Zanardi é Ouro

05/09/2012

Não era a primeira vez que Alessandro Zanardi entrava no autódromo de Brands Hatch para disputar uma corrida. Mas quis o destino que sua primeira vitória não viesse a bordo de um carro, e sim de uma bicicleta adaptada. Quando piloto, competiu no circuito inglês pela primeira vez em 1990, e ainda voltaria a acelerar naquele asfalto outras mais até se despedir das competições motorizadas, em 2009. Dois anos antes, viu no ciclismo um rumo alternativo, e foi no esporte que ele, enfim, se consagrou na pista. Nesta quarta-feira, o italiano levou o ouro na prova contra-relógio, na categoria H4, com o tempo de 24m50s22, pelos Jogos Paralímpicos. O alemão Norbert Mosandl ficou com a prata, com 25m17s40, enquanto Oscar Sanchez, dos EUA, conquistou o bronze (25m35s26).

Zanardi, que correu pela Jordan, Williams, Lotus e Minardi na Fórmula 1, já ficara próximo da vitória em Brands Hatch por duas vezes. Pela Fórmula 3000, pouco antes de estrear na principal categoria do automobilismo, marcou uma pole e terminou a prova em segundo lugar. Em 2008, no Mundial de Turismo, conquistou mais um pódio, com a terceira posição em uma das corridas no circuito, localizado em Kent, cidade próxima a Londres. Mas o triunfo veio apenas nesta quarta-feira. Na categoria H4, para atletas paraplégicos que utilizam a handbike (bicicleta especial em que o impulso é dado com as mãos), venceu a prova com sobras.

Em 2001, então com 34 anos, Zanardi pilotava na CART, antigo campeonato de monopostos dos Estados Unidos, quando sofreu um grave acidente que o deixou sem as duas pernas e com pouco mais de um litro de sangue em seu corpo.

- É um sentimento incrível. Estou muito, muito feliz pelo resultado e um pouco triste. Eu já sabia que esse resultado me traria um pouco de tristeza. Gostaria de dizer que a minha felicidade é a mesma de dois anos atrás, quando decidi me dedicar ao ciclismo, buscar a vaga nos Jogos e chegar competitivo. Quando temos o que buscar, impulsionados por nossa paixão, todo dia é uma grande oportunidade de encontrar a felicidade. E esse é quase o último dia dessa grande aventura. A partir de segunda, eu não tenho dúvidas que vou descobrir uma outra coisa para fazer. Quando se tem um talento, sempre acontece. Mas vou ter que buscar algo diferente para vida não se tornar chata. Vou dar a minha esposa algumas semanas para relaxar, descansar, fazer compras... (risos). Essas coisas que mulher gosta. Mas depois eu vou voltar a trabalhar. - disse o ex-piloto, de 45 anos, logo após a vitória.

Menos de dois anos após o acidente, já estava de volta ao volante no Campeonato Mundial de Turismo. Em um carro adaptado às suas necessidades, conseguiu ganhar corridas. A volta por cima valeu a ele o Prêmio Laureus, considerado o Oscar do esporte. Em 2007, adotou o ciclismo como novo esporte. A primeira diferença é que as próteses deixaram de ser item indispensável, uma vez que a modalidade é impulsionada por manetes e não por pedais. Com quatro semanas de treinos veio o primeiro resultado, quarto lugar na maratona de Nova York entre os ciclistas "de mão".

Até 2009, Zanardi dividiu seus treinos entre o automobilismo e o paraciclismo. A situação mudou quando veio a decisão de abandonar os carros e se dedicar exclusivamente às bicicletas adaptadas. Em Londres, o ex-piloto ainda vai disputar duas provas: H4 de estrada e revezamento misto H1-4.

A vontade de seguir surpreendendo, no entanto, não significa que o ciclismo não faz mais parte de suas ambições. Zanardi só acha que precisa movimentar sua vida até os Jogos do Rio, em 2016

- Eu nunca vou abandonar o ciclismo enquanto tiver forças nos meus braços, mas, até o Rio de Janeiro, chegar eu tenho uma grande oportunidade de buscar novos desafios. Eu poderia seguir a vida incrível que tenho e ir pescar com meu filho, mas se algo interessante aparecer...

Com dois títulos da Indy como ponto alto da carreira no automobilismo, o campeão paralímpico foi questionado sobre qual conquista o deixou mais realizado. Objetivo, respondeu:

- Não posso falar que um é melhor que outro. Chegar ao topo é sempre um dos melhores momentos para se viver.

‘Não sou melhor do que ninguém’

Apontado por todo o mundo como sinônimo de superação, Zanardi prefere fugir do clichê. Ciente de que sua trajetória o coloca em evidência, o italiano cita um encontro que mudou suas perspectivas para mostrar que bons exemplos existem também nos anônimos.

- Não me sinto como uma inspiração. De repente, virei um ponto de referência por conta das minhas limitações. No começo da minha recuperação, fui ao médico e ouvi: “Alex, você poderá fazer isso, isso e isso, mas não poderá fazer isso, isso e isso”. Mas um dia encontrei um cara como eu, biamputado, e ouvi: “Eu vivo minha vida, faço minhas coisas, fico de pé com minhas próteses...”. Ele, sim, foi uma inspiração para mim. Então, não podemos querer ser inspiração para ninguém, porque todo mundo pode te inspirar de alguma maneira. Como uma mãe que simplesmente acorda os filhos para ir para escola e vai trabalhar mesmo que esteja doente. Depende dos olhos de cada um. Isso que falta ao mundo: olhos para ver onde se inspirar. Por conta das propagandas, de aparecer na TV, às vezes falam: “Uau, olha aquele cara”. Mas eu não sou melhor do que ninguém.

Por fim, o ciclista falou da ansiedade até a confirmação do ouro. Líder após terminar sua prova, ele ainda esperou outros concorrentes terminarem o percurso e viveu os momentos mais emocionantes da tarde.

- Esperar foi o mais difícil. Eu sempre me preparo para fazer o meu melhor. Então, antes da prova, obviamente, há o nervosismo porque o preço que se paga é muito alto, trata-se dos Jogos Paralímpicos, mas eu sabia que ficaria feliz pelo meu esforço. Depois, ter que ficar olhando os adversários chegarem e meu nome seguir como primeiro deu um frio na barriga. Só no fim comecei a acreditar que algo mágico estava acontecendo.

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