Barrichello quase foi para a McLaren em 95

12/07/2013


Os fãs de Rubens Barrichello (ou pelo menos a parcela que se interessa em pesquisar mais a fundo sobre sua carreira) costumam conhecer uma famosa história de que o recordista em GPs disputados na F1 negociou profundamente com a McLaren para se tornar piloto da tradicional equipe inglesa em 1995, deixando a Jordan.

Pois a Biblioteca de Documentos da Indústria do Tabaco, compilada virtualmente no site da Universidade da Calfórnia, nos Estados Unidos, contém alguns documentos relacionados à possível transação, que, por muito pouco, não foi concretizada. É neste acervo que também estão contidos vários detalhes dos contratos de Ayrton Senna e Nelson Piquet com a Lotus, em 87 e 88, já divulgados nos últimos dois dias.

Como todos hão de lembrar, a McLaren ainda era patrocinada pela Marlboro em 94, marca de cigarros vinculada à gigante Philip Morris. Um conjunto de duas cartas trocadas entre dois executivos da empresa, John Hogan (vice-presidente de marketing)* e Peter Schreer (presidente da PM na América Latina)*, de junho daquele ano, evidenciam como as duas partes tinham “interesse significativo” pelos serviços do brasileiro. Por isso, várias conversas chegaram a ser feitas com o chefão do time, Ron Dennis, em relação à sua contratação.

Uma das opções discutidas era tirar Barrichello da Jordan antes mesmo do fim da temporada que vigia, para que ele disputasse “três ou quatro corridas com um carro melhor/mais rápido”, e, assim, fosse testado em sua capacidade de lidar com a pressão de defender uma escuderia grande. Ele entraria no lugar do inglês Martin Brundle, com quem a McLaren vinha firmando acordos corrida a corrida.

Havia um obstáculo para que Barrichello pudesse correr na McLaren ainda em 94: uma taxa de transferência, estimada em US$ 3 milhões, prevista em seu contrato com a Jordan.

Essa possibilidade, inclusive, chegou a ser divulgada pelo comentarista da Rede Globo, Reginaldo Leme, durante o GP do Canadá de 94. O que não havia sido revelado até hoje era o entrave para que essa mudança se concretizasse: na resposta de Schreer à primeira missiva de Hogan, o presidente latino-americano da Philip Morris confirma ter sido informado pelo empresário do piloto à época, Geraldo Rodrigues, que Barrichello estava amarrado em uma “taxa de transferência” de aproximadamente US$ 3 milhões junto à Jordan.

Schreer explica então que, como a equipe e a própria Marlboro tinham dúvidas sobre se valia a pena ou não pagar tamanha quantia por um piloto que ainda não tinha experiência em uma equipe de ponta, Ron Dennis iria fazer, pessoalmente, uma oferta pela liberação antecipada de Barrichello ao chefe do paulistano, Eddie Jordan, tentando reduzir o valor original. Ele chegou até a cogitar um valor: US$ 1 milhão.

O chefão da McLaren, Ron Dennis, se dispôs a negociar pessoalmente com Eddie Jordan um precinho mais camarada pelo passe do brasileiro (Foto: Divulgação)
“Ron vai assumir a liderança [das negociações] com Eddie Jordan, para descobrir se ele aceitaria a ideia, talvez por uma quantia fixa de dinheiro (vamos dizer um milhão). Se der certo, deduziríamos a maior parte deste valor da taxa de transferência. Se não, teremos pago pelos serviços de pilotagem [somente naquele período]. Ele acredita que tem boas chances de convencer Eddie, e vai nos reportar sobre as evoluções nas negociações”, declarou.

O primeiro documento, datado de 6 de junho de 94, também revela a ideia de que a McLaren fundasse um time B na F1, tal qual a Red Bull faz com a Toro Rosso nos dias de hoje. O objetivo seria ajudar na formação de jovens pilotos, tal qual a STR em relação à matriz, bem como desenvolver componentes e tecnologias a serem aproveitadas pela esquadra principal posteriormente. É bem provável que o plano tenha sido abortado devido aos custos, já que era visto de forma entusiástica pelos envolvidos, como uma “forma inovadora de se administrar os negócios na F1″. Confira a tradução completa do conteúdo:

De: John Hogan

Para: Peter Schreer
Assunto: Fórmula 1

 Seguindo nossas conversas nesta tarde, e uma conversa subsequente que tive com John Connor [diretor de promoções da Philip Morris na Europa]*, acho que seria uma boa ideia se os seguintes assuntos fossem discutidos no [GP do] Canadá: 1. É de nosso entendimento que o contrato de Barrichello [com a Jordan] tem uma opção de renovação até setembro, e isso inclui uma soma, na casa de US$ 3 a 4 milhões.
2. Barrichello é de significativo interesse para a McLaren em 1995, mas, naturalmente, eles estão relutantes em gastar uma quantia significativa de dinheiro por uma taxa de transferência, e talvez alguns dos outros patrocinadores de Rubens gostariam de entrar na festa.
3. Eu sugeri a John [Connor] que organize um bom encontro entre você e Ron, para discutir esses pontos.
4. Um outro ponto que você deve querer discutir com Ron é que eu sei que ele está estudando a ideia de criar uma equipe júnior para os jovens pilotos que estão chegando. Você pode conversar com ele sobre isso no contexto de sua ideia do Team Brazil [projeto para implantar um programa de jovens talentos da Marlboro no país].
Atenciosamente,
John Hogan
Veja agora a resposta de Schreer, formalizada em 13 de junho, um dia após ter se reunido com Dennis em Montreal e discutido os temas abordados na primeira carta:

De: Peter Schreer

Para: John Hogan


 Eu gostaria de [me referir ao encontro com Ron] Dennis, Eddie Jordan e Geraldo Rodrigues [durante o fim de semana] em Montreal:
Ron Dennis (McLaren)
- Ele não possui acordo fixo com seu segundo piloto [Martin Brundle] e estaria apto a fazer mudanças durante este campeonato.
- Ron não vê muitas promessas surgindo no novo grupo de pilotos. Entretanto, entre todos, ele consegue enxergar dois que, se bem gerenciados, podem fazer isso. Um é Rubens Barrichello e o outro é um dinamarquês [Jan Magnussen], que atualmente está na F3 (eu entendo que ele é patrocinado pela Marlboro).
- Ele gostaria de ter Rubens na McLaren, porém só depois de testá-lo. Por exemplo, correndo como segundo piloto da McLaren nas últimas três ou quatro corridas desta temporada seria uma boa alternativa. Por conta do estágio de desenvolvimento do conjunto McLaren-Peugeot, este seria um bom ano para dar a chance.
- As razões para o teste são claras. Primeiro, para ver como ele vai se sair em um carro melhor/mais rápido e, segundo, eles [McLaren] (e nós) estamos relutantes em colocar nosso dinheiro numa taxa de transferência (você tem razão, eu confirmei com Geraldo e o valor da multa é de aproximadamente US$ 3 milhões). Concordo plenamente com Ron e compartilho de suas preocupações.
- Ron vai assumir a liderança [nas negociações] com Eddie Jordan, para descobrir se ele aceitaria a ideia, talvez por uma quantia fixa de dinheiro (vamos dizer um milhão). Se der certo, deduziríamos a maior parte deste valor da soma de transferência. Se não, teremos pago pelos serviços de pilotagem [somente naquele período]. Ele acredita que tem boas chances de convencer Eddie, e vai nos reportar sobre as evoluções nas negociações.
- Em relação à equipe “B”, ambos gostamos da ideia, uma “unidade de serviço” comum para os dois times administrados pela McLaren. Seria ótimo para o desenvolvimento de carros e pilotos. Entretanto, temos que nos reunir e discutir isso mais detalhadamente, visto que isso deve implicar um investimento significativo. É, certamente, uma forma inovadora de administrar os negócios na F1, com grande potencial para uma segunda marca.
O resto da história já é público. Dennis e Jordan não entraram em acordo e Barrichello aguardou a expiração de sua opção de renovação com a equipe irlandesa para assinar um pré-contrato com a McLaren, ao final de 94. Depois, sem garantias de que não seria relegado ao papel de segundo piloto, ou mesmo de que iria atuar como titular, o paulista acabou voltando atrás e renovando com sua antiga casa. O próprio Rubens justificou as motivações numa entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, no início de 95. A explicação dele pode ser vista a partir dos 6:15 do vídeo linkado acima.

Ferrari já se interessava por Barrichello em 95


Outro documento encontrado no acervo da UCSF, de 11 de setembro de 1995, mostra como Barrichello também foi cogitado para correr na Ferrari no ano seguinte, o primeiro em que Michael Schumacher esteve na equipe e quatro antes de sua ida efetiva para Maranello (para lê-lo na íntegra, em inglês, basta clicar aqui). Trata-se de uma carta enviada pelo presidente da Philip Morris na região europeia*, Walter Thoma, ao vice-presidente de estratégia de negócios corporativos* da marca, Louis Carnilleri.

Pelo conteúdo da missiva, a escuderia italiana tinha em mente quatro opções de segundo piloto para o alemão na temporada 96: o próprio Rubens, Johnny Herbert (que já dividia a garagem da Benetton com o germânico), David Coulthard e até Nicola Larini (reserva do time em anos anteriores, mas que sequer estava competindo na categoria).

Mesmo não fazendo uma campanha tão vistosa quanto a de 94, Barrichello ainda chamou a atenção da Ferrari, no final de 95, para ser segundo piloto de Schumacher.

Curiosamente, o nome de Eddie Irvine, ex-companheiro de Rubens na Jordan e que acabou por ser o piloto efetivado à função, permanecendo nela de 96 a 99, sequer é citado. Quanto ao brasileiro, ele voltaria a conversar com os italianos em 1999, já na fase da Stewart, e enfim formaria dupla com Schumacher pelas seis campanhas seguintes, acumulando dois vice-campeonatos (2002 e 2004), nove vitórias e 11 pole positions.

O texto também explicita que o primeiro acordo de Schumacher com Maranello valia apenas por duas temporadas, e que o vínculo de patrocínio entre a Marlboro e as duas equipes apoiadas pela marca, Ferrari e McLaren, terminaria ao final de 96, havendo a necessidade de renegociações. No fim das contas, a empresa deixou os ingleses de lado e preferiu investir mais pesado na parceria Schumacher/Ferrari.

McLaren estudava Prost para 96, em “eventos selecionados” ou mesmo na temporada integral


Prost, durante teste com a McLaren em 95, no Estoril: francês se preparava para possível retorno às pistas, como titular da equipe inglesa
Prost, durante teste com a McLaren em 95, no Estoril: francês se preparava para possível retorno às pistas, como titular da equipe inglesa

Surpreendentemente, a carta de Walther Toma também coloca o tetracampeão Alain Prost, retirado das corridas já há quase dois anos naquele momento, como opção para correr na McLaren em 96, junto com Coulthard (que foi quem ficou com a vaga). Conforme explicou o remetente, o francês vinha até testando o modelo MP4-10 ao longo das últimas semanas, para se readaptar ao F1.

Nesse prisma, duas opções foram estudadas pela equipe: na primeira, à qual os dirigentes e patrocinadores se mostravam “relutantes em considerar”, Prost assumiria o comando de um dos dois veículos no campeonato integral, ao lado de Hakkinen; na segunda, o maior vencedor de GPs da época participaria somente de “eventos selecionados”, guiando um terceiro carro da casa. Para isso, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) precisaria alterar seu regulamento, liberando tal prática.

O desfecho deste caso foi que a federação não modificou suas regras e o time optou pela estratégia de segurança, dando o posto de titular a Coulthard. Para Prost, restou aceitar um cargo administrativo e a oportunidade de fazer o shakedown do modelo MP4-11, nos primeiros dias após o seu lançamento.

As negociações para ser titular não vingaram, a FIA não liberou a inscrição de um 3º carro para "eventos selecionados" e tudo o que restou a Prost foi dar umas voltinhas para experimentar o McLaren de 96
As negociações para ser titular não vingaram, a FIA não liberou a inscrição de um 3º carro para “eventos selecionados” e tudo o que restou a Prost foi dar umas voltinhas para experimentar o McLaren de 96 (Foto: Divulgação)

* O cargo mencionado era ocupado pelo respectivo nome na data especifica do documento.

fonte: tazio.uol.com.br

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