O dia em que Senna e Prost se conheceram na Pista

03/01/2012

O Dia 12/05/1984 foi primeiro duelo entre um novato brasileiro e uma estrela francesa

Uma das propriedades mais conhecidas da matéria, chamada de impenetrabilidade, postula que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. E talvez justamente esta lei da física, mais do que qualquer reflexão que se possa fazer a respeito, resuma os motivos que tornaram a convivência entre Ayrton Senna e Alain Prost tão intensa quanto impossível, dentro dos boxes da McLaren-Honda em 1988 e 1989.

No fundo, é uma situação muito simples. Dois pilotos superdotados, igualmente eficientes – ainda que através de estilos radicalmente opostos –, dedicaram suas vidas à escalada rumo ao pináculo do automobilismo, e não estavam dispostos a desistir diante das crescentes dificuldades. Acontece que ambos tiveram o duplo azar de serem contemporâneos, e do topo do esporte a motor mundial só comportar espaço para uma pessoa de cada vez. O tipo de situação na qual alguém tem que ceder, e se ninguém cede um choque torna-se inevitável.

A batalha que explodiu em 1989 na pista de Suzuka, portanto, já estava desenhada desde o momento em que Ayrton Senna estreou na Toleman em 1984, com o único intuito de dominar a categoria a médio prazo. Naquela altura Alain Prost já era um respeitadíssimo piloto de ponta, que no ano anterior havia perdido o campeonato para Piquet por apenas um par de pontos, e que após estrear na McLaren iria desmoralizar a até então inquestionável velocidade de Niki Lauda.

Senna tomou a ponta na 3ª volta e venceu todos os deuses da pista daquela época

O primeiro confronto direto entre os dois se deu naquele mesmo ano, mas não foi na Formula 1. No dia 12 de maio de 1984, um sábado, foi organizada uma corrida comemorativa pela Mercedes-Benz, que serviria a um só tempo como evento de inauguração do novo traçado de Nürburgring, e de divulgação do novo Mercedes 190E. Todos os campeões mundiais de Formula 1 vivos foram convidados, e a grande maioria aceitou tomar parte na prova. Além deles, diversos outros expoentes do automobilismo também receberam um modelo do mesmo carro, incluindo aí o jovem que em 1983 havia brilhado na Fórmula 3 inglesa e havia sido chamado para ocupar a vaga de Emerson Fittipaldi, envolvido com os treinos para a Indy 500. Um certo Ayrton Senna da Silva.

É importante notar que eram todos carros iguais, e que além dos pilotos de Formula 1 também foram escalados nomes de destaque em competições de turismo, como Klaus Ludwig, certamente muito mais familiarizados com aquele tipo de automóvel. E ainda assim, ao fim dos treinos lá estavam Alain Prost e Ayrton Senna compondo a primeira fila. Com Prost na pole.

Passados 25 anos desde aquele dia que deveria ter sido apenas festivo, o tetracampeão mundial ainda insiste em afirmar que Senna queimou aquela largada. Uma alegação que em breve ganhará contornos irônicos, mas que de imediato serve para nos dar uma noção bastante exata do nível de competitividade daqueles dois pilotos. Ao jornalista Nigel Roebuck, Prost afirmou ainda que Senna o teria empurrado para fora da pista em meados da primeira volta, o que parcialmente explicaria o porquê do francês ter terminado a prova apenas na 11ª colocação. Infelizmente, os registros em vídeo daquela corrida não são ricos o bastante para confrontarem tais afirmações.

Com a Toleman, Ayrton chegou a comemorar vitória em Mônaco 1984...

Fato é que Ayrton contornou a primeira curva na liderança, e que Prost logo se atrasou na corrida. O tempo estava bastante fechado, com pouca visibilidade e uma chuva fina que tornava a condução bastante traiçoeira. O tipo de cenário que se encaixa com nas definições de céu ou de inferno, dependendo se estamos falando de Senna ou Prost.

Natural, portanto, que enquanto o francês se posicionava no meio do pelotão, o brasileiro rumasse seguro na liderança, como se tivesse guiado aquele tipo de carro, naquela mesma pista, durante sua vida toda. Venceu ao fim de doze voltas, à frente de perseguidores de peso, liderados por Niki Lauda, Carlos Reutemann, Jack Brabham e Klaus Ludwig.

Naquele dia especial tinha início a maior rivalidade do esporte a motor moderno, ao mesmo tempo em que o mundo da velocidade era apresentado a um de seus maiores deuses em condições de pista molhada.

O segundo round dessa rivalidade teria lugar menos de um mês depois, nas ruas encharcadas de Monte Carlo, e o resultado todos conhecem. Partindo da 13ª colocação no grid o jovem Ayrton Senna, fazendo apenas suas 6ª corrida na F1, não apenas se manteve livre de toques e problemas, como também encontrou espaço para escalar todo o pelotão à sua frente, a despeito da abrupta entrega de potência de seu motor Hart turbo.

...mas logo amarrou a cara ao perceber que ficou atrás de Prost...

Após superar por fora a muito superior McLaren-TAG-Porsche de Niki Lauda, Senna iniciou uma irresistível perseguição ao líder Prost, descontando mais de 30 segundos em poucas voltas. Quando por fim o brasileiro se via em condições de realizar a ultrapassagem que lhe valeria a ponta, o diretor de prova Jacky Ickx – certamente o nome mais irônico para interromper uma prova por razões meteorológicas – concluiu que as condições haviam piorado, e a corrida deveria ser encerrada prematuramente. A rivalidade entre Senna e Prost não poderia ter se iniciado de maneira mais intensa.

A partir daquele dia, contudo, as coisas tenderiam a amornar um pouco entre os dois. Prost estava sempre lutando por vitórias, ao passo que a realidade do brasileiro em condições normais era ainda bem mais atrás no grid. Ao fim de 1984, no entanto, existem dois pontos a serem ressaltados.

O primeiro é a vitória de Niki Lauda no campeonato, batendo a velocidade superior de Prost por apenas meio ponto. Pela primeira vez em sua vida Alain Prost se via superado por um companheiro de equipe, e com isso se dava conta de que, afinal, seria possível vencer mesmo sem ser o mais rápido. E o segundo é a transferência de Ayrton Senna para a Lotus, criando condições para que a partir de 1985 os dois pudessem correr um tanto mais próximos, sempre no pelotão da frente.

Entre 1985 e 1986 Ayrton Senna e Alain Prost estiveram sempre em evidência, e deram cores muito mais nítidas a seus diferentes perfis. Senna tornava-se o rei dos sábados, marcando 15 pole positions em 32 possíveis, ao passo que Alain Prost vencia dois campeonatos mundiais. O segundo deles, em 1986, de maneira consagradora. Para Ayrton, contudo, as poles eram tudo o que poderia ser feito, dada a enorme sede de combustível do motor Renault, em tempos de reabastecimento proibido e limites restritos na quantidade de combustível permitida.

Montreal 1986: uma rara luta direta entre Senna e Prost - que rumava para o bi

Em 1987 ambos se encontraram mais vezes pelas pistas, sempre disputando a terceira colocação atrás das imbatíveis Williams de Piquet e Mansell. Ainda assim, o maior atrito que tiveram se deu nos bastidores, quando em Monza Alain Prost deu uma declaração pondo em xeque a verdadeira dimensão da rapidez de Ayrton Senna. “Todos dizem que ele é o mais veloz dentre nós, mas eu questiono isso porque a Lotus é, há muito, equipe de um só piloto, e não há como saber o quanto ele é realmente rápido” – questionou o bicampeão mundial.

E Prost tinha razão em pensar assim. Não apenas porque de fato a Lotus há dois anos vinha trabalhando exclusivamente para Senna, mas também porque ele, Prost, jamais havia sido superado em velocidade por qualquer um de seus companheiros de equipe, na F1 ou antes. O único que havia chegado perto neste quesito – René Arnoux – havia sido derrotado facilmente no conjunto da obra. E note que Prost já havia dividido equipe com gente como Niki Lauda e Keke Rosberg, sempre se impondo com folgada margem.

As dúvidas de Prost, no entanto, não tardariam a evaporar. Ambos iriam dividir os boxes da McLaren a partir de 1988.

Nosso próximo texto vai falar sobre a chegada de Ayrton na McLaren em 1988, onde Prost reinava absoluto há três anos como primeiro piloto.
fonte: ultima volta

Posts Relacionados

0 comentários :