Até ontem

16/11/2012

O autódromo de Jacarearepaguá foi sepultado por estes dias. Tentei, mas não consegui deixar de escrever um texto sobre a minha "segunda casa". É esse aí embaixo, na íntegra, igualzinho ao que publiquei lá no meu blog.

---

Eu juro que tentei não escrever nada. Mas, não deu pra segurar. O Autódromo de Jacarepaguá silenciou definitivamente hoje, e não posso passar indiferente à este fato. Seria uma tremenda injustiça.


Foi lá que, em 1996 vi André Ribeiro vencer a Indy - na estréia do Circuito Oval - e ser aclamado pelo grande público nas arquibancadas. No mesmo ano, vi uma das lendas das duas rodas, Michael Doohan, vencer por aqui. Ali nasceu meu amor pelo automobilismo. Não foi vendo Senna na tevê. Foi lá, ao vivo, ouvindo o ronco dos motores, vendo aquelas máquinas passar beirando o desgoverno, aquele cheiro de borracha queimada...

Eu era muito novo. Então um menino com 10 anos de idade...
E qual menino não ficaria fascinado com aquilo?!

Pois é, eu fiquei. Até 2004 acompanhei a todas as etapas da MotoGP. E não foi só. Nesse meio tempo comecei a frequentar o lugar sozinho. E vi corridas de longa duração - como as tradicionais 6 Horas do Rio de Janeiro - além de etapas do Brasileiro de Marcas, do Estadual de TurismoStock CarF3 Sul-Americana, Copa Clio, Copa Uno... 

E o menino que cresceu ali na arquibancada, começou a sonhar em um dia poder sentar num daqueles carrinhos. E o sonho começou a virar realidade quando esse menino sentou num kart pela primeira vez, ainda na pista indoor do Shopping Nova América (esta, já não existe mais). Depois vieram corridas no kartódromo Premium, na Barra (outra que não está mais lá).

Pouco tempo depois, veio o curso de pilotagem da ONS, e não demorou para eu colocar as mãos na minha primeira carteirinha da FAERJ. Ou seja, o sonho estava parcialmente realizado. A partir daí abandonei os karts e foquei no meu sonho. Eu queria mesmo era acelerar de verdade...

Consegui alinhar por três vezes no Carioca de Turismo. O carro era alugado, e o dinheiro vinha de um empréstimo no banco de um simples universitário sem nenhum planejamento financeiro (empréstimo esse que só foi quitado agora, no final de 2011). Foi tudo escondido. Ninguém da família sabia de nada. Achavam que o empréstimo era para a faculdade e o tempo no autódromo era somente como espectador...

Mas eu consegui. E a sensação é, até hoje, inenarrável, indescritível...

Eu chorei. Chorei muito. Lembro até hoje que não acelerei tudo. Eu tinha medo. Pois não teria como arcar com os custos de qualquer prejuízo. Das três provas, terminei duas em último dos que completaram. Na última, melhorei um pouco, mas não fui nada além de discreto. 

Foda-se! Nada disso importava. Deste momento em diante eu podia bater no peito e bradar aos quatro ventos "eu sou um piloto de carro!". E sou, até hoje, de coração.

Enfim. Como era de se esperar, a carruagem virou abóbora. O dinheiro acabou, a dívida surgiu, o filho nasceu e o sonho foi ficando na memória. Porém, realizado.

A partir desse momento posso dizer que retrocedi no automobilismo. Abandonei os carros e passei a andar mais frequentemente de kart. Entrei para um grupo amador - o Pé na Tábua - fiz amizades e gostei da brincadeira. 

Mas não abandonei minha segunda casa, Jacarepaguá. Continuei acompanhando todos os eventos que por lá aconteciam. Ainda que com a arquibancada fechada, com divulgação zero; fizesse chuva ou sol, eu estava lá. 

... Até ontem.

Adeus Autódromo de Jacarepaguá. Em todos estes anos você foi maravilhoso. Você despertou naquela criança de 10 anos de idade a paixão pelo esporte automobilismo. Aquela criança cresceu, e você continuou maravilhoso, me ensinando a perseguir um objetivo. Você ajudou a realizar o sonho daquele menino. E até ontem você fez renascer  o mesmo menino a cada corrida, fez brilhar seus olhos a cada ronco de motor...

... Até ontem.


Se gostou, visite o Blog do Boueri para ver mais automobilismo de qualidade.

Posts Relacionados

0 comentários :