Grande Prêmio do Brasil de 1982

23/03/2012

Após a greve na África do Sul, a F1 se via envolta em polêmica novamente quando a categoria aportou no Rio de Janeiro para a segunda etapa do campeonato, já que na Argentina se lutava a Guerra das Malvinas e os ingleses não eram muito bem-vindos no país portenho. Por causa de um regulamento mal feito, as equipes inglesas, lideradas por Brabham e Williams, decidem aproveitar uma brecha das regras para mandar carros mais leves para treinos e corridas, mas com uma caixa de água na lateral do carro. Como a pesagem dos carros era feita sem combustível e com reservatórios de líquidos lubrificantes e refrigeração cheios, os times esvaziavam essa caixa e mandavam os carros 80 quilos mais leves, mas quando eram pesados pelos comissários desportivos, as equipes simplesmente enchiam a caixa novamente, normalmente argumentando que era um ‘reservatório do sistema de refrigeração dos freios’.

Essa diferença fez com que os carros aspirados, incluindo aí a Brabham, que no Brasil trocava o problemático BMW turbo pelo confiável Cosworth aspirado, ficassem bem próximos dos carros como motor turbo, trazendo revolta à Ferrari e Renault, que eram apoiados pela FISA de Jean-Marie Balestre.  Alain Prost conseguia a pole com Villeneuve ao seu lado, mas Keke Rosberg colocava a Williams aspirada em terceiro, sendo o melhor não-turbo do dia. René Arnoux alinhava em quarto, mas o francês estaria ameaçado dentro da Renault, inclusive com Jan Lammers sendo um possível substituto, já que a Renault estava interessada no mercado holandês. Mais atrás, a Ligier, que fez Laffite brigar pelo título em 1981, fazia uma classificação medonha, com o francês em 26º e o jovem companheiro de equipe Eddie Cheever duas posições à frente.
Grid:
11)      Prost(Renault) – 1:28.808
22)      Villeneuve(Ferrari) – 1:29.173
33)      Rosberg(Williams) – 1:29.358
44)      Arnoux(Ferrari) – 1:30.121
55)      Lauda(McLaren) – 1:30.152
66)      Reutemann(Williams) – 1:30.183
77)      Piquet(Brabham) – 1:30.281
88)      Pironi(Ferrari) – 1:30.655
99)      Patrese(Brabham) – 1:30.967
110)   De Cesaris(Alfa Romeo) – 1:31.229

O dia 21 de março de 1982 estava extremamente quente no Rio de Janeiro e isso acabaria trazendo problemas aos pilotos no final da prova. Nelson Piquet estreava um capacete novo, baseado nos utilizados pelos pilotos do Mundial de Motovelocidade, mais leve e aberto do que o normal, mas isso faria o brasileiro ter que respirar o ar quente dentro do capacete. Os carros com motores turbo tinha um já tradicional retardo em baixas rotações, fazendo das largadas um tormento para eles, mas Gilles Villeneuve era notório por desfazer regras e largou de forma perfeita, assumindo a primeira posição, seguido por Rosberg, Arnoux e Prost. Mais atrás, Petrese consegue uma largada espetacular, pulando de nono para quinto, enquanto Piquet era sétimo.

Keke Rosberg fazia uma primeira volta sensacional e após ultrapassar Arnoux, o piloto da Williams partiu em persguição a Villeneuve, mas o canadense soube fechar a porta do finlandês na entrada da reta oposta e como Rosberg não tinha o turbo para lhe garantir potência extra, ele acabou sendo ultrapassado pelas Renaults de Arnoux e Prost. Nelson Piquet fazia uma corrida tática, sem forçar muito, até por que tinha uma forte dor nas costas, mas o brasileiro ganharia uma posição na 3º volta quando Didier Pironi rodou à sua frente, garantindo o sexto lugar ao campeão de 1981. Os cinco primeiros corriam próximos uns aos outros e de forma sólida, mas Nelson Piquet os alcançavam. Os dois carros da Brabham vinham forte e na curva Sul, na frente da torcida, o duo de comandados por Bernie Ecclestone deixaram Rosberg para trás, partindo para cima de Prost. Na volta seguinte, a sexta, Prost comete um erro na curva Norte e permite a dupla da Brabham avançar mais uma posição, os deixando em posição de atacar Arnoux e, porteriormente, Villeneuve. Querendo tomar as rédeas do espetáculo, Piquet ultrapassa Patrese na Curva Sul e parte em perseguição a Arnoux, enquanto Rosberg começa uma recuperação e assume o quinto lugar de Prost.
No momento em que Raul Boesel abandonava tristemente a sua corrida caseira com um pneu furado, Piquet pressionava Arnoux pelo segundo lugar, enquanto Villeneuve já tinha 4s de vantagem na ponta. O piloto da Renault segurava claramente Piquet e isso fez que uma fila se formasse atrás de Arnoux, com Piquet, Patrese, Rosberg, Prost, Reutemann, Lauda e Watson. Só fera! Depois de muito pressionar, finalmente Piquet ultrapassa Arnoux na Curva Sul, sua preferida para ultrapassar, e partia em perseguição a Villeneuve, enquanto Rosberg também ultrapassava Patrese. Quando o piloto da Williams deixa Arnoux para trás, ele se junta a Piquet na caçada a Ferrari de Gilles. Começava neste momento a melhor  parte da corrida. Juntar tres pilotos do naipe de Gilles Villeneuve, Nelson Piquet e Keke Rosberg na luta pela primeira posição era de esperar nada menos que um show destes três pilotos abençoados.

O público carioca de aproximadamente 50.000 pessoas foi agraciado por um disputa espetacular entre os três, mas com Villeneuve sempre na frente, segurando Piquet e Rosberg, que trocaram de posição mais de uma vez. Na volta 30, Piquet tenta forçar a ultrapassagem na Curva Norte, mas Villeneuve, usando sua usual agressividade e na tentativa de fechar a porta para Piquet, acaba freando com os pneus do lado esquerdo na grama e sai da pista. Piquet tem que travar seu Brabham para não bater, o mesmo fazendo Rosberg. Nelson Piquet assumia a liderança da corrida, mas tendo sempre Rosberg no seu cangote. A corrida tinha causado várias quebras, mas o calor faria suas vítimas. Correndo em terceiro, Patrese erra sozinho e cede sua posição para Prost e Watson. Na volta seguinte, o italiano erra novamente e no final do giro ele encosta seu Brabham nos pits. Patrese havia passado mal dentro do Brabham e tem que ser carregado para fora do carro.

Piquet e Rosberg andavam na frente com 5s de vantagem sobre Prost, que marca a volta mais rápida da corrida, mas não dava pinta que iria ameaçar o domínio dos carros aspirados. Nas voltas finais, todo mundo diminui o ritmo e Piquet não conseguia fazer a Curva Sul apoiando sua cabeça para dentro, sofrendo de dores no pescoço. Após a bandeirada, Piquet tinha quase 10s de vantagem sobre Rosberg e surpreendentes 30s sobre Prost, o primeiro dos carros turbos. Ao chegar ao pódio, Piquet estava entre Rosberg e Prost, mas de repente se apóia nos ombros dos companheiros de pódio e acaba desmaindo por causa do forte calor. Restabelecido, Piquet estoura o champanhe sentado no alto do pódio, para delírio do público presente, que comemorava a primeira vitória do campeão. Ou não? Na hora da pesagem dos carros, houve uma discussão acalorada, pois Jean Sage, dirigente da Renault, não se conformava com a maladragem das equipes inglesas, apoiadas pela FOCA. Os mecânicos da Williams começaram a bombear a água contida num enorme galão de 50 litros dentro da caixa no carro de Rosberg, enquanto colocavam 7,5l de óleo no motor (quando a capacidade máxima era de 5l) e 12l de óleo de transmissão (quando o máximo era de 2l!). Mecânicos de Brabham, McLaren e Lotus faziam artimanhas parecidas para que seus carros tivessem os 580 kg regulamentares no final da pesagem. E todos conseguiram, sendo que Watson escapou por apenas 1 kg. As equipes da FISA ficaram furiosas e recorreram a Balestre, que desclassificou, de forma esquisita, apenas Nelson Piquet e Keke Rosberg quase um mês depois da corrida. Tendo a FOCA como aliada, Brabham e Williams lideraram um boicote, mas essa já é outra história.

Chegada:
1  1)      Prost
2  2)      Watson
3  3)      Mansell
4  4)      Alboreto
5  5)      Winkelhock
6  6)      Pironi

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