Senna se junta à McLaren em 1988, pronto para enfrentar Prost

05/12/2011

O post do leitor de hoje foi enviado por Márcio Madeira da Cunha.

Senna, Prost e Dennis
Senna levou a Honda para a McLaren: benefício para Prost, para Dennis e para si mesmo

A grande maioria dos analistas automobilísticos concorda que a melhor maneira de comparar características de dois pilotos distintos é colocando-os para correr num mesmo time. No entanto - e aqui parece estar o grande erro de avaliação amplamente cometido - ilude-se quem imagina que através deste procedimento seja possível eliminar da equação o fator equipe. Defender uma mesma escuderia não significa, por definição, dispor de igualdade de condições. Este é o primeiro ponto crucial.
O segundo ponto é que existem vários fatores dentro do ambiente de trabalho de um piloto que vão muito além do equipamento recebido. Noutras palavras, mesmo que uma determinada equipe tenha meios (e interesses) para proporcionar a seus dois pilotos equipamentos virtualmente iguais, ainda assim restará considerar o tratamento direcionado a cada um. Este é outro fator decisivo.
Lançados os pressupostos, podemos então mergulhar no contexto que uniu Ayrton Senna e Alain Prost sob o mesmo teto nos anos de 1988 e 1989.

Em teoria, a McLaren não precisava de Senna. Afinal, Prost havia superado tanto a Niki Lauda quanto a Keke Rosberg nos anos anteriores, e no processo havia assegurado dois títulos mundiais de pilotos em quatro anos. Torna-se desnecessário especular quem será o melhor piloto do mundo quando se tem um piloto que está perfeitamente integrado ao time, e que irá vencer sempre que tiver um carro compatível em mãos. Esta era a situação exata de Prost.
No entanto, a McLaren precisava dos motores Honda, e a forma embaraçosa como os carros da Williams haviam deixado a concorrência comendo poeira ao longo de 1987 deixava isso claro como água. No fim do ano anterior, inclusive, Ron Denis e Alain Prost chegaram a ir ao Japão tentar um acordo, porém sem sucesso. E naquele momento Ayrton já havia se tornado, na prática, um piloto Honda. A rigor, a melhor definição que já li a respeito é a de que, em 1988, Alain Prost pilotava para a McLaren, usando motores Honda. E Ayrton Senna pilotava para a Honda, usando carros McLaren.
Talvez esta colocação nos permita compreender que Senna, portanto, entrou na McLaren pela porta da frente, graças à longa relação de confiança estabelecida com os japoneses - por iniciativa própria - junto à mais cobiçada fornecedora de motores daquela época.

Senna e Sr. Honda, 1986
Senna havia conquistado o Sr. Soichiro Honda em meados de 1986, ainda na Lotus-Renault
Mais do que seus nada desprezíveis serviços, portanto, o brasileiro oferecia à equipe a chance de dispor do melhor motor do mercado. E o que era tão bom quanto: este mesmo motor seria tirado justamente da Williams, time que teria uma temporada cambaleante com os improvisados motores Judd V8 aspirados.
Todo este pacote, evidentemente, tornou muito mais forte a presença de Senna dentro da McLaren, e desenhou a conjuntura que lhe garantiu a retaguarda política necessária para desafiar Prost dentro de sua própria casa. Não tivesse sido assim, e nem toda a velocidade do brasileiro teria sido suficiente para inverter a lógica dos fatos. Nunca é demais, portanto, lembrar que Ayrton atingiu esta condição através de méritos próprios, ao entender que o caminho para uma carreira vencedora passava por atitudes que iam muito além de sua pilotagem.
Passados mais de vinte anos, Alain Prost gosta de dizer que poderia ter vetado a ida de Senna - e não o fez. Difícil mensurar a verdade por trás de tal afirmação, dado o valor de barganha garantido pelos propulsores nipônicos. Certo é que, se Prost optou por não usar seu poder de veto, com certeza não foi pela alegada razão de que a ele interessava apenas o fortalecimento da McLaren. A verdade é que, se Prost algum dia teve tal poder, não o usou porque queria muito correr com os melhores motores do mercado. E porque o francês, em seu íntimo, tinha a absoluta certeza de que poderia bater Senna ou qualquer piloto em condições de igualdade.
Prost à frente no Brasil, 1988
Jacarepaguá 1988: Prost vence facilmente; Senna larga do box e é excluído
Além disso, Ron Dennis certamente não poderia ver com maus olhos a presença de um desafiante que pudesse, eventualmente, reduzir um pouco o papel estratégico de cada um de seus pilotos. Eles que guerreassem, enfim, contanto que os interesses da equipe fossem preservados.
E a guerra começou no Brasil. No dia 01 de abril de 1988, quando os carros ganharam o saudoso traçado de Jacarepaguá para a 1ª das sessões classificatórias da temporada, Alain Prost foi apresentado ao primeiro e único companheiro de equipe sensivelmente superior em termos de rapidez e velocidade com o qual teve de conviver em sua longa e vitoriosa carreira.
Mas havia, é claro, o outro lado da moeda.
Não é preciso especular muito para se ter a certeza de que Ayrton Senna, em seu corner, também tinha a absoluta certeza de que poderia vencer Alain Prost, mesmo dentro da McLaren, caso tivesse para isso equipamento e tratamento equivalentes. O que Senna não sabia, ainda, era a complexidade da guerra na qual estava se metendo. E que, em diversos momentos, rapidez e velocidade simplesmente poderiam não bastar. Prost, afinal, havia perdido um título para Niki Lauda em 1984, apesar de ter sempre sido mais rápido que o companheiro. O francês havia aprendido, com o melhor mestre e da maneira mais dolorosa, que havia sim uma infinidade de alternativas para a luta.

Senna, Imola 1988
Imola 1988: Domínio brutal da McLaren MP4-4: Senna em 1º; Prost, que largou mal, em 2º
Mas é claro que esse tipo de expediente só viria à tona um pouco mais tarde. O convívio entre ambos estava apenas começando, e Alain ainda iria levar algum tempo até entender e aceitar que simplesmente não era rápido o bastante para enfrentar Ayrton com armas convencionais. Senna, por sua vez, também precisaria de algum tempo até compreender que estava jogando um jogo muito mais complexo, e lidando com um rival muito mais preparado do que aparentava.
Esta primeira fase do convívio durou exatamente duas corridas. Tanto no Brasil como em Imola, ambos não travaram batalhas diretas. Por diversas razões, o GP de Mônaco daquele ano se tornaria o primeiro grande marco da maior rivalidade vista pelo automobilismo moderno.

Posts Relacionados

0 comentários :