Colin Chapman está Vivo

01/04/2013

Colin Chapman

 Aos 85 anos, e gozando de ótima saúde, Colin Chapman, o legendário fundador da equipe Lotus - que desde dezembro de 1982 era dado como morto - acabou sendo reconhecido por um fã no dia 04 de novembro de 2012, completamente bêbado, na cidade mato-grossense de Várzea Grande, vizinha da capital Cuiabá. Vivendo incógnito há 31 anos no papel de um pacato instrutor de vôo no aeroclube do município, Chapman só foi reconhecido quando começou a atirar repetidas vezes seu surrado boné John Player Special para o alto, enquanto corria cambaleante pelas avenidas da cidade. 

Tudo começou após a vitória de Kimi Raikkonen com a Lotus no GP de Abu Dhabi de 2012. Até então um senhor de poucas palavras e muito contido, Colin começou a berrar repetidas vezes: “Preciso de um pub, preciso de um pub! A Lotus voltou!”, causando espanto à sua esposa, a ex-chacrete Nilzilene Simões. Isso chamou a atenção do estudante de medicina Clodoaldo Siqueira, que reconheceu o inglês e obteve a confissão. “Em 25 anos de casamento, jamais tinha visto o ‘Chapinha’ ficar desse jeito. Nem mesmo quando nossos filhos Clarque e Péterson nasceram, ele ficou assim” – desabafou Dona Nilzilene, mais conhecida na região como ‘Nilza Efeito-Solo’. “Para mim, foi uma grande surpresa descobrir que ele era rico, e principalmente que ele ainda era casado!” – encerrou, revoltada. 

Aeroclube de Várzea Grande - Aerovag 

Avião de Chapman
Neste Aero Boero PP-GBR, Colin dava instruções de voo em Várzea Grande (MT) 

Quem também ficou muito surpreso foi Jorgino Mascarenhas, zelador do aeroclube de Várzea Grande - Aerovag - há mais de 30 anos. “Fiquei muito espantado com essa história toda” – iniciou Jorgino. “Chapinha sempre foi um sujeito estranho, de poucas palavras, mas muito simpático e querido por todos. Me lembro muito bem da primeira vez que ele apareceu por aqui, com aquele jeito engraçado dele, todo vestido de preto e dourado. Ele sempre dava presentes para todo mundo, e apesar de ninguém entender quase nada do que ele diz, é o melhor e mais arrojado instrutor de vôo que temos na região” – defendeu o zelador, que ainda relatou que Chapman adorava pescar tucunarés no Pantanal. 

Houve, no entanto, quem não se surpreendesse com a novidade. “Pra ser sincero, eu já desconfiava que havia algo de errado com ele” – afirma o aluno de aviação Carlos Mangabeira, de 23 anos. “Certa vez eu cheguei ao aeroclube reclamando que meu carro estava ‘engasgando’, e com pouca potência. O velho então pediu que outro instrutor me desse a aula, enquanto ele iria dar um jeito no meu carro. Quando eu voltei, depois de uma hora de vôo, ele tinha depenado o carro todo, dizendo que ele andava pouco porque era pesado demais...”, continuou o estudante. “Além disso, ele já havia desenhado um segundo chassi que se prolongava pelas laterais até tocar o chão e também uma nova suspensão pro meu Opala, dizendo que seria possível melhorar meus tempos de volta em pelo menos cinco segundos... Esse cara nunca foi normal não” – encerrou. 

Aparições e perseguições

Mansell, Las Vegas 1981
Colin contou com a ajuda do dono da petroleira Essex para forjar a morte, no fim de 1982 

Chapman contou que teve ajuda de David Thieme, dono da petroleira Essex, que chegou a financiar a Lotus no começo dos anos 80, para forjar a própria morte. “Dave percebeu que minha situação judicial ficaria muito difícil e, mesmo achando essa ideia absurda, me ajudou em tudo. Primeiramente fiquei escondido alguns dias na Escócia e então, em janeiro de 1983, vim para o Brasil em um avião pequeno, estabelecendo residência primeiramente em Manaus, dizendo que eu era um antropólogo”, contou. 

No entanto, mesmo os membros da família desconfiaram de seu suposto ataque cardíaco fulminante. “Com o falso pretexto de assistir o GP do Brasil de Formula 1 de 1983, minha mulher Hazel foi a Manaus me procurar depois da prova. Felizmente consegui escapar pelo telhado antes de ser flagrado. Peguei um táxi e ofereci dois mil dólares ao motorista para que me levasse até Cuiabá”, disse Colin, que desde então fixou residência em Vargem Grande, onde tornou-se instrutor do aeroclube local. A partir daquilo, Colin começou a usar apenas seu primeiro nome – Anthony – para não causar suspeitas. Tornou-se, para os conhecidos, como ‘Toninho Chapa’, ou ‘Chapinha’. 

Colin também confirmou que foi disfarçado a algumas corridas a partir de 1985. “Consegui um passaporte canadense falsificado e fui a várias corridas, principalmente no período em que Ayrton Senna estava no time”. Colin ainda surpreendeu ao apontar uma imagem em que ele aparece na multidão do GP de Portugal de 1986, em uma famosa foto tirada por Dominique Faget com os quatro principais pilotos da temporada – Ayrton Senna, Alain Prost, Nigel Mansell e Nelson Piquet. “Morri de vontade de ir ao paddock, mas era muito arriscado”, confessou.

Colin em Portugal
No detalhe, Colin, de chapeu, no meio dos torcedores do GP de Portugal de 1986 

Fraude milionária 

A declarada morte de Chapman, em 16 de dezembro de 1982, sempre foi cercada de mistérios. Velado em caixão fechado, poucas foram as pessoas que afirmaram ter visto seu corpo. Envolvido até o pescoço no complexo escândalo financeiro que envolvia tráfico de cocaína colombiana para financiamento da linha de produção do modelo Delorean DMC-12 (aquele mesmo, utilizado na trilogia “De volta para o futuro”), o desaparecimento de Colin – à época com apenas 54 anos de idade – sempre foi considerado conveniente. 

John Delorean contratou a Lotus para ajudar no projeto do carro, que seria fabricado em uma linha de montagem em Belfast. O governo irlandês pagou US$ 18 milhões para a Lotus, mas este dinheiro foi parar em uma conta bancária suíça, de uma empresa panamenha chamada General Product Development Services Inc. Depois disso, o dinheiro desapareceu e fontes da época diziam que Delorean ficou com 50%, Colin com 45% e seu parceiro comercial na Lotus, Fred Bushell, com 5%. Desde então, muitos foram os rumores de que o legendário projetista estaria vivendo no anonimato, em algum lugar do Pantanal mato-grossense. 

John Delorean
John Delorean foi pivô de um escândalo financeiro com participação ativa de Chapman 

A Delorean faliu em 1982 em meio a um escândalo financeiro. Bushell, que assumiu a diretoria da Lotus depois de Chapman, foi considerado culpado por conspiração financeira e passou quatro anos na prisão. Depois de sair, tornou-se um dos membros do Classic Team Lotus, mantido pelo filho de Colin, Clive Chapman, com os carros projetados pelo pai. Buschell morreu em 2006 e nunca soube que Colin estava vivo todo este tempo. 

Chapman, agora, terá de se entender com a justiça britânica, bem como seus antigos familiares e credores ingleses. Nada disso, porém, parece abalar sua euforia. Afinal, quando procurado pela equipe do site, seus olhos ainda brilhavam emocionados, e a todas as perguntas feitas ele respondia sempre a mesma frase, em tom emocionado: “a Lotus está de volta... A Lotus está de volta...”. 

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fonte: ultima volta

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