O ‘mago’ Bernie Ecclestone e a sua ‘obra-prima’

02/05/2013

A F1, de fato, é uma gigante no cenário esportivo. Bilionária e mundial, dentre os passos que a deslocaram do estágio de competição europeia para evento global, muita coisa aconteceu, realmente. Mas vale observar que, nas últimas quatro décadas, a categoria tem tido um dono, uma cabeça, uma orientação, alguém disposto a dizer “sim” ou “não”, peitando quem quer que seja. Esse comandante, apesar de completar 83 anos no próximo mês de outubro, continua em ação. 

Nascido Bernard Charles, Bernie Ecclestone ‘pôs ordem na bagunça’, por assim dizer, e se tornou um dos homens mais poderosos do esporte ao fazer do ‘direito de imagem’ a joia mais preciosa da F1. Os que conseguiram seguir essa linha ou “pularam no barco” em seu curso, deixaram de ser apenas donos de oficinas para brilhar no mundo da indústria como empresários de alta tecnologia.

Por assim dizer, Bernie Ecclestone criou dificuldades para vencer facilidades. Fechou de tal modo o acesso à F1 que elevou o preço da categoria às alturas. Sabedor do potencial que tinha em mãos ou manifestação de arrogância pura (quem sabe?), criou uma estrutura para comercializar tudo o que se referisse à imagem da F1. Ao mesmo tempo, costurou os famosos Acordos de Concórdia para que as equipes tivessem participação financeira maiúscula nisso.

Depois de algumas experiências como piloto e empresário de astros como o austríaco Jochen Rindt, Ecclestone se fixou em definitivo no início de 1972, quando comprou a equipe Brabham, então sob o comando do engenheiro australiano Ron Tauranac (o fundador, Jackie Brabham, havia se retirado da sociedade no início de 1971, dez anos após sua fundação). Sua visão comercial e de administração transformou a Brabham em um time grande e vencedor. 

Já no ano seguinte, colocou nas mãos de um jovem projetista sul-africano, Gordon Murray, a responsabilidade de dar sentido à série BT (Ecclestone manteve a sigla inicial, com B de Brabham e T de Tauranac).

Seu projeto de crescimento, contudo, não cabia numa equipe e já em 1974 tratou de reunir alguns donos de equipes da Inglaterra (Ken Tyrrell; Frank Williams; Colin Chapman, da Lotus; Ted Meyer, da McLaren; e Max Mosley, da March) para fundar a Formula One Constructors Association (FOCA). A ideia era brigar com a FIA, então sob a presidência do belga Amaury de Merode, por uma profissionalização comercial da F1 e da melhor fatia para as equipes. O principal advogado de Ecclestone era Max Mosley, que foi um dos fundadores da extinta March e, posteriormente, presidente da FIA, entre 1993 e 2009. 

A ‘Bíblia Sagrada’ da F1

A ampliação dessa influência deu origem ao primeiro Concorde Agreement (Acordo de Concórdia, visto estar localizada a FIA na 8, Place de La Concorde, Paris, Franca), em 1981, no qual ficou estabelecido que à entidade internacional caberia apenas a condução técnico-desportiva da Fórmula 1. Já à FOCA, com Ecclestone na condição de seu principal dirigente, foi reservada a tarefa de gerir os direitos de televisão. Se já estava interessante, ficou melhor ainda na renovação do acordo, em 1987. Ecclestone não apenas manteve os direitos de TV, como também passou a responder pela promoção total do campeonato. De quebra, assumiu a vice-presidência da FIA, já presidida por Jean-Marie Balestre.

Se enquanto suas mãos recebiam o poder de gerir comercialmente a F1, como chefe de equipe também triunfava, principalmente com os dois títulos mundiais conquistados por Nelson Piquet, em 1981 e 1983. O segundo, aliás, foi em parceria com a BMW. Desde o ano anterior, Ecclestone equipava seus carros com o turbo alemão e a aliança se estendeu até o final a temporada de 1987. O término do acordo — e também com o patrocinador italiano Parmalat — coincidiu com a venda da equipe porque, definitivamente, seu dono não tinha mais tempo para ela.

Até então, sob seu comando, foram dois títulos no Mundial de Pilotos, dois vices no Mundial de Construtores, 22 vitórias e 26 poles. Dentre os pilotos — para citar apenas os brasileiros — figuraram Wilson Fittipaldi, Jr., José Carlos Pace e Nelson Piquet, este último o piloto com mais número de corridas pela Brabham, em toda sua história, com um total de 105 GPs. Sem Ecclestone, a Brabham fechou em 1992. 

De lá para cá, diversas empresas foram criadas para administrar o todo da F1. A FIA passou a se contentar com uma participação nos direitos de televisão da mesma forma que as equipes abriram mão de serem elas as donas desses direitos, passando-os para Ecclestone, em troca de uma fatia majoritária de 47%, montante esse dividido proporcionalmente ao posicionamento no campeonato dos construtores do ano anterior. 

Tanto poder fez dele um dos bilionários do planeta listados pela Forbes (tem fortuna calculada em US$ 3,8 bilhões, algo em torno de R$ 7,6 bilhões), mas também um nome envolvido em escândalos financeiros. 

Não há qualquer dúvida de que um homem de 82 anos, salvo ser um desses indestrutíveis heróis dos quadrinhos, já não tem a mesma energia. Mas também é verdade que Ecclestone tem dado boas risadas quanto o assunto é sua sucessão. Por se tratar de um assunto muito sério e complexo, o meticuloso dirigente já há muito pode estar articulando nesse sentido e não seria surpresa se também nesse particular se mostrasse genial, assim como o foi em sua principal obra.

texto Américo Teixeira Jr. na revista Warm UP ( http://revista.warmup.com.br )

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