GP do Brasil de 2002

02/03/2012

Schumacher estréia vencendo com o novo carro da Ferrari, enquanto Barrichello mais uma vez não termina a prova.
O piloto alemão Michael Schumacher venceu o Grande Prêmio do Brasil, terceira etapa do Campeonato Mundial de Pilotos e Construtores de Fórmula 1, e deixou clara como é grande a capacidade de evolução de algumas gigantes envolvidas na categoria, principalmente quando se faz parte de um programa tão competitivo como o da Ferrari. Schumacher não apenas venceu na estréia do F 2002, que foi trazido para São Paulo exclusivamente para seu uso, como também demonstrou a evolução dos pneus Bridgestone em relação à prova anterior, na Malásia. Duas incógnitas envolviam a corrida do tretracampeão. É fato que a Ferrari não traria o novo modelo para o Brasil se não tivesse certeza de sua competitividade e, sobretudo, capacidade de suportar a prova até o final. De qualquer forma, uma ponta de dúvida pairava no ar. Mas a principal questão era a respeito dos pneus. Em Kuala Lumpur, sob temperatura superior a 30ºC, Ralf Schumacher venceu com o Williams BMW equipado com os Michelin, que exigiram apenas um pit stop. As mesmas condições climáticas em São Paulo faziam prever outro domínio da equipe inglesa, em parceria com os pneumáticos franceses. Para corroborar essa crença, a pole position foi conquistada por Juan Pablo Montoya. Mas se os Michelin continuaram eficientes e permitiram uma única troca, os Bridgestone ofereceram a mesma condição para Michael Schumacher e, em igualdade de condições, o alemão fez a diferença e conquistou a vitória de número 55 de sua carreira, em 164 Grandes Prêmios disputados. Ele completou as 71 voltas da prova em 1h31min43s663, com média horária de 200,098 km/h e com vantagem sobre o irmão Raif de apenas 0s588.

Mantendo a tradição de todas provas disputadas até aqui nesta temporada, a largada no Brasil também foi marcada por um acidente que, se não definiu a prova, pelo menos alijou da disputa o maior favorito. Michael Schumacher largou muito bem e no Esse do Senna estava emparelhado com Montoya. O alemão já desceu a reta na frente e, na busca de recuparar a posição, o colombiano tocou a traseira da Ferrari.



O Williams BMW número 6 perdeu o bico e cruzou a primeira volta na 20ª posição, depois de parar nos boxes. Enquanto Schumacher completava a 1ª volta na dianteira — seguido pelo irmão Ralf, Jarno Trulli (Renault), Jenson Button (Renault) e David Coulthard (McLaren Mercedes) —, Rubens Barchello já era o 6º colocado, tendo partido em 8º. O brasileiro dava mostras de que estava adotando para um estratégia de dois pits, pois seu ritmo de corrida era o mais eficiente dentre todos os pilotos no início da prova. Ele era o único a rodar na casa de 1min16s. Na 4ª volta, Barrichello já era o 2º colocado, com 4s3 do líder, e na aproximação sobre o companheiro de equipe registrou sua volta mais rápida, na 13ª passagem, com 1min16s713. Na volta seguinte, assumiu a ponta, o que fez a torcida vibrar em Interlagos. A euforia durou apenas três voltas, uma vez que Barrichello foi obrigado a abandonar na 17ª volta com o acelerador não respondendo aos seus comandos, resultado de uma pane no sistema hidráulico da F 2001s.


Mais este abandono de Barrichello — o piloto da Ferrari liderou as três primeiras corridas do campeonato, mas continua sem qualquer ponto — propiciou a retomada da liderança para Schumacher, seguido pelo irmão da equipe Williams. Começava dessa forma outra importante fase da corrida, que questionava a condição da Ferrari em continuar à frente com a pressão que, por certo, seria exercida por Ralf Schumacher. Mas o que se viu foi a condução precisa de Michael Schumacher, ao mesmo tempo em que o piloto da Williams, em que pese próximo, não exercia um ataque efetivo sobre o irmão. Essa posição só foi momentaneamente alterada no momento dos pits. A Ferrari executou a manobra em 12s7 na 39ª volta. Ao retornar, posicionara-se a 22,7s em relação ao novo líder. Raif Schumacher só parou na 45ª passagem e, ao voltar para a pista, viu-se superado pelo íntimo adversário em 3s. A aproximação diminuiu a diferença para 0s5, o que não foi suficiente para ultrapassagem.


O 3º lugar na prova foi conquistado por David Coulthard, que mesmo comemorando o fato do Mclaren Mercedes apresentar melhores condições em Interlagos, não conseguiu superar o Renault de Jarno Trulli na pista. Foram exatas 30 voltas no encalço do italiano, que só perdeu a posição nos pits. Tanto esforço de Trulli resultou em nada, uma vez que seu motor quebrou na volta 61. A boa presença da equipe no Brasil foi confirmada, porém, pelo 4º posto de Jenson Button. A quebra do italiano da Renault garantiu a Montoya o 5º lugar, ao mesmo tempo que conduziu a Toyota à zona de pontuação pela segunda vez, ambas com Mika Salo.

Para Enrique Bernoldi, o momento mais dramático aconteceu no warm up, quando seu carro teve problemas de suspensão e bateu com violência na parte interna do Esse do Senna. O acidente poderia ter se transformado em uma grande tragédia porque o alemão Nick Heidfeld, não conseguindo controlar o Sauber Petronas, passou entre o carro do brasileiro e a mureta de proteção no exato momento em que Bernoldi deixava o cockpit do Arrows Cosworth. O atropelamento foi evitado por segundos e, na seqüência, Heidfeld chocou-se com a porta do Medical Car que parou poucos metros à frente. Dessa vez quem levou um grande susto foi Alex Dias Ribeiro, piloto do Medical Car, que também livrou-se de ser atingido pelo carro do piloto da Sauber. Já Felipe Massa, da Sauber Petronas, teve a sua estréia no Brasil como piloto de Fórmula 1 interrompida por um acidente envolvendo o australiano Mark Webber, que provocou o abandono do brasileiro na volta 42.
OS BRASILEIROS
Rubens Barrichello
Embora tivesse dado a impressão de que sofrera uma pane seca, o abandono de Rubens Barrichello foi provocado por problemas hidráulicos. Foi o desfecho de um fim de semana que começou tenso em razão das especulações em torno da utlização do carro de 2001 por parte do brasileiro. Outro elemento negativo foi representado pela punição do sábado. O piloto deixou Interlagos dizendo-se satisfeito por ter feito o seu melhor e demonstrou contentamento pela reação da torcida, que o festejou na sua volta para os boxes da Ferrari.
Enrique Bernoldi
Durante os dois dias de treinos, a frustração tomou conta do piloto brasileiro, pois seu Arrows apresentava problemas aerodinâmicos (saía muito de frente e de traseira). O resultado foi a penúltima posição no grid. Na prova, andou as primeira voltas em 15°, parou na 13ª e ao retornar, oito voltas depois, empurrou-se pela pista e abandonou em definitivo na 35ª.
Felipe Massa
O piloto da Sauber Petronas abandonou o Grande Prêmio do Brasil na 42ª volta em razão de um choque ocorrido quando disputava a posição com Mark Webber, da Minardi Asiatech. Mas Felipe Massa já vinha enfrentando problemas de dirigibilidade, com seu carro escorregando muito de frente.
O FIM DE SEMANA
Até pipa atrapalha Montoya:
O favoritismo de Montoya em Interlagos evaporou-se quando ele se precipitou ao tentar recuperar a liderança na primeira volta. “Michael me fechou e deveria ser punido”, disse. O toque cômico na desgraça do colombiano foi uma pipa que se enroscou na asa traseira quando ele voltava aos boxes para trocar o bico. O artefato, com rabióla e tudo, ostentava o desenho da bandeira da Grã-Bretanha. Sorte que a linha não tinha cerol.
“Vovó” deixa Barrichello a pé:
O importante é não perder o bom-humor. Conformado em ter de usar a Ferrari de 2001, Barrichello apelidou seu carro de “vovó”. “É como os mecânicos estão chamando ela, de “nonna”, contou, no sábado. A vovó não ajudou muito. Rubens ficou apenas em oitavo no grid e, pela oitava vez consecutiva, abandonou o GP do Brasil, reforçando a tese de que, para ele, há uma “maldição de Interlagos”. A prioridade de Schumacher para usar o carro novo não tirou o piloto do sério: “Não adianta ficar chorando no canto da sala, tenho apenas de fazer meu tabalho”


Toyota sonhando alto:
A Toyota anunciou seus planos futuros para a Fórmula 1. A meta da montadora é de ser campeã no ano de 2006. Ove Andersson, diretor da equipe, admitiu que até lá a Toyota vai se aperfeiçoar para tornar-se a melhor estrutura da categoria.


Atraso nas obras:
Mais uma vez as obras no Autódromo José Carlos Pace terminaram no limite do tempo disponível. Ainda na quinta-feira, muitos pedreiros ainda trabalhavam no local. Como em um passe de mágica, tudo estava pronto na sexta de manhã, mas depois de um intenso trabalho durante toda a madrugada.


Hans obrigatório:
A Federação Internacional de Automobilismo adotou o Hans Device (head and nech support ou aparelho para suporte de cabeça e pescoço) como elemento obrigatório para a segurança dos pilotos a partir da próxima temporada. Desenvolvido pela Daimler-Benz, o aparelho já é usado com sucesso nas competições norte-americanas.


Punição injusta:
Rubens Barrichello reclamou da penalização que sofreu dos Comissários Desportivos da FIA, no sábado, por ter entrado na pista com a sinalização de luz vermelha na saída dos boxes. Segundo o piloto, a luz foi mudada de verde para vermelho justamente no momento em que estava na mesma linha do semáforo. “Como as luzes ficam na direita da pista do pit lane e a curva para sair dos boxes é para a esquerda, lógico que não vi a sinalização, pois estava com meu rosto voltado para o lado da pista onde eu iria contornar”, disse Barrichello. A punição foi a retirada de seu melhor tempo no treino seguinte, a classificação. Na prática, não teve qualquer prejuízo porque os melhores tempos — 1min13s919, o perdido, e 1min13s935, o que acabou valendo — relegaram-no ao 8° posto no grid.


Tudo errado na BAR:
O descontentamento era geral na equipe BAR Honda depois da classificação. Jacques Villeneuve fez o 15° tempo e Olivier Panis, o 17°. “Interlagos mostrou bem para nós onde é possível chegar com este carro. Foi o máximo que podia ter sido tirado do equipamento. Tudo funcionou bem, exceto o carro”, desabafou Villeneuve. David Richards deu razão ao seu piloto: “Os dois fizeram o melhor, mas os tempos refletem bem a nossa realidade. Vamos trabalhar para mudar isso”, prometeu o diretor.



A bandeirada de chegada:
O Rei Pelé foi o grande destaque do Grande Prêmio do Brasil. Esbanjou simpatia e foi convidado para dar a bandeirada a Schumacher. Enganou-se e não agitou a bandeira. Sem problemas, afinal, o Rei pode tudo.


Os números de interlagos:
Veja os principais números produzidos pelo GP do Brasil: Schumacher conseguiu seu 10° pódio em 11 participações em Interlagos, a 4ª vitória no Brasil e a 55ª na carreira; para os brasileiros, a prova continuou sendo um desastre, já que nas últimas oito edições eles conseguiram 0 ponto (os últimos foram de Barrichello em 1994); a diferença de 0s588 entre Michael e Ralf foi a menor da história do GP do Brasil entre o vencedor e o segundo colocado; a dobradinha familiar, por sinal, aconteceu pela 3ª vez (as outras foram no Canadá e na França em 2001).
Agora só falta vencer
O brasileiro Rubens Barrichello proporcionou ao público presente no Autódromo José Carlos Pace, em São Paulo, alguns momentos de extrema alegria durante a realização do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1. Ele permaneceu na pista por apenas 17 voltas, tempo suficiente para andar no limite, realizar ultrapassagens importantes e assumir a ponta. É certo que a estratégia adotada pela Ferrari para o carro número 2 propiciava essa condição. Largando com menos combustível e preparado para parar duas vezes no pit, Barrichello precisava adotar uma performance de corrida muito forte. Só assim ele poderia abrir vantagem suficiente para compensar o maior tempo perdido nos boxes. “Tenho certeza que daria para sonhar pelo menos com um lugar no pódio”, afirmou Barrichello após o abandono. Seu modo sereno de encarar mais uma quebra — “ganhar ou perder é do jogo e eu deixo Interlagos com a cabeça erguida porque fiz o melhor que pude e sinto que a torcida reconheceu o meu esforço” — pode ter sido resultado da certeza de que usará a partir de San Marino o novo modelo F 2002. Contudo, o apoio da torcida também foi fundamental para isso. A reação a cada ultrapassagem e a manifestação de carinho ofertadas ao piloto enquanto ele corria a pé de volta aos boxes, certamente fizeram-no esquecer as decepções de Interlagos. Primeiro foi o constrangimento diante dos inúmeros questionamentos sobre os motivos pelos quais ele fora preterido no planejamento de estréia do novo carro da Ferrari. Depois, seus planos não contavam com um modesto 8º posto na classificação, que não pode ser justificado nem mesmo pela punição recebida no sábado — saiu dos boxes para o final do treino livre sem que a luz verde estivesse acionada — porque ele não subiria de posição se pudesse considerar o melhor tempo da classificação (a punição foi ter como tempo oficial para a formação do grid apenas a sua 2º melhor volta). Mas na prova a situação foi diferente. Logo na largada deixou para trás Kimi Ráikkonen, da McLaren. Na volta 2 já superara o outro piloto da equipe de Ron Dennis, o escocês David Coulthard. Já o inglês Jenson Button, da Renault, perdeu a posição para Barrichello na volta seguinte. Ralf Schumacher foi superado na volta 5 e a liderança foi assumida por ele na 14º passagem do Grande Prêmio.

A quebra na volta 17 reafirmou uma realidade que vem se repetindo desde a etapa de abertura da temporada 2002 da Fórmula 1, na Austrália. Em três provas realizadas, Barrichello esteve na liderança em todas elas e ficou pelo caminho. Alguns preferem chamar isso de azar. Outros, de circunstâncias de corridas. Qualquer que seja a convicção de cada um, o fato é que Barrichello vai pouco a pouco adotando uma postura mais agressiva na pista. Ou vai ou racha. Resta saber se o objetivo é garantir sua continuidade na escuderia italiana, após o término de seu contrato no fim deste ano, ou se busca mostrar mais uma vez do que é capaz para tentar um lugar em outra equipe de bom nível em 2003, que lhe dê mais oportunidades. Para quem começou o ano falando em lutar de igual para igual com Schumacher, esse início de campeonato tem sido uma lástima. Mas se os resultado não apareceram, as atuações foram destacadas. Talvez se trate de uma virada qualitativa rumo ao Barrichello que a torcida quer ver. Não o chorão, reclamando de tudo. Mas esse combativo que deixou Interlagos com a cabeça erguida, com o apoio da torcida e garantindo, com atitudes, que vem mais por aí.



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