GP da Austrália de 1999

15/07/2014

O SOBREVIVENTE
Hakkinen e Coulthard quebram, Schumacher dá azar e Irvine vence a primeira corrida de sua carreira:
Parecia que 99 ia começar como terminou 98: com a McLaren passeando e o resto correndo atrás. Foi o que o time inglês deu a entender ao fazer a primeira pole do ano, em Melbourne, com Mika Hakkinen 1s319 à frente de Michael Schumacher, da Ferrari. “É bem mais do que eu imaginava”, suspirou o alemão, antevendo que teria mais um ano duro pela frente. O GP da Austrália, prova de abertura do Mundial, estava cheio de atrações: a estreia da BAR, a volta de Zanardi, o monopólio da Bridgestone, os novos pneus com quatro sulcos na frente, a perspectiva, para os brasileiros, da melhor temporada na era pós-Senna... Mas assim que os motores roncaram, passou a valer mesmo a disputa de gato e rato entre McLaren e Ferrari. Só que o time prateado acabou derrapando em Melbourne. A equipe inglesa, que apavorou a concorrência em todos os treinos, acabou o GP da Austrália com seus dois carros quebrados e só não voltou para casa lamentando um prejuízo maior porque Schumacher concentrou em uma só corrida todo o azar que poderia ter na temporada inteira. E sobrou para Eddie Irvine, que venceu pela primeira vez na F-1. Ninguém apostaria um dólar australiano no resultado da prova inaugural da temporada. É certo que foi uma corrida de sobreviventes. Apenas oito dos 22 carros que largaram chegaram ao final. Entre eles o de Rubens Barrichello, que terminou em quinto e, mesmo assim, saiu de Melbourne com a sensação de que perdeu a maior chance de sua vida de vencer um GP. Rubinho dividiu com Schumacher o troféu de azarado do dia. Quarto no grid, o brasileiro viu seu carro pegar fogo quando alinhou para a largada — o de seu companheiro Johnny Herbert, teve o mesmo problema. O procedimento foi abortado e Barrichello teve de largar dos boxes com o carro-reserva. Na segunda volta de apresentação, quem empacou foi Schumacher, sendo jogado para o final do grid. O pessoal da McLaren ria sozinho.
E parecia que os prateados iriam mesmo terminar os dia às gargalhadas, já que, quando a corrida finalmente começou, Hakkinen e David Coulthard dispararam na frente, abrindo mais de 17s de vantagem para Irvine, o terceiro colocado, em 13 voltas. Então, de uma tacada só, começaram seus problemas. Primeiro foi Coulthard que, de repente, estacionou o carro nos boxes. Pane hidráulica, alegou a equipe. Na 14ª volta, Jacques Villeneuve bateu e a direção de prova colocou o safety-car na pista para que os destroços de seu BAR fossem removidos. Na relargada, duas voltas depois, quem ficou foi Mika, com problemas no acelerador. Com o quebra-quebra, Schumacher e Barrichello, que vinham babando lá de trás, já estavam em quinto e sétimo. Na 21ª volta, quem bateu foi Zanardi. Nova entrada do safety-car, nova relargada, e nessa Rubinho acabou passando Schumacher sob bandeira amarela, tendo de pagar um stop and go de dez segundos. Antes, em seu primeiro pit stop, o brasileiro tivera um reabastecimento insuficiente, o que acabou por alterar a estratégia inicial de apenas uma parada. No fim, esteve três vezes nos boxes. Já Schumacher, que graças ao safety-car chegou a andar em quarto, a menos de dois segundos do líder, ainda teria um pneu furado e um pit stop extra para trocar o volante. Enquanto lá atrás a turma quebrava ou batia, Irvine imprimia um ritmo forte na liderança, mesmo tendo largado com pneus macios e com tática de um pit stop. 
Apesar da pouca distância para Heinz-Harald Frentzen, Eddie não foi ameaçado seriamente. Levou seu carro sem sustos até o final, à frente do piloto da Jordan e de Ralf Schumacher, da Williams, que terminou em terceiro. O quarto foi Giancarlo Fisichella, da Benetton. Depois de Rubinho chegou o estreante Pedro de La Rosa, da Arrows, outra zebra do tamanho do mundo. Assim, sem McLaren na pista e com a Ferrari “errada” na ponta, terminou o GP australiano. Irvine, feliz da vida, comemorou com uma garrafa de champanhe gentilmente enviada pela McLaren aos boxes da Ferrari. Líder do campeonato, recusou-se a fazer planos para o futuro. “Tenho de perguntar ao Jean Todt o que eu posso fazer agora”, brincou Eddie, que chegou ao degrau mais alto do pódio depois de 82 GPs. A quebra dupla da McLaren deixou a equipe preocupada e refletindo se não teria sido melhor correr em Melbourne com o carro de 98, idéia que chegou a ser cogitada. No fim, prevaleceu a impressão de que o novo carro aguentaria o tranco, reforçada pelo desempenho nos treinos. “Conseguimos completar pouco mais de um terço da corrida. Agora é nossa obrigação combinar a performance dos treinos com a resistência necessária para pelo menos chegar ao fim de um GP”, falou Norbert Haug, diretor-esportivo da Mercedes. Já Schumacher, que não aproveitou os infortúnios dos maiores rivais, estava conformado. “Eddie mereceu ganhar sua primeira corrida, depois de tantos anos de trabalho duro. Quanto a mim, tive problemas inesperados, como o câmbio entrar em neutro nas curvas. Claro que não estou feliz, mas pelo menos nós dois terminamos a corrida, o que já é um começo melhor que o do ano passado." Para os brasileiros, foi o dia do quase. Rubinho quase ganhou. Diniz quase pontuou, Zonta quase terminou. Os três não sabiam direito se comemoravam desempenhos acima da média ou se socavam seus carros, que os deixaram na mão. “Eu tive vários problemas”, contou Rubinho. “Na largada meu carro pegou fogo porque vazou óleo no escapamento. Depois, no meu primeiro pit stop, entraram só dez litros de gasolina. E, por fim, fui penalizado. Hoje eu tive a primeira chance de ganhar uma corrida com um carro competitivo. Estou contente pelos dois pontos, mas em termos. A gente não pode perder chances como essa.”
O FIM DE SEMANA
DE LA ROSA ESTREIA BEM
O melhor estreante do fim de semana acabou sendo o discreto Pedro de La Rosa. Com um Arrows modelo 98, chegou em sexto. "Nem acredito", disse o espanhol. A equipe também terminou a prova com seu outro piloto, Tora Takagi, em sétimo. Foi a maior zebra do GP australiano. A Arrows, depois da prova de Melbourne, não faria mais nenhum ponto no campeonato.
ABORÍGENES NA BENETTON
Por ser propriedade de uma confecção italiana, a Benetton é a equipe que submete seus pilotos aos maiores micos da temporada, para fazer fotos publicitárias. Na Austrália, Físichella e Wurz foram obrigados a posar com pinturas aborígenes no rosto. Isso aconteceu na quinta-feira, véspera dos primeiros treinos em Melbourne.
BAR FICA NA PROMESSA
A BAR, que prometia até uma vitória na estreia, não terminou a prova com seus dois carros. O motivo maior de preocupação foi o acidente com Villeneuve. Ele estava em oitavo quando sua asa traseira soltou. Jacques rodou e bateu no muro. Nos testes de Jerez, já havia acontecido a mesma coisa. "O carro estava bom", disse o canadense. “Na segunda metade daria para alcançar os carros à minha frente e a corrida era muito promissora." Zonta também abandonou, depois de andar algumas voltas na zona de pontos.
ALGUNS NÚMEROS
Em Melbourne, Damon Hill completou o 100º GP de sua carreira. Tentou, aliás. Logo na primeira volta, o inglês da Jordan foi acertado por trás por Jarno Trulli, da Prost. Na corrida número 100, zero volta completada e zero ponto no bolso. Ainda para quem gosta de cifras: na volta 27, os três brasileiros ficaram na zona de pontos ao mesmo tempo: Diniz (Sauber) em quarto, Barrichello (Stewart) em quinto e Zonta (BAR) em sexto. No final, só Rubinho terminou, marcando dois pontos pela quinta colocação.


Por Reginaldo Leme

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