Comparação entre o antigo circuito de Crystal Palace e o atual local onde a delegação brasileira ficará na Olimpíada. Foto: Getty Images/ Emanuel Colombari/Terra
O Crystal Palace receberá a delegação do Brasil durante a Olimpíada de 2012, em Londres, e dispõe de várias instalações esportivas para tal - quadras de tênis, de vôlei, piscinas e até mesmo um estádio com pista de atletismo. Quem passa por ali talvez nem imagine, mas o local já foi palco também de corridas de carros. Pelas estreitas alamedas do parque, nomes como Stirling Moss, Reg Parnell, Príncipe Bira, Jim Clark, Jack Brabham, Graham Hill, Jochen Rindt e Emerson Fittipaldi já voaram baixo, atraindo milhares de fãs de automobilismo.

A grande área verde tem seu nome derivado do chamado Palácio de Cristal, que foi construído no século XIX para a chamada Grande Exposição e acabou destruído por um incêndio na década de 30. Neste período, segundo informações do Crystal Palace Museum, uma de suas alamedas - próxima ao chamado Terraço Italiano - foi cenário daquele que é considerado o primeiro acidente automobilístico fatal da história: em agosto de 1896, Bridget Driscoll "foi atingida e morta por um veículo", segundo um jornal da época. A publicação diz que Bridget, mulher de um operário londrino da época, atravessava uma das pistas do parque com outras duas mulheres quando o carro se aproximou; a dupla escapou, mas ela hesitou e foi atingida.

Apesar do marco pouco feliz para o Crystal Palace, o parque passou a sediar também algumas das mais antigas corridas da história do automobilismo mundial, entre os séculos XIX e XX. Com o sucesso crescente que a modalidade fazia na Europa, os responsáveis pela pista projetavam aumentar a popularidade do traçado com um novo e maior desenho. Os planos, porém, foram muito ameaçados em dezembro de 1936, quando um incêndio de gigantescas proporções pôs abaixo o Palácio de Cristal. Mesmo assim, a nova pista de cerca de 3,5 km foi inaugurada, mantendo-se o local como uma atração londrina e tendo Reg Parnell como um de seus nomes mais populares.

Mas veio a Segunda Guerra Mundial. As atividades no traçado cessaram, e até as últimas reminiscências do Palácio de Cristal - as torres norte e sul - tiveram que ser demolidas para não servirem de referência aos bombardeiros alemães. Destruída por ataques, a pista passaria a enfrentar a resistência dos moradores da vizinhança para que fosse reconstruída e voltasse a receber corridas na década de 50. Superado o obstáculo, graças a uma negociação que limitava o número de eventos por ano, provas de Fórmula 1 começaram a ser disputadas em 1953, sem valer pontos para o campeonato e contando com carros de Fórmula 2 no grid. Era o chamado London Trophy, que figurou na F1 (sem distribuir pontos) até a década de 60.

Dentre tantos nomes que corriam pelo local entre a F1 e a F2, Jochen Rindt talvez tenha se tornado o mais famoso, após vencer o London Trophy de 1964 a bordo de um carro da categoria de acesso. No entanto, a evolução do automobilismo mundial não acompanhou as acanhadas retas e curvas do Crystal Palace, e, em 1973, as atividades foram suspensas por período indeterminado. Desde então, eventuais corridas aconteceram de forma intermitente no local, atraindo apenas alguns apaixonados.

Atualmente, as pequenas rotas dentro do parque têm pouco a oferecer aos visitantes quando o assunto são as corridas histórias do local. Do traçado final, desenhado na década de 60, pouco restou. São poucas as testemunhas que restaram pelo local, e nem mesmo o museu do parque oferece informações das corridas no Crystal Palace. Ainda assim, há quem se lembre das corridas por ali - como Keith Millwald, 64 anos, que hoje pesca no lago do local.

"Quando eu era jovem, pilotava um Mini por aqui", diz ele, apontando para a antiga reta conhecida como Nova Ligação, que deixou de registrar a largada e a chegada dos pilotos na década de 60. "Era uma pista popular, mas os vizinhos reclamavam muito do barulho", completa ele. Segundo Millwald, que diz ter vindo a "algumas corridas" da época, os admiradores ainda tiveram eventos anuais de homenagens com carros antigos, mas nem mesmo estes foram adiante por muito tempo.

Do que restou do traçado final da pista, o que há de mais visível é a chamada Reta do Estádio, que passava por trás do estádio do atletismo e subia à direita. Ali, uma pista larga e muros de concreto podem indicar que aconteceram corridas de carro. A poucos metros do estádio, a única menção às provas é um kartódromo que aparenta pouco uso, sem funcionários na proximidade e cercado. Em uma das grades, uma placa indica se tratar de propriedade privada.

Passada a curva à direita do estádio, as vias de Crystal Palace ainda guardam um trecho considerável do circuito, com ruas de circulação aberta que passavam por pela estação de trem da região e por trechos como a Subida Maxim (hoje, entrada do parque). Após uma curva para a direita chamada Torre Sul (referência a uma das torres do antigo Palácio de Cristal), os pilotos cortavam pelo trecho mais emblemático da pista: a Reta do Terraço, que passava ao lado de escadarias bastante pomposas e que posteriormente seria a reta de largada e chegada. Por ali, ficam uma alta torre de transmissão de TV e o prédio de cobertura de madeira que receberá a delegação do Brasil.

As escadas levavam ao terreno alto onde se localizava o grandioso Palácio de Cristal, e seguiram ali mesmo após o incêndio. Ao final da reta, que já não existe mais, uma suave curva à esquerda iniciava o desenho da chamada Torre Sul, curva à direita que fazia menção à outra torre que ladeava o prédio que batizava o parque. Por ali, uma descida em suaves curvas chamada The Glade levava os pilotos por alamedas estreitas e árvores antigas até a Curva do Parque, também à direita. Passando pelo lago, os competidores chegavam à Nova Ligação, breve reta em descida que marcava a largada no desenho anterior.

Por toda a região do Crystal Palace, os barulhos de motor que se ouvem são apenas os de carros e motos que passam pelas ruas do lado de fora do parque. Apenas visitantes, esquilos e pássaros passam diariamente por onde já passaram carros a mais de 160 km/h. Ou, pelo menos, até dia 10 de julho: segundo cartazes colocados em portões que interrompem as retas do antigo traçado, "um evento ciclístico" acontecerá até dia 21 de agosto, todas as quintas-feiras, a partir das 17h30.

Pilotos como Stirling Moss, Reg Parnell, Príncipe Bira, Jim Clark, Jack Brabham, Graham Hill, Jochen Rindt e Emerson Fittipaldi já voaram baixo no circuito  Foto: Emanuel Colombari/Terra

Circuito passou a sediar algumas das mais antigas corridas da história do automobilismo mundial, entre os séculos XIX e XX  Foto: Emanuel Colombari/Terra

Até hoje a pista larga e muros de concreto ainda indicam que aconteceram corridas de carro no local  Foto: Emanuel Colombari/Terra

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