Grande Prêmio de Mônaco de 1982

25/05/2012


Uma quinzena havia se passado, mas as feridas abertas pela morte de Gilles Villeneuve ainda não haviam cicatrizado quando a F1 chegou ao seu mais charmoso Grande Prêmio, em Mônaco. Gilles era um piloto querido por todos dentro da F1, bem ao contrário de Didier Pironi, que todos acusavam de querer ser o primeiro piloto francês a ser campeão na F1 de qualquer jeito, não importando muitos os meios. A Ferrari já havia acertado com Patrick Tambay para substituir Villeneuve, mas a equipe preferiu manter apenas um carro em Monte Carlo em respeito ao canadense, mas Pironi se tornara uma pessona non-grata dentro do paddock.

A Renault tinha uma enorme dificuldade em circuitos de rua ou apertados por causa do turbo, que só funcionava a contento após certa rotação, mas o time francês, querendo fazer bonito na frente do seu público, preparou um novo turbo para que a potência pudesse surgir com rotações um pouco mais baixas, ideais para Mônaco.  René Arnoux, um verdadeiro ás em ritmo de classificação, ficou com a pole com meio segundo de vantagem sobre Patrese, que utilizava o Brabham com motor Ford Cosworth, enquanto Piquet ainda tentava desenvolver o motor BMW turbo e não repetia a exibição de 1981, onde fora pole, e em 1982 largaria apenas em 13º. Como em Mônaco só se largavam vinte carros na época, Raul Boesel e Chico Serra ficariam de foram e Piquet seria o único brasileiro a largar no domingo. 

Grid:
1) Arnoux(Renault) - 1:23.281
2) Patrese(Brabham) - 1:23.791
3) Giacomelli(Alfa Romeo) - 1:23.939
4) Prost(Renault) - 1:24.439
5) Pironi(Ferrari) - 1:24.585
6) Rosberg(Williams) - 1:24.649
7) De Cesaris(Alfa Romeo) - 1:24.928
8) Daly(Williams) - 1:25.390
9) Alboreto(Tyrrell) - 1:25.449
10) Watson(McLaren) - 1:25.583

O dia 23 de maio de 1982 estava ensolarado em Monte Carlo, mas havia previsão de chuva. Assim como acontece hoje, uma boa largada seria essencial para uma boa corrida em Mônaco e Arnoux sabia disso, conseguindo uma ótima saída no apagar da luz verde, deixando a confusão para o segundo colocado em diante. Ainda com a famosa largada de 1980 em mente, todos os pilotos se comportaram bem nas primeiras curvas, mas não deixaram de haver trocas de posição, notadamente com Bruno Giacomelli ultrapassando o compatriota Riccardo Patrese para ficar em segundo. A Alfa Romeo se comportaria otimamente durante toda a prova.

Porém, o melhor carro nas primeiras voltas era a Renault. René Arnoux abriu uma boa diferença para Giacomelli ainda na primeira volta e sumia na frente. Prost deixou Patrese para trás ainda durante a volta de abertura e passou a pressionar Giacomelli para lhe tomar a segunda posição. Querendo manter o posto, Giacomelli acabaria batendo com força numa zebra alta e isso lhe custaria caro mais tarde, quando teve que abandonar na quarta volta com a transmissão danificada pelo toque. Com isso, a Renault liderava em Mônaco com direito a dobradinha, para delírio do público presente e até mesmo dos comissários de pista, que comemoravam a cada passagem dos carros amarelos. Mesmo tendo Prost na liderança do campeonato, Arnoux não queria saber de ordens de equipe e tinha 7s de vantagem na 14º volta quando entrou no Esse da Piscina. De forma até bisonha, Arnoux perdeu o controle do seu Renault e ficou atravessado, sem bater em nada. O francês deixou o motor morrer e morria ali também sua corrida. Arnoux saiu do carro claramente decepcionado com a besteira feita. Ainda mais com o seu desafeto Prost assumindo a ponta e se consolidando como primeiro piloto da Renault.

Nesse momento, a corrida fica chata e monótona. Prost liderava com conforto à frente de Patrese, Pironi e De Cesaris. Nada acontecia na pista, mas acima dela, havia um grande movimento. O tímido sol que havia nas primeiras voltas dava lugar as nuvens escuras que se aproximavam do principado. Faltando cinco voltas para o fim de uma corrida que não tinha acontecido nada demais, o clima fica escuro, sombrio até. Na volta 74, uma garoa fina chegou para tornar a pista um pouco escorregadia. Os comissários imediatamente mostraram a bandeira bicolor em amarelo e vermelho, mostrando que a pista tinha uma aderência menor do que o normal. Quando Prost cruzava a Portier, um comissário não apenas lhe mostrava a bendita bandeira, como ainda apontava para o céu, como que lhe indicando o óbvio: a chuva deixou a pista ligeiramente molhada. Se Prost viu ou não a bandeira e os avisos do comissário, a verdade foi que o francês destruiu sua corrida alguns metros adiante, quando bateu forte no guard-rail e até machucou sua perna, mas tirando o orgulho, Prost nada havia sofrido. Isso fazia com que Patrese assumisse a primeira posição. Quando passou pelos destroços do carro de Prost e viu a garoa aumentar de intensidade, o italiano da Brabham tirou o pé completamente. Patrese completou a 74º volta tão lentamente, que o retardatário Marc Surer, várias voltas atrás e acenando para Patrese passar, se tornava um adversário do italiano em termos de velocidade. Patrese parecia nervoso, mesmo com toda a torcida vibrando com ele, mas isso não foi o suficiente para acalmar o italiano, que rodou ridiculamente no hairpin Loews. Com isso, Pironi assumia a ponta. Porém, havia problemas.

O francês da Ferrari também se arrastava na pista, sem bico, arrancado quando ia colocar uma volta no retardatário Elio de Angelis, e com problemas em sua Ferrari. Quando iniciou a última volta, Pironi acenava loucamente para o diretor de corrida encerrar a prova ali. Não sendo atendido, Pironi parecia conhecer o seu destino. Quando o piloto da Ferrari passava pelo túnel, seu carro morreu. Pane Seca. Era o terceiro líder a abandonar a corrida em seu final! Então todos os olhos se voltaram a Andrea de Cesaris, quarto colocado poucas voltas antes, mas que seria o líder naquele momento. Seria. Quando a câmera achou o italiano, seu carro estava estacionado na subida do Cassino, também sem gasolina. Parecia que os deuses das corridas queriam nos desculpar pela monotonia do começo da corrida e simplificar toda a emoção apenas no final. O quinto colocado era Derek Daly, piloto que havia sido contratado para o lugar de Carlos Reutemann na Williams e tinha sido uma das vítimas da garoa no final da prova e tinha batido de traseira no guard-rail, deixando a asa traseira no local e parte do câmbio dependurada. O irlandês poderia estar a caminho da glória, mas o câmbio acabou quebrando na última volta. James Hunt, comentando a prova pela BBC, se irritava com a falta de piloto querendo ganhar a corrida em sua última volta. E aliás, quem poderia ser o vencedor?

A resposta aparece no carro branco e azul de... Patrese! Sem muita gente perceber, o italiano fizera seu carro pegar no tranco e partiu para as voltas finais sem muita esperança e até mesmo bravo consigo mesmo, pela chance perdida de conseguir a sua primeira vitória na F1. Quando recebeu a bandeirada, Patrese nem comemorou muito. Ele não sabia em que posição estava, mas quando chegou no túnel e viu Pironi lhe congratulando, ele percebeu que tinha sido o vencedor! Era sua primeira vitória na F1. A confusão continuou no pódio. Nigel Mansell e Elio de Angelis haviam levado suas Lotus até o fim, mas muitas voltas atrasados e como houvera tantos abandonos no final, eles pensavam que eram segundo e terceiro colocados respectivamente e foram ao pódio pegar seus troféus, mas a organização fez a contagem de voltas e percebeu que na verdade fora Pironi e De Cesaris, que iniciaram a última volta, que eram segundo e terceiro, respectivamente, mesmo abandonando. De Cesaris, que poderia ter dado a primeira vitória para a Alfa Romeo em mais de trinta anos, estava com cara de poucos amigos no pódio, enquanto Patrese vibrava como se não acreditasse no que estava acontecendo. Sua primeira vitória num final dos mais caóticos da história. Na verdade, ninguém na F1 acreditava no que tinha visto nas três últimas voltas daquele Grande Prêmio de Mônaco. 

Chegada:
1) Patrese
2) Pironi
3) De Cesaris
4) Mansell
5) De Angelis
6) Daly

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