Grande Roberto Pupo Moreno

11/02/2014

Roberto Pupo Moreno, hoje com 52 anos, é praticamente um desconhecido entre os brasileiros, mas para quem gosta de corridas, Moreno é um piloto dos mais completos.

Muitos podem não concordar com minha afirmação por faltar títulos e vitórias ao piloto, que pulava de monoposto em monoposto, entre a Fórmula 1 e a Fórmula Indy entre os anos das décadas de 1980, 1990 e início do novo milênio. Pesa também o fato, da maior parte dos resultados obtidos por ele, principalmente na Fórmula 1, terem sido inexpressivos. O que apenas os amantes do automobilismo sabem, é que o trabalho de Moreno foi de fundamental importância para o desenvolvimento de grandes carros, que anos mais tarde venceram corridas em ambas as categorias, além de em várias oportunidades o piloto ter dado uma sobrevida a equipes pequenas.

Moreno nos boxes da Lotus com um capacete emprestado por Nelson Piquet

Roberto Moreno, como é mais conhecido, pilotou, testou, substituiu pilotos doentes, demitidos e acidentados em mais de vinte anos pelas pistas do mundo. Moreno nunca dispôs de recursos para bancar um lugar em uma equipe de ponta, muito pelo contrário, sempre competiu e treinou em carros pouco competitivos, chegando a tirar literalmente “leite de pedra”. Obteve resultados expressivos com carros que apenas serviam para fechar o grid. Milagre não fazia, mas caso o carro contasse com um motor que pelo menos ligasse, pneus que tivessem um pouco de borracha e alguns litros de gasolina no tanque, Robertão mandava ver!

Amigo desde a infância de Nelson Piquet, sempre teve o apoio do tricampeão da Fórmula 1 na carreira. Ambos nasceram no Rio de Janeiro e mudaram-se com as respectivas famílias para Brasília. Trabalharam na mesma oficina, a Camber, de propriedade do também ex-piloto de Fórmula 1 Alex Dias Ribeiro. Chegaram a formar a dupla da Benetton nas duas últimas provas da temporada de 1990 e, nas onze primeiras provas da temporada de 1991. Na primeira corrida que fez com um carro competitivo até então na carreira, o GP do Japão de 1990 pela Benetton, Moreno obteve o segundo lugar, em prova vencida pelo amigo Nelson Piquet. Em 1991, após um quarto lugar no GP da Bélgica, o piloto foi demitido por Flávio Briatore (o mesmo que acabou com a carreira na Fórmula 1 do Nelsinho Piquet), que contratou um jovem talentoso, conhecido como Michael Schumacher, que contava com os muitos dólares da Mercedes.

Deixo aqui um resumo da carreira mambembe, deste verdadeiro operário da velocidade, como dizia o locutor Téo José, a época em que o piloto corria na Fórmula Indy (Cart), onde se destacou como substituto de pilotos e ficou conhecido pelos estadunidenses como o Supersub.

1976 – Campeão brasileiro de kart, categoria 125 cc.
1979 – Fórmula Ford na Inglaterra – Comprou um carro e com orçamento limitado fez algumas provas, vencendo duas. Foi considerado a revelação do ano.
1980 – Fórmula Ford – Campeão do campeonato Townsend-Thoresen e do festival mundial da categoria, onde competiu contra cerca de 200 pilotos. Vice-campeão europeu da categoria.
1981 – Assina um contrato de “gaveta” para ser piloto de testes da Lotus. Estreia na F3 inglesa apenas na sétima corrida no ano. Dispondo de apenas um mecânico na pequena equipe Barron, vence a quarta prova que disputou em Silverstone. Ao final do ano foi convidado a participar do festival da categoria na Austrália, onde correu contra pilotos da Fórmula 1, entre eles o campeão Nelson Piquet e Alan Jones. Moreno fez a pole, a melhor volta e venceu a corrida com uma volta de vantagem para Nelson Piquet, o segundo colocado. Voltou a vencer a prova nos anos de 1983 e 1984.

Moreno no cockpit da Lotus

1982 – Fórmula 1 - Jhon Player Team Lotus – Tentativa malograda de se classificar para o Grande Prêmio da Holanda, substituindo às pressas o inglês Nigel Mansell. Sem experiência com carros-asa e sem ter um condicionamento físico adequado para a época, Moreno não obteve um bom rendimento. Fez alguns testes pela equipe durante o ano.
Venceu o GP de Macau, no último ano em que a corrida foi disputada por carros da F-Pacific.
1983 – Disputa a F-Atlantic nos Estados Unidos, um degrau antes da Fórmula Indy. Venceu quatro das oito corridas que disputou. Perdeu o campeonato para Michael Andretti em parte por quebras mecânicas e por não ter disputado uma etapa.
Vencedor do festival de F-3 na Austrália.
1984 – Fórmula 2 – Vice-campeão europeu. Disputou as 24 horas de Le Mans.
Vencedor do festival de F-3 na Austrália.
1985 – Fórmula Indy – Galles Kraco Racing – Disputou cinco GPs, marcou dez pontos, vigésimo oitavo colocado na temporada.

Moreno competindo pela Galles

1986 – Fórmula Indy – Galles Kraco Racing – Disputou toda a temporada, marcou trinta pontos, décimo sexto colocado no campeonato.
1987 – F-3000 – Terceiro colocado no campeonato europeu.
Fórmula 1 – AGS – Disputou as duas últimas corridas da temporada, marcou um ponto na Austrália, o que deu a equipe uma preciosa ajuda de 400 mil dólares para transporte da FOCA, por ficar desta forma entre as que pontuaram no campeonato. Vigésimo primeiro colocado no campeonato com este ponto.

Pilotando o carro da AGS

1988 – F-3000 - Moreno é preterido na equipe AGS de F-1, apesar do ponto conquistado que salvou as finanças da equipe, a imposição do patrocinador principal do time por Philippe Streiff falou mais alto. Avisado quase que no dia da temporada começar, Moreno resolve fazer mais uma temporada na F-3000 europeia, o último degrau antes da Fórmula 1. Correu somente com o apoio do engenheiro Gary Anderson, garantindo a participação na próxima corrida com o prêmio pela vitória na corrida anterior. Desta forma o piloto conquista de forma consagradora e heroica o título da F-3000, o primeiro de um brasileiro na categoria.
Rodou cerca de quinze mil quilômetros pela equipe Ferrari neste ano, para desenvolver o câmbio semiautomático, do qual a equipe introduziu na categoria em 1989.

Em 1988, fazendo testes pela Ferrari

1989 – Fórmula 1 – Coloni - Inscrito nos dezesseis GPs do ano, obteve classificação em apenas quatro corridas, não terminando nenhuma delas, nenhum ponto marcado. O carro da equipe era o mais pesado do grid.

Maus momentos na fraca Coloni

1990 – Fórmula 1 - EuroBrun – Tentativa de se classificar em quatorze GPs, conseguindo em apenas dois. Foi boicotado pela própria equipe que, não queria investir no carro o dinheiro recebido pelos investidores, em um escândalo que explodiu antes do GP da Espanha. Ganhou a vaga na Benetton que era de Alessandro Nanini, que sofreu um acidente de helicóptero. Moreno correu as duas últimas provas do ano, obtendo o segundo lugar logo na estreia pela equipe no GP do Japão. Seis pontos no ano, décimo primeiro colocado no campeonato.

O melhor momento de Roberto Moreno na F1, o segundo lugar no GP do Japão de 1990, na primeira prova pela equipe Benetton, ao lado do amigo e companheiro de time, Nelson Piquet, vencedor da prova.

1991 – Fórmula 1 – Correu as onze primeiras provas pela Benetton, disputou depois mais duas corridas pela Jordan e o último GP da temporada pela Minardi. Marcou oito pontos, décimo colocado no campeonato.
1992 – Fórmula 1 - Andrea Moda – Tentativa de se classificar em nove GPs em um carro que não tinha sido acabado, obteve êxito em apenas em Mônaco, do qual abandonou. Sem classificação na temporada.

O precário bólido da Andrea Moda em 1992

1993 – Disputa o europeu de turismo pela Alfa Romeo, enquanto se recupera de uma cirurgia.
1995 – Fórmula 1 - Forti Corse – Disputou as dezesseis etapas da temporada, não se classificou para o GP da Argentina. O melhor resultado foi um décimo quarto lugar no GP da Bélgica. Não obteve classificação na temporada.

A lanterna de 1995 Forti Corse, a última experiência de Moreno com a Fórmula 1

1996 – Fórmula Indy (Cart) – Payton-Coyne – Disputou toda a temporada. Alcançou o terceiro lugar na US500 em Michigan, o melhor resultado da história da pequena equipe. Marcou vinte e cinco pontos, vigésimo primeiro colocado no campeonato.
1997 – Fórmula Indy (Cart) – Disputou nove provas substituindo pilotos nas equipes Newman-Haas (6 GPs), Bettenhausen (2 GPs) e Payton-Coyne (1 GP). Neste ano ele era o piloto oficial da Payton-Coyne. Após a estreia em Homestead, primeira prova do ano, Moreno percebeu que tinha em mãos um carro indirigível, terminou a corrida fisicamente e mentalmente esgotado, resolveu então deixar o time. Marcou dezesseis pontos, décimo nono colocado no campeonato.
1998 – Fórmula Indy (Cart) – Disputou três provas substituindo pilotos nas equipes Project Indy (2 GPs) e Newman-Haas (1 GP). Não obteve pontos e classificação no campeonato.

O "Super-Sub" em ação pela Newman-Haas

1999 – Fórmula Indy (Cart) – Disputou treze provas substituindo pilotos nas equipes Pac-West (8 GPs) e Newman-Haas (5 GPs). Marcou cinquenta e oito pontos e, obteve o décimo quarto lugar no campeonato. No último GP da temporada, Moreno foi chamado para substituir o piloto Greg Moore, que tinha machucado a mão em um pequeno acidente de moto. Já de capacete e macacão, recebeu a notícia que o piloto oficial do time iria correr a prova mesmo com o ferimento. Greg Moore sofreu um acidente fatal na corrida.
2000 – Fórmula Indy (Cart) – Patrick – Disputou toda a temporada. Venceu uma prova, marcou cento e quarenta e sete pontos, chegou a liderar o campeonato e obteve o terceiro lugar na temporada.
2001 – Fórmula Indy (Cart) – Patrick – Disputou toda a temporada. Venceu uma prova, marcou setenta e seis pontos e, obteve o décimo terceiro lugar no campeonato.
2003 – Fórmula Indy (Cart) – Herdez – Disputou toda a temporada. Marcou sessenta e sete pontos e, foi o décimo terceiro colocado no campeonato.
2007 – Fórmula Indy (IRL) – Disputou apenas uma prova na equipe Pacific Coast, marcou nove pontos e ficou em vigésimo segundo lugar no campeonato.

Roberto Pupo Moreno esteve inscrito em setenta e cinco GPs de F1, obtendo classificação para largar em quarenta e duas oportunidades, terminando dezoito corridas.

Outro fato curioso do piloto, é que nas duas temporadas em que teve um carro para disputar uma temporada completa sem ficar de fora do grid, ele formou dupla com pilotos brasileiros, no final de 1990 e 1991 na Benetton com Nelson Piquet (Moreno foi demitido antes do final da temporada) e, 1995 na Forti Corse com Pedro Paulo Diniz.

Além da Fórmula 1 e Indy, o piloto correu também na ALMS, Turismo Europeu, Stock Car Brasil e, com qualquer carro que possua pelo menos quatro rodas e um motor...Em qualquer equipe que tivesse pelo menos um mecânico...

Daniel Gimenes
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