O Anjo Voador

24/02/2012


Houve um tempo em que as pequenas motos do Mundial de Motovelocidade não eram apenas categorias de passagem, como hoje em dia. Um piloto poderia ficar anos numa categoria menor, como 50cc ou 125cc. E um dos maiores pilotos de todos os tempos do motociclismo dominou as categorias menores por quinze anos: Angel Nieto. Esse espanhol de apenas 1,55m de altura soube utilizar como ninguém essas pequenas motos rumo ao estrelato, conquistando 13 (ou 12+1) títulos mundiais nas categorias 50 e 125cc, sendo o primeiro ídolo espanhol na motovelocidade e entrando no rol dos grandes vencedores, superando apenas pelas lendas Giacomo Agostini e Valentino Rossi em número de vitórias. Tendo completado 65 anos recentemente, vamos olhar um pouco da carreira desse anjo da velocidade.

Angel Nieto Roldán nasceu no dia 25 de janeiro de 1947 em Zamora, na Espanha e desde muito cedo ele se interessou pela motovelocidade. Ajudado pela sua diminuta estatura, Nieto se firmava nas categorias menores do motociclismo espanhol e ele participa da sua primeira corrida no Mundial na categoria 50cc em 1964, no Grande Prêmio da Espanha. Inaugurada apenas dois anos antes, a 50cc era praticamente uma mobilete na aparência, com pneus extremamente finos, mas chegando a atingir os 200 km/h. Nieto parecia ser feito sob medida para essas motos de apenas quinze cavalos, pois com 1,55m de altura, ele podia se esconder bem debaixo da carenagem de sua Derbi, sua primeira moto. Na Espanha, Nieto já dominava o cenário do motociclismo local vencendo não apenas as categorias menores, como 50cc e 125cc, mas também em motos maiores, como 250cc e a gigante 500cc. Até 1966, Nieto só participava do Grande Prêmio da Espanha no Mundial, mas a Derbi, que o tinha o piloto principal, o inscreveu para mais corridas em 1967 e Nieto conquista seu primeiro pódio na Holanda com um segundo lugar, terminando o campeonato em quarto lugar. Mesmo ficando de fora de duas etapas...

No final da década de 60 a Suzuki dominava as 50cc graças ao rumoroso caso de Ernst Degner, alemão oriental que roubou uma moto da também comunista MZ e pediu asilo político em 1964 no Japão. Degner vendeu o projeto revolucionário da MZ a Suzuki e com ela os japoneses dominavam o cenário da menor das categorias do Mundial de Motovelocidade. A Derbi ainda corria atrás da Suzuki e em 1968 o time espanhol perde mais uma vez para a Suzuki, com Nieto participando de apenas duas corridas, mas ainda assim garantindo um ótimo quarto lugar no Mundial graças aos seus bons resultados. Porém, a Suzuki abandona as 50cc em 1969 e a Derbi teria como maior adversário a alemã Kreidler, que também crescia a olhos vistos. Nieto teve que enfrentar os holandeses Aalt Toersen e Jan de Vries e ao longo de uma temporada emocionante, onde o espanhol conseguiu sua primeira vitória no Mundial no Grande Prêmio da Alemanha Oriental em Sachsenring, Nieto conquistou seu primeiro título com diferença de apenas um ponto sobre Toersen. Era também o primeiro título da Derbi, fazendo com que Nieto se tornasse um ídolo nacional na Espanha. No ano seguinte, Nieto domina por completo as 50cc com cinco vitórias. Ainda em 1970 Angel faz sua estréia no Mundial das 125cc com a sua Derbi e não decepciona, ficando com o vice-campeonato com as mesmas quatro vitórias do campeão, o alemão Dieter Braun, da Suzuki. Para 1971, Nieto decide se dedicar mais à 125cc e teria como maior adversário um jovem inglês com pinta de galã, chamado Barry Sheene, a bordo de uma Suzuki. Nieto e Sheene dominaram o campeonato por inteiro, com o inglês sendo líder até a penúltima etapa, mas Nieto vence a última corrida, em casa, no circuito de Jarama, garantindo seu primeiro título nas 125cc, assim também da Derbi na categoria. Sheene, que mais tarde seria bicampeão mundial das 500cc e celebrado como uma das maiores estrelas do Mundial de Motovelocidade em todos os tempos, diria mais tarde que Angel Nieto foi um dos seus adversários mais duros que já enfrentou nas pistas. Já nas 50cc, a Kreidler dava a volta por cima e derrota Nieto e a Derbi com Jan de Vries.

Para 1972, Nieto teria como grandes adversários Gilberto Parlotti (125cc) e Jan de Vries (50cc), os derrotando de forma distinta e dramática. Com Parlotti, uma grande promessa italiana, a disputa vinha sendo dura, até o italiano sofrer um acidente falta durante o TT da Ilha de Man, fazendo com que Nieto conquistasse o bicampeonato das 125cc com facilidade. Já nas 50cc, Nieto e De Vries dominam o campeonato por completo e no final, os dois pilotos empatam em pontos e em vitórias. Como já havia acontecido em 1968 na famosa história entre Phil Read e Billy Ivy, a pendenga seria decidida no terceiro critério de desempate, que era a soma de tempos em todas as corridas. E Nieto superou seu rival por ínfimos 21,32s! Nieto conquistava seu quinto título e a primeira e única dobradinha, mas o crescimento da Kreidler parecia inexpugnável e a fábrica alemã acabaria por dominar nos próximos anos, com Jan de Vries sendo campeão em 1973 e o holandês Henk van Kessel ficando com o título em 1974. Já nas 125cc, era a Yamaha que dominava com o sueco Kent Andersson, ficando com o bi 1973/74. Em todos esses anos Nieto ficou sempre na briga pelo título, conquistando o vice ou o 3º lugar. Ninguém duvidava que Nieto era o melhor piloto das categorias menores do mundial e como a Kreidler era a melhor moto do momento, Angel deixou a Derbi e foi para a equipe alemã em 1975, onde o espanhol conquistou seu quarto título mundial nas 50cc, enquanto utilizava a Kreidler nas 125cc, o espanhol ficou com o vice-campeonato, sendo derrotado pela Morbidelli do italiano Paolo Pileri.

Muito patriota Nieto retorna a uma equipe espanhola em 1976, mas para a Bultaco, onde conquista mais um título nas 50cc. E outro vice nas 125cc, novamente derrotado por Pileri. Angel já preparava uma espécie de sucessor na figura de Ricardo Tormo e o treinava para tal. Angel Nieto conquistava seu sexto título nas 50cc em 1977, mas era derrotado novamente pela Morbidelli nas 125cc. Infelizmente a Bultaco passava por problemas financeiros e em 1978 ele troca de equipe no meio da temporada, saindo da equipe espanhola para a italiana Minarelli, conquistando quatro vitórias consecutivas, mas tendo que se conformar com o vice-campeonato. Nas 50cc, Tormo, seu discípulo, conquista seu primeiro título mundial. A Minarelli se mostrava uma moto dominadora nas 125cc e Nieto, melhor piloto de então, conquista o campeonato de 1979 com oito vitórias em treze corridas do calendário. Após um 1980 claudicante, Nieto tem seus melhores anos nas temporadas seguintes, conquistando quatro títulos seguidos nas 125cc numa impressionante sequencia de 26 vitórias em 43 corridas, significando um aproveitamento assombroso de 60% de vitórias!


Angel Nieto já era uma lenda viva no Mundial de Motovelocidade, com seu desempenho não diminuindo mesmo com o passar dos anos, porém um pequeno acidente no final de 1984 faz com que o espanhol adiantasse suas férias. E também o seu breve declínio. Nieto participa de apenas algumas corridas em 1985 da recém-inaugurada 80cc, em substituição a 50cc, e na França o espanhol consegue sua 90º e última vitória no Mundial de Motovelocidade. Aos 39 anos de idade, Angel Nieto participa de sua última temporada no Mundial em 1986, terminando apenas em 7º lugar. A diferença entre sua primeira e última corrida no mundial foi de incríveis 22 anos, onde Nieto viu vários pilotos surgirem, desaparecerem, serem campeões, mas, principalmente, sendo derrotados por esse espanhol de números assombrosos. Em 186 largadas, Nieto consegue 90 vitórias, sendo 27 na 50cc, uma na 80cc e 62 na 125cc. Foram 139 pódios, 16 poles, 63 voltas mais rápidas e treze títulos mundiais ( 50[1969,70,72,75 e 77] e 125[1971,72,79,81,82,83, e 84]). Ou ‘12+1’, como gostava de dizer Nieto. Extremamente supersticioso, conta a lenda que Nieto deixou de correr certa vez quando viu um gato preto um pouco antes da largada. Após sua aposentadoria, Nieto passou a ajudar jovens pilotos espanhóis a obter sucesso no Mundial, inclusive seu filho, Angel Nieto Jr, e seu sobrinho, este com mais sucesso, Fonsi Nieto. Extremamente respeitado na Espanha, hoje Nieto é comentarista da TV espanhola do Mundial de Motovelocidade e quando Valentino Rossi igualou o número de vitórias de Nieto no Grande Prêmio da França de 2008, Vale prestou uma merecida homenagem ao espanhol, fazendo com que Nieto andasse em sua Yamaha M1. Uma prova do respeito por qual esse histórico espanhol conquistou em mais de vinte anos nas corridas em todo mundo.

Parabéns!
Angel Nieto

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