Prost joga com Senna e Ferrari tem dia de glória em Monza

09/01/2012

Após o GP da Bélgica de 1988, Alain Prost jogou a toalha em relação àquele campeonato, ao menos em sua abordagem pública. No entanto, se de fato o francês estava dando a disputa por liquidada ou apenas adotando uma postura mais descompromissada, é algo que jamais saberemos ao certo. A questão em si, é que Prost tinha sim fartos motivos para agir daquela forma. 

Afinal, com 11 corridas disputadas, Senna havia vencido 7. E mesmo nas 4 que havia perdido, Ayrton havia sido claramente mais forte que o rival em duas delas, e sofrido com problemas de ordem mecânica significativos nas duas outras ocasiões. Um cenário de superioridade insofismável, contra o qual já não cabiam argumentos. 

Ocorre que, paradoxalmente, este mesmo cenário tornava Prost um adversário mais perigoso do que jamais fora. Afinal, como já diz o ditado, nenhum homem é mais perigoso do que aquele que não tem nada a perder.


Prost pensa

O francês, é claro, não estava morto. Em sua manga restavam alguns bons ases, e se aquele campeonato estava mesmo perdido, então era chegada a hora de se divertir um pouco, e testar o material de que eram feitos os nervos de seu jovem desafiante. Se Ayrton quisesse ser campeão, ora bolas, então antes ele teria que suportar uma última carga de artilharia. 

O contexto, deste modo, estava pronto. Em Monza, próxima etapa, Alain daria uma de suas mais sinistras aulas. 

Nos treinos Senna assegurou mais uma pole-position, e com isso quebrou o antigo recorde desta estatística numa só temporada. Era a 10ª vez que ele largaria na ponta, em 12 oportunidades. Prost estaria mais uma vez a seu lado, tendo marcado um tempo 3 décimos mais lento que o do brasileiro. Atrás de ambos, como de hábito, as duas Ferraris, de Berger e Alboreto. 

Dada a largada, foi Prost quem teve o melhor arranque. O francês logo tomou a dianteira, mas desta vez Ayrton nem sequer esperou por um par de curvas para dar seu bote, como havia feito na Bélgica. Já na freada para a chicane, algumas centenas de metros à frente, o brasileiro voltava para a ponta com uma falta de cerimônia constrangedora. Mesmo demonstrando conformismo em público, aquilo cada vez se tornava mais insuportável para Alain. 



Largada em Monza

E as coisas não paravam de piorar. Ainda no início da prova, Prost – com sua sensibilidade talhada pela experiência – conseguiu notar uma leve alteração no motor Honda de sua McLaren. Nada que comprometesse seu desempenho de imediato, mas ainda assim estamos falando de algum sintoma claro o bastante para convencer o francês de que ele dificilmente conseguiria completar aquele GP. Alain, é claro, sabia perfeitamente reconhecer uma pane mais grave surgindo no horizonte. 

Há quem diga que os duros começam a jogar quando o jogo fica duro. Pois bem, ali estava Alain Prost, bicampeão mundial, recordista mundial de vitórias, ao volante do melhor carro, na equipe que apenas 10 meses atrás era todinha dele, de repente sendo dominado por um garoto que ainda tinha tanto por provar. Já eram 4 derrotas consecutivas, e lá estava ele, novamente sendo superado, e o que era pior: desta vez ele não poderia nem sequer terminar em segundo! Com certeza, nesta mesma posição, 99% dos pilotos iria simplesmente jogar a toalha e entregar os pontos. 

Mas não Alain Prost. 

O francês, por mais paradoxal que possa parecer, tornava-se muito mais perigoso justamente sob estas circunstâncias. Afinal, apesar de ser incrivelmente rápido e competente ao volante, era na inteligência calculista que residia seu maior diferencial. E nada melhor do que uma situação desfavorável para propiciar a um gênio as condições de surpreender e subverter a lógica. Mônaco, apenas alguns meses atrás, tinha sido um bom exemplo disso. 



Prost na Di Lesmos

E assim foi. Por 5 voltas, Prost limitou-se a avaliar a situação, mantendo-se simplesmente à frente de Berger. São voltas importantes para os rumos do campeonato, durante as quais o francês mudou radicalmente sua postura. Enquanto se certificava de que o problema em seu motor era mesmo incontornável, Alain formulava um de seus planos maquiavélicos. Ele já não tinha nada a perder naquele dia, ou mesmo no campeonato. E sabia que se Ayrton vencesse a 5ª corrida seguida, ficaria a apenas uma 4ª colocação do título, restando ainda 4 etapas. Na prática, a fatura estaria liquidada. 

Em português claro, Alain sentiu que tinha algumas voltas para atrair o brasileiro a alguma armadilha, antes que seu motor o deixasse pelo caminho. E foi isso o que ele fez, com a velha classe que só ele era capaz de demonstrar. 

A partir da 6ª volta, Prost enriquece a mistura de combustível, e eleva seu ritmo de prova para um padrão insustentável. Em 1988 os carros turbinados deveriam cumprir a distância de um GP utilizando apenas 150 litros de gasolina, de forma que ao longo de toda a corrida seus ritmos deveriam ser calculados em função deste limitador. Prost, no entanto, não precisava se preocupar com isso, uma vez que sua corrida tinha uma morte anunciada. Para ele, tudo o que interessava agora era convidar Ayrton para uma competição suicida.


Senna na Parabolica

Pesou para a tática do francês, novamente, o fato de Ayrton Senna ser um competidor previsível, em última análise. Era seu Calcanhar de Aquiles. Alain sabia que seu rival era a tal ponto incapaz de conviver com a ideia de ser superado, que passaria a ignorar os dados do computador de bordo tão logo visse sua liderança ameaçada. Isso, mesmo tendo a consciência que ambos estavam acima do consumo máximo, e que, naquele ritmo, nenhum dos dois iria chegar até o final da corrida. Não era, evidentemente, uma postura racional. Ainda assim Senna preferia abandonar à frente do rival, do que vencer tendo andado atrás. Era simplesmente mais forte do que ele. 

E com isso, mais uma vez, Ayrton mordeu a isca. 

Entre o 6º e o 30º giros, Senna deve ter se perguntado muitas vezes o que estaria se passando pela cabeça do francês. Volta a volta seu combustível ia evaporando, a situação tornando-se cada vez mais crítica, e nada do rival aliviar. Será que ele não se dava conta de que estava colocando a corrida de ambos em risco?
Ayrton só foi desconfiar que poderia ter caído em outra armadilha do francês quando, na 31ª volta, Alain ficou subitamente para trás. Naquela altura Satoru Nakajima, de Lotus-Honda, já havia abandonado, também com problemas em seu motor, e a instrução que vinha pelo rádio era para que os pilotos Honda mantivessem a mistura enriquecida – ou os pistões poderiam se autodestruir. Qualquer economia deveria ser conseguida na condução, pura e simplesmente.


Berger, Ferrari

Aos trancos e barrancos Prost ainda se manteve na pista até a 35ª volta. E enquanto a McLaren nº 11 não abandonou em definitivo, Ayrton não se permitiu reduzir significativamente o ritmo. Assim, restando 14 giros, Senna tinha 27 segundos de vantagem sobre a Ferrari de Gerhard Berger. O brasileiro, no entanto, teria que fazer milagre para levar o carro até o fim com a quantidade de combustível que havia sobrado em seu tanque. E, se pretendesse subir ao degrau mais alto do pódio, então o milagre teria de ser ainda maior. 

A Ferrari levou algum tempo até se dar conta do problema enfrentado pelo líder, de forma que seus pilotos só começaram a reduzir a diferença de maneira significativa a partir da 37ª volta. Logo, no entanto, os carros vermelhos estariam devorando a distância a uma razão de até 4s por volta, embalados pela delirante torcida que lotava as dependências do autódromo, bem como pelo espírito do recém-falecido Comendador Enzo Ferrari. 

Dadas as circunstâncias, a tensão tornou-se palpável, e logo um clima de enorme suspense tomou conta de Monza. Poderia Senna repetir o feito de Jerez 1986, e vencer a corrida apesar da terrível perseguição que vinha sofrendo? Ou, ao contrário, a fanática torcida iria presenciar o verdadeiro milagre de uma dobradinha vermelha, diante de toda a superioridade da McLaren-Honda?


Senna sob pressão

Bom, podendo ou não, Senna assumiu os riscos e abraçou a disputa. Sem desfrutar da potência superior do Honda, a relação com retardatários tornou-se um fator delicado e decisivo. Simplesmente não havia tempo para negociação. Restava apenas mergulhar a cada freada, e contar com o respeito tradicionalmente imposto pelo temido capacete amarelo nos retrovisores de quem ia à frente. 

Restando 3 voltas para o fim, as Ferraris já se encontram a apenas 5s do líder. Ayrton sente que é hora de apertar o ritmo, apostando que a economia das últimas voltas possa ter sido suficiente para atingir a bandeirada. Guiando com a faca nos dentes, o brasileiro consegue estabilizar a diferença ao longo da 49ª volta, dando a impressão de que só perderia a corrida caso sofresse uma pane seca. 

É nesse clima que os ponteiros abrem a 50ª volta. 

Pouco à frente de Senna se encontrava uma Williams. Justamente a equipe que havia dominado a F1 no ano anterior, e que em condições normais não representaria nenhum problema para alguém que se aproximasse para colocar uma volta. Naquele dia, no entanto, um nome improvável guiava um dos carros de Sir Frank.


Schlesser, Williams

Nigel Mansell estava de repouso, com sarampo, e em seu lugar a equipe havia colocado o francês Jean-Louis Schlesser, piloto de esporte-protótipos. Um estreante que completaria 40 anos no dia seguinte, e que de presente havia recebido a chance de fazer sua primeira e única corrida na F1. A posição de Senna, assim, tornava-se subitamente desconfortável. 

O que ocorre nos instantes seguintes segue sendo tema de polêmicas mais de duas décadas depois, e merece uma análise em câmera lenta para que se possa arriscar um veredicto minimamente racional. 

Na freada para a chicane Ayrton não se encontrava próximo o bastante para realizar uma manobra, e certamente não a teria tentado naquele ponto. No entanto, provavelmente afetado pela aproximação do líder, Schlesser perde o ponto de frenagem e frita vigorosamente seus pneus, perdendo também o único ponto de tangência da primeira perna. O Williams segue rumo à área de escape - tantas vezes utilizada por quem não consegue fazer a chicane -, e sob o ponto de vista de Ayrton Senna, essa parecia ser a rota óbvia do carro à sua frente. Assim sendo, ele assume seu traçado normal, dando início a uma ultrapassagem involuntária, posto que não a havia forçado, nem tampouco alterado em nada seu procedimento normal.


Berger vence

O francês, no entanto, encontra a velocidade desejada quando ainda está no último metro de pista, e, soltando os freios, recupera a aderência dianteira dando uma inesperada guinada para a esquerda. Por um momento ele e Senna estão lado a lado, enquanto ambos descrevem a primeira perna do esse. Existe, porém, apenas um traçado possível para se atacar as chicanes, e até mesmo em função do limitado ângulo de giro de um Fórmula 1 em Monza, Senna não tem muito como alargar sua trajetória. 

O brasileiro atrasa o quanto pode o apex da 2ª perna, com os dois carros percorrendo em paralelo o curto espaço entre uma e outra perna do esse. Schlesser reduz a velocidade de seu carro neste ínterim, mas não o suficiente para se posicionar atrás do McLaren. Senna percebe que chegou ao ponto limite para a tomada da curva, e não tem escolha que não seja apontar o carro para a direita. O francês entende a situação, e chega a colocar suas duas rodas direitas na terra, tentando dar mais espaço. Ainda assim, sua roda dianteira esquerda atinge a lateral do carro nº12, tocando também o pneu traseiro direito da McLaren, cuja traseira sai do chão enquanto inicia um giro de 180º.


Berger vence

Senna, com a suspensão traseira empenada, ficou fora da prova. Com isso a Ferrari, liderada por Berger, assinalava a mais improvável das dobradinhas, justamente no primeiro GP em Monza após o falecimento de seu fundador. 

Alguns irão argumentar que a culpa maior pelo acidente terá sido de Senna, por ser ele o piloto mais experiente entre os envolvidos. Outros, ainda, dirão que o brasileiro foi afobado, e que poderia ter aguardado mais para realizar tal manobra. No entanto, olhando a mecânica da batida com um mínimo de isenção, fica difícil admitir que Senna pudesse ter agido de maneira diferente. Afinal, a Williams havia perdido a chicane, e nada indicava que fosse retornar à pista de maneira tão abrupta e desengonçada. A própria forma como buscou a terra, instantes depois, demonstra como o francês deveria ter seguido por aquele caminho tão logo perdeu seu ponto de frenagem à frente do líder da prova. 

E então? Uma dobradinha da Ferrari, e as duas McLarens abandonando o GP – uma delas, inclusive, em consequência direta do comportamento da outra. Será justo afirmar que, no fim das contas, tanto Senna quanto Prost saíram derrotados?


Tiffosi enlouquecidos

Bom, pode ser. Para Prost, afinal, a desvantagem no campeonato permanecia, e agora havia uma corrida a menos para descontá-la. Senna, por sua vez, teve que se deitar com o gosto amargo de ter perdido uma vitória certa, graças a uma dinâmica de prova alterada externamente, que culminou num acidente a duas voltas do final. 

No entanto, olhando atentamente para as circunstâncias, também é possível concluir que Prost, de fato, venceu aquele GP. Afinal, com cartas que o permitiam apenas blefar, o francês encenou uma peça que impediu seu adversário de conquistar uma vitória certa. Sua atuação foi, no fim das contas, mais uma grande aula. Que, inclusive, resgatou de maneira decisiva a disposição do Professor em brigar por aquele campeonato. 

Ou então não foi nada disso, e tudo não passou de um milagre do Comendador mesmo... 

O post do leitor de hoje é de Márcio Madeira da Cunha

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1 comentários :

Teté disse...

Ótimo post!! Parabéns e um grande abraço!