GP do Brasil de 1999

15/07/2014

BOM, ENQUANTO DUROU
Barrichello lidera 23 voltas em Interlagos, mas sua corrida
 acaba numa nuvem de fumaça, com o motor quebrado:
Por Reginaldo Leme
Temporada Dados do GP
Durante 23 voltas, o público em Interlagos lembrou os melhores momentos do Brasil na Fórmula 1. Liderando a segunda etapa do Mundial, Rubens Barrichello fazia uma daquelas corridas de encher os olhos, à frente da Ferrari, da McLaren, de todo mundo. Ele não venceria a prova. Com uma estratégia de dois pit stops, só chegaria à frente de Mika Hakkinen e Michael Schumacher se os adversários quebrassem. Mas não tinha importância. O que os torcedores queriam era levantar nas arquibancadas, agitar seus bonés, vibrar com o brasileiro da pequenina Stewart. O pódio, pelo menos, parecia uma certeza. Não foi. O domingo paulistano de Barrichello terminou numa nuvem de fumaça saindo da traseira de seu carro, com o motor Ford estourado na 43ª volta, na entrada da reta dos boxes. Ele estava em terceiro. Rubinho saiu do cockpit, tirou o capacete, colocou a mão no bolso esquerdo de seu macacão e dele tirou uma bandeira do Brasil dobrada, a bandeira que ele queria levar ao pódio depois das 72 voltas da prova, que afinal foi vencida por Hakkinen, com Schumacher em segundo. No lugar que seria dele, Heinz-Harald Frentzen, da Jordan. No caminho de volta aos boxes, Barrichello foi aplaudido e chorou. “Foi bom enquanto durou", disse. “O legal é que a sensação de liderar a corrida não foi muito diferente, nos tempos de Fórmula 3 eu liderava corridas, me senti em casa, onde eu acho que devia estar. O importante é que a gente provou que pode vencer corridas, a gente vai vencer.” Barrichello foi o grande nome do GP do Brasil. Tanto que naquele fim de semana percebeu que talvez fosse o momento ideal para começar a arranjar seu futuro e foi à luta. Encontrou-se com o diretor da Ferrari Jean Todt, na pista, e perguntou se poderia telefonar para seu hotel. Começavam ali as negociações com o time de Maranello. Rubinho já sabia que Eddie Irvine estava de saída. Tinha informações da própria Stewart, que também acabaria assinando com o irlandês. Apesar da tristeza geral nas arquibancada, pois do abandono de Rubinho, não foi o domingo o dia mais emocionante do fim de semana de Interlagos. No sábado, o público tem momentos de tensão e alegria em doses cavalares. Pela manhã, nos treinos livres, Ricardo Zonta bateu seu BAR na subida do Laranjinha e se machucou com gravidade. Rompeu oito tendões e quebrou três ossos do pé esquerdo, ficando afastado das pistas por dois meses. Foi operado no mesmo dia, e seria substituído nas corridas seguintes por Mika Salo. A tarde, a apreensão do público com o estado de Ricardo deu lugar à euforia quando Rubinho roubou o terceiro lugar no grid de Schumacher, com a volta que definiu como a melhor de sua vida. O autódromo ficou de pé e Barrichello chorou de felicidade. Na primeira fila, nenhuma surpresa: os dois carros da McLaren, com Hakkinen na pole.
Até a corrida de Interlagos, Rubinho só havia liderado quatro voltas em seus quase sete anos de F-1 — no Estoril em 94 e em Monza em 95. O Brasil não liderava um GP, portanto, havia três anos e sete meses. A frustração do abandono se estendeu pelo autódromo e milhares de pessoas resolveram ir embora antes do fim da prova. "Eu podia sentir a torcida vibrando, por isso é muito triste ter que abandonar desse jeito”, falou Barrichello. A vitória de Hakkinen era esperada, assim como o segundo lugar de Schumacher. O outro carro da McLaren só não apareceu na frente porque David Coulthard empacou na largada e depois abandonou com o câmbio quebrado. Fecharam a zona de pontos, num GP que teve apenas nove carros chegando ao final, Ralf Schumacher, da Williams. Barrichello assumiu a liderança do GP brasileiro na quinta volta, quando Mika, então o líder, teve um problema no engate das marchas e perdeu duas posições. Até a primeira de suas duas paradas previstas, Rubinho segurou Schumacher guiando de maneira impecável. Na volta do pit stop, ele ainda faria uma ultrapassagem memorável sobre a outra Ferrari, de Irvine. A irmã de Ayrton Senna, Viviane, foi a escolhida pela organização para entregar o prêmio ao vencedor do GP do Brasil. Hakkinen recebeu dela a bandeja de prata no pódio e lhe deu um um banho de champanhe. Vestida de branco, Viviane não entrava num autódromo desde a morte do irmão, em 94. “E muito emocionante para mim estar aqui”, disse. “Mas é muito bom também, porque todas as pessoas na F-1 são muito carinhosas e amigas.”
A vitória de Mika não foi das mais tranquilas. Ao contrário, o finlandês chegou a desistir no início, quando suas marchas sumiram na entrada da Reta Oposta. Ele acionou o rádio e avisou a equipe: “Estou fora, acabou!”. Do outro lado da linha, ouviu berros. “Continua, continua!”, gritou seu engenheiro de pista, que não notara nada de errado na telemetria. Ele continuou e o câmbio voltou a funcionar. Mas tinha perdido duas posições, para Rubinho e Schumacher. Retomando o ritmo normal de prova, Hakkinen partiu para a perseguição ao alemão e ficou atrás dele até a 37ª volta, quando Michaei fez seu pit stop. Ele iria para os boxes quatro voltas depois e aproveitou a pista livre à frente para acelerar mais e ganhar uma vantagem que lhe permitisse voltar da parada na liderança. Funcionou tudo como um relógio. Até seu pit stop foi melhor que o de Schumacher. Ele gastou 30s983 em todo o processo, da entrada à saída dos boxes, contra 32s552 do alemão. Aí foi só tomar cuidado para não cometer erros e levar o carro até a bandeirada final. “Eu poderia até andar mais rápido, mas peguei muito tráfego quando o Michael foi para os boxes. Na verdade, tinha alguma sobra no carro”, disse o finlandês.
O FIM DE SEMANA
O SUSTO DE FRENTZEN
Foi um susto danado. Na última volta, a gasolina do carro de Frentzen acabou. O motor apagou e ele parou no meio da pista. Saiu do cockpit desolado, tirou o capacete e estava próximo de esmurrar seu Jordan quando soube que tinha terminado em terceiro lugar. "Minha primeira impressão era de que tinha perdido o pódio. Mas depois percebi que não tinha ninguém atrás de mim na mesma volta e a equipe me avisou que eu ainda estava em terceiro", contou o alemão, aliviado.

FIM DAS ASAS FLEXÍVEIS
Nos testes de pré-temporada, um tipo de acidente se repetiu de maneira preocupante: asas traseiras voando sem aviso prévio. A FIA descobriu que muita gente estava usando um material flexível para que os aerofólios "deitassem" nas retas, melhorando a aerodinâmica. O problema é que eles pressionavam a base, que quebrava com facilidade. Em Interlagos, todas foram fiscalizadas e os acidentes não aconteceram mais.

FORMULA 1, 50 ANOS
Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Viviane Senna participaram do desfile dos pilotos antes da corrida, num caminhão. Os três, antes da corrida, receberam capacetes comemorativos que a FIA iria distribuir a todos os campeões dos 50 anos de história da categoria. O artista Sid Mosca, que pinta nove em cada dez capacetes de pilotos brasileiros, fez o desenho e foi o responsável pela produção de todos eles. A FIA usou durante a temporada um logotipo oficial para marcar o meio século da Fórmula 1.

O CAPACETE DE RUBINHO
Barrichello apareceu em Interlagos com um novo visual em seu capacete. As partes brancas foram substituídas por uma pintura espelhada, moda lançada na Indy por Paul Tracy que pegou na F-1 - Alesi e Schumacher andaram fazendo algo parecido.

"Sempre reservo alguma coisinha diferente para o Brasil", falou Rubinho, que voltaria a usar o "casco" no Japão.

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