O domingo negro de Monza

18/05/2013

Quando relembramos os piores dias do automobilismo, sempre pensamos em corridas como Le Mans-1955, Bélgica-1960 (com a morte dos pilotos Harry Schell e Chris Bristow) e San Marino-1994. Porém, em 1933, tambem aconteceu um dos piores momentos da história do esporte a motor. No Grande Prêmio de Monza daquele ano, chamado de "o domingo negro", três dos maiores pilotos da Europa perderam suas vidas: Giuseppe Campari, Mario Umberto Borzacchini e Stanislaw Czaykowski.

O Grande Prêmio de Monza (Gran Premio di Monza) era uma corrida realizada no Autódromo Nacional de Monza, na Itália.  Na época, o traçado da pista era bem diferente do atual, não possuía chicanes e contava com um trecho oval, com inclinação de 21 graus.
O traçado misto possuía 5,793 km, enquanto o oval contava com 4,250 km.

O traçado de Monza em 1933 (wikipedia)


Após o terrível acidente ocorrido em 1928, onde Emilio Materassi e 27 espectadores morreram, o Grande Prêmio da Itália foi cancelado em 1929 e 1930. Não querendo abandonar a corrida naquela pista, o Grande Prêmio de Monza foi seu substituto durante esses anos. Mesmo depois que o GP da Itália voltou ao calendário, o GP de Monza foi mantido como uma prova separada.
 

Em 1933, os dois eventos foram disputados no dia 10 de setembro, uma vez que o circuito não esteve disponível mais cedo, devido a reformas. Pela manhã, o Grande Prêmio da Itália foi realizado. A corrida, com mais de 50 voltas, compreendeu ocircuito oval e também o misto. A prva teve iníco às 9:30 da manhã, com um grid de 19 carros. Após 2h 51m 4s, Luigi Fagioli, pilotando um Alfa Romeo P3, saiu vencedor.

O Grande Prêmio de Monza, no período da tarde, ocorreu apenas na pista oval . A prova foi dividida em três baterias eliminatórias curtas (com 14 voltas), seguidas por uma final mais longa (22 voltas). Os competidores foram divididos em três grupo, de acordo com o tamanho dos motores e os quatro primeiros de cada um deles poderiam alinhar-se para a final.

Aquele Grande Prêmio despertou grande interesse por parte dos espectadores, pois prometia uma feroz disputa entre Alfa Romeo, Maserati e Bugatti. Essa última havia preparado um novo motor de 2.8 litros, mas o diretor da equipe, Meo Costantini, explicou que a equipe oficial ainda não estava pronta para correr. Assim, apenas os pilotos com Bugattis particulares apareceram. Dentre eles, encontrava-se o conde polonês
Stanislaw Czaykowski.

A primeira bateria teve iníco às 14:00h. Uma breve garoa havia molhado um pouco a pista, mas a mini-corrida aconteceu mesmo assim e foi vencida por Czaikowsky, a uma velocidade de 181,56 km/h. O fato que mudaria a história da corrida aconteceu na sétima volta,quando a Alfa Romeo de Felice de Trossi quebrou um pistão e derramou cerca de 22 kg de óleo na entrada da Curva Sul.  


Guy Moll, que terminou a prova em segundo lugar, passou sobre a mancha de óleo e derrapou. Após a corrida, ele protestou sobre as condições perigosas naquela curva, exigindo que atitudes fossem tomadas. Durante o intervalo entre a primeira e a segunda bateria, a mancha de óleo foi limpa com vassouras e recebeu um revestimento de areia. Somente essas medidas superficiais foram tomadas.

Campari e Borzacchini eram os principais concorrentes da segunda eliminatória. O primeiro competiria com um Alfa Romeo P3, enquanto Borzacchini pilotaria o Maserati no qual Campari venceu o Grande Prêmio da França daquela temporada. Os dois carros tiveram seus freios dianteiros removidos, como era comum em pistas de alta velocidade.

Quando passaram pela Curva Sul, as rodas traseiras de seus bólidos deslizaram sobre a areia, que não deu aderência suficiente (embora algumas fontes digam que eles não chegaram a passar pelo local e o acidente se deu quando tentaram desviar do mesmo). Apesar de sua habilidade, Campari perdeu o controle do carro, o Alfa Romeo derrapou e virou várias vezes. Ele foi morto instantaneamente, esmagado pelo próprio carro.

Giuseppe Campari

Borzacchini, que vinha próximo, pisou no freio, mas também derrapou, passou por cima da borda da pista e seu carro virou. O piloto foi atirado para fora do cockpit, gravemente ferido. Ele ainda foi levado para o hospital, mas morreu logo depois. Castelbarco também derrapou e teve a sorte de sair somente com escoriações. Barbieri, que teve mais tempo para reagir, trouxe seu Alfa para dentro e saiu ileso.

O Maserati de Borzacchini após o acidente

Apesar do acidente gravíssimo, que não pôde ser visto pelo público, a corrida foi continuada, com apenas três carros na pista. Apenas mais tarde, quando Barbieri voltou caminhando de volta aos boxes, a tragédia foi anunciada ao público. Renato Balestrero venceu, seguido por Lelio Pellegrini e pela pilota Hellé Nice. 
 
Depois de muita discussão entre pilotos e organizadores, foi decidido, acreditem, realizar a terceira eliminatória! Com mais de duas horas de atraso, cinco pilotos participaram. Marcel Lehoux, em seu Bugatti T51, venceu após 14 voltas, à frente de Pietro Ghersi, também de Bugatti, e Clemente Biondetti da MB-Speciale.

Para a corrida final, 11 pilotos alinharam no grid. Czaikowsky assumiu a liderança, à frente da Lehoux. Porém, o domingo negro ainda não havia terminado e, na décima volta, o Bugatti do polonês derrapou, passou por cima da borda, virou várias vezes e caiu de cabeça para baixo, prendendo o piloto. O carro pegou fogo imediatamente e apenas o corpo carbonizado do polonês foi recuperado dos destroços. Só então a corrida foi interrompida.  

No momento da paralisação, a ordem era: Lehoux (Bugatti), Moll (Alfa Romeo), Bonetto (Alfa Romeo), Straight (Maserati), Balestrero (Alfa Romeo), Biondetti (Maserati), Ghersi (Alfa Romeo), Cornaggia (Alfa Romeo) e Hellé Nice (Alfa Romeo).  

A revista alemã "Auto, Motor und Sport" escreveu que, para estabelecer a responsabilidade por esses acidentes, a Procuradoria Real de Milão abriu uma investigação. Segundo um inquérito realizado por três peritos, houve uma mudança nas condições da pista durante a corrida, mas a aderência dos carros foi diminuída devido a perdas de óleo e pneus desgastados. As manchas de óleo na Curva Sul foram limpas pela administração e cobertas com areia. Além disso, os gestores haviam solicitado aos pilotos, por escrito, para serem cuidadosos naquele local. Assim, o juiz descartou qualquer responsabilidade por parte dos organizadores da corrida de Monza!

Tazio Nuvolari, um dos maiores pilotos de todos os tempos, havia disputado o GP da Itália e também deveria correr o GP de Monza, ficando de fora devido ao estado ruim de seus pneus. Devido a esta circunstância, ele não esteve envolvido. Tazio ficou profundamente abalado e passou a noite inteira ao lado do corpo de seu amigo Borzacchini.

Em homenagem a Borzacchini, o circuito de Magione, na província de Perugia, próximo de onde ele nasceu, foi renomeado como "Autódromo Mario Umberto Borzacchini". Aqui, cabe uma curiosidade: o nome de batismo de Borzacchini era "Baconino Francesco Domenico". Em 1930, sob o governo de Benito Mussolini, o piloto foi pressionado a correr com um nome italiano (Mario Umberto) porque, ao nascer, seus pais lhe deram o nome de um ativista socialista russo (Mikhail Bakunin).

A tragédia levou ao fim do circuito original de Monza. Várias chicanes foram construídas e o oval foi abandonado, tendo somente a sua parte sul utilizada, em combinação com o circuito misto, até ser demolido em 1939.


Monza após 1933 (wikipedia)


Após o domingo negro, o Grande Prêmio de Monza só retornou em 1948, sendo disputado até 1952. A primeira dessas edições foi uma corrida de Fórmula-1 e as outras de Fórmula-2. Nenhum deles contou para o Campeonato Mundial.
 

Eis algumas cenas da corrida:



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