corrida, Prost agarrou-se ao resultado de Paul Ricard como um náufrago se prende a uma bóia. Tremendamente inclinado a enxergar no GP da França um indício de que poderia ser mais forte do que Senna em condições de igualdade, Prost começou a atirar contra a equipe, e, sobretudo, contra a Honda.

Podium de Paul Ricard
No podium, Senna, Prost, Alboreto e nada de champange, proibida justamente na França... 

“Após a vitória na França as pessoas começaram a escrever que eu havia pilotado melhor por lá, e havia vencido por ter lutado mais, e Senna ter enfrentado alguns problemas. Mas não foi nada disso!” – começou Alain. “Na verdade, o que mudou foi que a Honda, pela primeira vez no ano, me entregou um motor que casava com meu estilo de pilotagem. Tenho a certeza de que poderia ter vencido mais vezes antes, caso tivesse este motor desde o início” – encerrou. 

E claro que este assunto será retomado ainda muitas vezes no futuro, em tons cada vez mais agressivos. Afinal, Ayrton Senna irá vencer as próximas quatro corridas, mostrando todo o esplendor de sua velocidade. Mas isso é assunto para o próximo texto. 

fonte: Ultima Volta.com

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