Grande Prêmio da Argentina de 1974

13/01/2014

*Texto escrito em 2009, pelos 35 anos deste Grande Prêmio.

Assim como em 2009, a temporada de 1974 começou com o signo da crise. Se hoje são as seguradoras americanas que estão levando terror ao mundo, trinta e cinco anos atrás o problema era o pretróleo, algo que poderia afetar o automobilismo de forma muito mais profunda do que hoje. No entanto, essa crise só determinou o cancelamento do tradicional Rally de Monte Carlo, enquanto hoje, várias montadoras abandonaram o barco em várias categorias. Se hoje há, até agora, nove equipes, em 1974, havia catorze.

Mas havia muitas mudanças entre os times, principalmente nas duas equipes que dominaram o biênio 1972-73. A Tyrrell tinha perdido não apenas o campeão atual, como o futuro campeão. François Cevert faleceu no último treino de Classificação de 1973 e isso fez com que Stewart, campeão em 1973, se retirasse das pistas antes de completar seu centésimo Grande Prêmio. Patrick Depailler, que seria o companheiro de equipe de Cevert, teria a companhia de Jody Scheckter, conhecida por sua impetuosidade selvagem. Na Lotus, Ronnie Peterson seria colocado piloto número um, após a saída de Emerson Fittipaldi. O brasileiro teve alguns problemas na hora de renovar seu contrato e por isso se juntou a McLaren, iniciando uma das grandes parcerias da história da F1. Para trazer Emerson, a McLaren contou com o apoio da Marlboro, que pagaria o salário milionário do campeão de 1972 e pintaria os carros da McLaren de vermelho e branco por 23 anos. Para o lugar de Fittipaldi, viria Jacky Ickx, após vários anos pela Ferrari, contudo, a Lotus vivia um drama. O histórico Lotus 72 já era para estar realmente na história e iniciava sua quinta temporada e os sinais de cansaço eram evidentes.

A Ferrari iniciava 1974 com várias mudanças. Luca di Montezemolo iniciava sua carreira nas corridas e traria de volta Clay Regazzoni para a equipe. Perguntado quem seria um parceiro ideal, Rega indicou seu companheiro de equipe na BRM: Niki Lauda. O austríaco tinha feito uma ótima temporada em 1973, dentro das limitações da sua pequena equipe e com a ajuda de Regazzoni, entrou pela porta de frente na Ferrari. Emerson teria ao seu lado na McLaren o campeão de 1967 Denny Hulme e a terceira McLaren, patrocinada pela Yardley, de Mike "The bike" Hailwood. Peter Revson, que cedeu seu lugar a Fittipaldi, iria para a promissora equipe Shadow, onde correria ao lado do também promissor Jean-Pierre Jarier. Carlos Reutemann permanecia na Brabham e teria ao seu lado, em sua terra natal, o inexpressivo Richard Robarts, enquanto Wilsinho Fittipaldi saía da equipe para iniciar o sonho da equipe Fittipaldi.

Os organizadores argentinos decidiram utilizar o circuito de número 15, mais longo e muito mais rápido. Com várias mudanças em seu line-up, a F1 viu caras novas em diferentes carros. Mas o pole não. Peterson mostrou velocidade em todo o ano de 1973 e não foi diferente na primeira etapa de 1974, conseguido a pole à frente da Ferrari de Regazzoni. Ambos voltavam aos bons tempos. Em sua nova equipe, Emerson mostrava sua velocidade e conseguia um lugar na segunda fila, com o piloto que o substituiu na McLaren, Peter Revson, ao seu lado.

Grid:
1) Peterson (Lotus) - 1:50.78
2) Regazzoni (Ferrari) - 1:50.96
3) Fittipaldi (McLaren) - 1:51.06
4) Revson (Shadow) - 1:51.30
5) Hunt (Hesketh) - 1:51.52
6) Reutemann (Brabham) - 1:51.55
7) Ickx (Lotus) - 1:51.70
8) Lauda (Ferrari) - 1:51.81
9) Hailwood (McLaren) - 1:51.86
10) Hulme (McLaren) - 1:52.06

O dia 13 de janeiro de 1974 começou quente e com muito sol em Buenos Aires, mas isso não impediu que vários torcedores fossem ao Autodromo Oscar Gálvez gritar "Lole", em homenagem a Carlos Reutemann. No circuito número 15, a curva 1 era diferente do circuito nove e isso poderia trazer algumas dificuldades para os pilotos na primeira curva da temporada. Peterson larga bem e permanece em primeiro, enquanto logo atrás de si, uma confusão se iniciava. Hailwood faz uma super-largada e aparece entre os primeiros antes da primeira curva, junto com Hunt, Regazzoni e Revson. O acidente foi inevitável. Regazzoni e Revson rodaram, enquanto Jean-Pierre Jarier, que era companheiro de equipe de Revson, ficou sem ter para onde ir e atingiu... Revson! Ambos estavam fora da prova naquele mesmo local. Mais atrás Watson e Merzario danificaram seus carros, enquanto Scheckter, para evitar maiores problemas foi pela grama. Hunt parecia o grande beneficiado desta confusão, mas acabou desperdiçando essa chance ao rodar e cair para as últimas posições.

Após baixada a poeira, Peterson liderava à frente de Reutemann, Fittipaldi, Hailwood, Ickx e Hulme. O público argentino via com esperança Reutemann em segundo e na segunda volta a torcida foi ao delírio com o argentino assumindo a liderança da corrida. Na volta seguinte, Emerson saiu da pista e após uma rápida olhadinha, o brasileiro voltou ao carro. Ninguém entendeu nada, mas Fittipaldi tinha desligado o seu carro sem querer e estragou completamente sua estréia na McLaren. O próprio brasileiro admitiria mais tarde que este tinha sido o erro mais grave em sua longa carreira. No entanto, a equipe capitaneada por Teddy Meyers não estava fora do jogo e em terceiro já vinha Mike Hailwood, com Hulme logo atrás, com o neo-zelandês ultrapassando o companheiro de equipe três voltas depois. Peterson perdia rendimento com um problema nos freios e na décima volta foi ultrapassado por Hulme, e na seguinte por Ickx, que tinha ultrapassado Hailwood e o inglês era pressionado pela Ferrari de Niki Lauda.

Enquanto tudo isso acontecia, Reutemann permanecia soberado na ponta da corrida, com Denny Hulme num distante segundo lugar. Após deixar Hailwood para trás, Lauda passou a pressionar Ickx na briga pela terceira posição. A batalha durou até a volta 27, quando Ickx entrou nos boxes com um pneu furado, fazendo com que Lauda ficasse num isolado terceiro lugar. Numa grande recuperação após o problema na primeira curva, Regazzoni já aparecia em quarto após ultrapassar Hailwood e Peterson. Vendo a corrida na Casa Rosada, Juan Domingo Perón tem a idéia de ir ao Autodromo entregar pessoalmente o trófeu de vencedor ao grande ídolo argentino Carlos Reutemann. A torcida fica sabendo que Perón estava a caminho do circuito e aumentou ainda mais a festa. Estava tudo preparado, mas como um tango argentino, a história não seria muito feliz.

O asfalto do circuito de Buenos Aires era bastante ondulado e isso fez com que a entrada de ar do Brabham de Reutemann se soltasse. Aos poucos, o problema ia piorando, mas nem Reutemann e muito menos a torcida deu muita bola para isso. Porém, isso traria problemas mais tarde. Como havia diminuído a quantidade de ar entrando no motor, o consumo de combustível aumentou e isso fez com que Reutemann ficasse sem gasolina, de forma cruel, na penúltima volta da corrida. Perón teve que voltar imediatamente do seu helicóptero, enquanto outra pessoa era designada a dar o trófeu de vencedor a Hulme, que se sensibilizava, mesmo na alegria pela vitória, com o sofrimento do povo argentino e de Reutemann. "Essa corrida era de Carlos. Ele merecia vencer".

Chegada:
1) Hulme
2) Lauda
3) Regazzoni
4) Hailwood
5) Beltoise

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