20 anos da última de Senna no Brasil

28/03/2013

Senna no pódio em Interlagos 

Naquele domingo, um roteiro desfavorável ao brasileiro, marcado por crise na McLaren e pelo amplo favoritismo das Williams, se transformou em consagração. Choveu em Interlagos, Prost errou e Senna pilotou como mestre e brilhou como estrategista, numa das maiores atuações – ao menos de acordo com o escritor – de sua carreira.
Em tempos nos quais a FIA não adotava uma política tão restritiva nas pistas, a McLaren de Senna se perdeu entre o povo que invadiu o asfalto de Interlagos. E, por mais que a vitória não tenha sido tão dramática quanto em 1991, nada mais justo que um gênio ser laureado por outro, como aconteceu no pódio em São Paulo, com Senna descendo do pódio para abraçar o titã Juan Manuel Fangio.

O cenário para o brasileiro em 1993, contudo, estava longe do ideal. Após uma fraca campanha no ano anterior, Senna se mostrava descontente com a falta de competitividade da McLaren em relação às Williams de Alain Prost e Damon Hill. Em Interlagos, o FW15 projetado por Patrick Head e Adrian Newey era ainda mais favorito graças à potência do motor Renault V10.

Nos bastidores, o clima era de tensão. O diretor da McLaren, Ron Dennis, queria convencer Senna a assinar um contrato de dois anos, enquanto o brasileiro, de olho numa vaga na Williams, ambicionava um acordo de curto prazo. No caso de Interlagos, Dennis havia desembolsado cerca de US$ 1 milhão de dólares para alinhar o tricampeão mundial no grid; McLaren e Ayrton sequer tinham um acordo para o campeonato inteiro.

A sexta-feira continuou em tom desolador. Ao final do primeiro treino classificatório, Senna concluiu que seria “inviável” tirar a diferença de quase 2s para Prost. Sua meta era alcançar um terceiro lugar na classificação, no máximo, para ter chances de escalar o pelotão no domingo e arrancar um pódio.

Para se ter uma ideia da supremacia de Grove, Prost só usou apenas um dos jogos de pneus que tinha direito no treino oficial para cravar a melhor volta na sexta-feira.

No sábado, as expectativas se confirmaram. Prost melhorou seu tempo em quase um segundo e registrou 1min15s866 no melhor giro, obtendo sua 22ª pole da carreira e a segunda no Brasil – havia marcado uma em Jacarepaguá, em 1982.


Senna, como esperado, manteve o terceiro lugar, embora tenha evoluído também um segundo em relação à sexta-feira, com 1min17s697. Hill largaria ao lado de Prost e a revelação Michael Schumacher partiria na mesma fila de Senna, com Michael Andretti, da McLaren, e Riccardo Patrese, da Benetton, completando a relação dos seis primeiros.

Os outros dois brasileiros da categoria, de acordo com seus equipamentos, também foram relativamente bem. Rubens Barrichello, da Jordan, se manteve boa parte da sessão entre os dez primeiros, mas caiu para 14º no fim, ainda assim superando o colega de equipe Ivan Capelli. Já Christian Fittipaldi bateu Fabrizio Barbazza por 0s5 com o pouco competitivo M196-Ford da Minardi e se garantiu na 20ª colocação.

A meteorologia no dia do páreo, contudo, reservou surpresas. Prost, como sabemos, odiava chuva, ao contrário do antagonista. E naquele dia, o tempo ficou ao lado do brasileiro.

Na largada, Prost saiu na frente, enquanto Senna ultrapassou Hill e tomou a vice-liderança. Andretti se estranhou com Gerhard Berger, da Ferrari, os dois abandonaram e, ao fim da volta de abertura, Prost, Senna, Hill, Schumacher e Patrese encabeçavam o pelotão. A prova de Patrese, porém, durou pouco tempo em razão de um problema na suspensão.

Nos primeiros giros, sob piso seco, Senna perdeu contato com Prost e passou a tomar calor de Hill, que o superou facilmente na 11ª volta. O brasileiro ainda foi prejudicado por um drive-through por ultrapassar Érik Comas, da Larrousse, sob bandeira amarela e caiu para quarto. Na frente, o francês já colocava mais de 8s para o restante do pelotão.

Foi aí que caiu um temporal e o jogo virou. Todo mundo se encaminhou aos boxes, e Senna, entre os líderes, foi o mais esperto e parou na 26ª volta, imediatamente após a queda d’água. Hill veio em seguida.

Prost, mesmo sem perder a liderança, se deu mal. O francês não entendeu uma ordem via rádio do engenheiro da Williams para entrar no box e permaneceu na pista, quase sem nenhuma aderência nos pneus. No fim da reta dos boxes, finalmente pagou o preço: perdeu o controle do FW15C e o espatifou contra o Minardi de Christian Fittipaldi. Fim de prova para o tetracampeão.

Após a primeira incursão do carro-madrinha na história da F1, as diferenças entre Hill, o novo líder, e Senna, à frente de Schumacher graças ao trabalho do pit, ficaram zeradas. Na sequência, o brasileiro, além de velocidade, demonstrou senso tático: primeiro, deixou para trás o retardatário Derek Warwick, da Footwork; depois, novamente parou antes de todo mundo para colocar pneus lisos quando da secagem da pista.

Mais rápido que Hill, ainda com compostos para chuva, Senna passou pela Williams no Laranjinha na 42ª volta. Em seguida, disparou na ponta, cruzando a linha de chegada a 16s6 do britânico.
Schumacher, com a Benetton, encerrou em terceiro, seguido das Lotus de Johnny Herbert e Alessandro Zanardi, separadas por Mark Blundell, da Ligier.

Assim, mesmo desacreditado, Senna obteve sua 37ª vitória da carreira e assumiu a liderança do campeonato, com 16 pontos. De quebra, deu à McLaren seu 100º triunfo na F1, o primeiro após a saída da Honda. “A criatividade é uma coisa que me estimula muito”, disse o brasileiro, definindo de forma precisa como foi aquela que seria sua última vitória em solo natal.

Pódio do GP do Brasil em 1993 (Foto: Divulgação) 

fonte: uol.com.br

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