GP da Áustria de 1999

18/07/2014

É ELE MESMO?
Irvine foi tão bem em Zeltweg, que chegaram a achar que o
 espírito de Schumacher tinha baixo no irlandês:
Por Reginaldo Leme
Se trocassem o capacete, ninguém diria que era Eddie Irvine ao volante da Ferrari em Zeltweg. O irlandês incorporou o espírito de Michael Schumacher, que estava fora de combate, fez uma corrida sem erros, cumpriu à risca a estratégia estabelecida pela equipe e venceu o GP da Áustria, colocando fogo na disputa pelo título de 99. O resultado foi uma enorme surpresa. Mas deve-se ponderar que foi determinado por uma das maiores burrices coletivas de que se tem notícia na história da categoria. A McLaren deu a vitória a Irvine logo na primeira volta. David Coulthard tentou ultrapassar Mika Hakkinen na segunda curva, errou a freada, bateu no finlandês e o atirou para o último lugar. Para se ter uma idéia de como Mika poderia ganhar o GP austríaco com um pé nas costas, basta olhar sua classificação final: terceiro lugar, a 22s282 de Irvine. Nas 71 voltas da prova, passou quem encontrou pela frente, com exceção dos dois primeiros colocados. De quebra, fez a melhor volta da corrida, mostrando que tinha o carro mais rápido de todos e que, se não fosse David — que assumiu o erro sozinho —, estaria comemorando a liderança folgada do campeonato. Só que Irvine não tinha nada com isso e, no momento em que os dois pilotos da McLaren se enroscaram, aproveitou para consolidar aquilo que a Ferrari tem de melhor, a precisão de suas táticas mirabolantes que, com Schumacher, funcionavam à perfeição. Em Zeltweg, a idéia era retardar ao máximo a única parada de Eddie, para que ele tivesse, pouco antes do pit stop e na parte final da prova, um carro mais leve e veloz que a concorrência. Michael vivia fazendo isso. Irvine aprendeu direitinho.
O irlandês fez seu pit stop na 44ª volta, com 62% da distância total da prova percorrida. Coulthard havia parado na 39ª. Hakkinen, na 40ª. A estratégia foi impecável. Irvine não só voltou dos boxes à frente de David, como também de Rubens Barrichello, que era o segundo colocado ate a volta 38, quando fez sua parada. No início, Eddie chegou a ser ultrapassado por Rubinho. Quando Coulthard e Hakkinen se tocaram, ele teve de tirar o pé e o brasileiro ganhou a posição. Daí até o momento de trocar pneus e reabastecer, foi uma questão de não permitir que Barrichello abrisse uma grande vantagem, para descontar nas voltas anteriores ao pit stop e no trabalho de box da Ferrari, sempre muito rápido. Eddie gastou 26s545 parado, contra 28s174 de Coulthard e 30s620 de Rubinho. No final da corrida, Coulthard se aproximou, reduzindo uma diferença de 3s9 na 54ª volta para 0s3 na bandeirada. Irvine explicou que teve problemas de freio, consumo e equilíbrio do carro ao longo da corrida, mas nas últimas voltas precisou esquecer tudo para defender a posição. Fecharam a zona de pontos Heinz-Harald Frentzen (Jordan), Alexander Wurz (Benetton) e Pedro Paulo Diniz (Sauber). Barrichello estourou o motor quando estava em quarto lugar, a 16 voltas do fim.
A corrida já havia terminado fazia uma hora, quando Irvine foi arrastado para o fundo dos boxes da Ferrari. Entre dois caminhões da equipe, todos os integrantes o esperavam para festejar a vitória. Ele atirou-se aos braços de seus mecânicos. Cerca de 100 ferraristas se juntaram para uma foto histórica. E todos gritavam “Eddie! Eddie! Eddie!”. Todos menos um. Jean Todt, o baixinho francês que dirige o departamento esportivo da equipe, apareceu na fotografia. Sentado no chão, à direita de Irvine. Não demonstrava felicidade alguma, embora procurasse sorrir. Assim que os fotógrafos registraram a cena, deu um tapinha por trás da perna de Irvine, levantou-se e foi embora. O piloto nem notou. Antes, na bandeirada, uma imagem de Todt no “pit-wall” já denunciava o desgaste de relacionamento entre os dois. Enquanto todo mundo pulava e gritava, ele se mantinha em silêncio. Não comemorou a vitória. Não subiu ao pódio para receber o troféu em nome da equipe, como sempre fez.“ Eu já tinha decidido em Mônaco que a partir dali os engenheiros é que iriam receber a taça”, justificou. Para consumo externo, no comunicado oficial da Ferrari, Todt disse que o resultado foi “uma resposta da equipe e de Eddie” à situação em que a Ferrari se encontrava. “Dissemos que não iríamos desistir e provamos que não desistimos. Os fatos falam mais do que palavras”, declarou. Instalado numa poltrona em casa perto de Genebra, na Suíça, Schumacher comemorou a vitória da Ferrari e disse que estava muito contente “pela equipe e por Eddie”. O irlandês foi a 42 pontos no campeonato, contra 44 de Hakkinen. Para quem dois dias antes era massacrado pela mídia por ter tomado um segundo de Mika no treino de classificação, nada mal. Na McLaren, Coulthard sentia-se o mais desgraçado dos homens, apesar do segundo lugar. O escocês tentou uma manobra que se converteu num desastre para seu time logo na segunda curva, na primeira volta, para passar Hakkinen por dentro. “Errei completamente meu julgamento. Quando vi que ele ia fazer a curva e eu não ia conseguir parar, foi como um pesadelo. Um desastre. Lamento muito por ele”, disse David. Mika procurou não esticar o assunto. “O que aconteceu não é importante agora”, resmungou.
O FIM DE SEMANA
OVELHAS FASHION
A Benetton pode não ter feito muita coisa na corrida, mas deu trabalho a seus pilotos, como sempre, nas sessões de fotos para editoriais de moda. Levou Fisichella e Wurz ao campo e fez os dois posarem com ovelhinhas fashion, todas coloridas. Alexander, pelo menos, conseguiu um quinto lugar na prova de seu país. Giancarlo ficou contando carneirinhos.
ESTREIA DISCRETA
Mika Salo mal foi notado em sua estréia como substituto de Schumacher na Ferrari. Logo na primeira volta, bateu em Herbert, teve de trocar o bico e só chegou em nono, uma volta atrás de Irvine. "Faltava velocidade nas retas e eu não conseguia ultrapassar ninguém", queixou-se o finlandês. E o prêmio de perseverança do dia foi entregue a Herbert, da Stewart. Ele ficou quatro voltas nos boxes para reparar o estrago feito por Salo. Pelo menos fez a segunda melhor volta da prova, quando retornou à pista.
DINIZ DUELA COM RALF
Com o carro mais leve que os concorrentes, Pedro Paulo Diniz conseguiu ótimas ultrapassagens em Zeltweg, a melhor delas sobre Ralf Schumacher, da Williams, logo no início. "Ele me jogou na grama duas vezes, foi uma disputa meio quente... Depois acabou rodando quando tentou me passar de novo", contou o brasileiro da Sauber, que terminou em sexto lugar.
GREVE DE SILÊNCIO
Com tanto diz-que-diz sobre sua contratação pela Ferrari, Rubens Barrichello adotou na Áustria o que chamou de "greve de silêncio”. Não iria mais falar sobre o assunto porque, segundo ele, os boatos estavam atrapalhando as negociações. Depois da prova, o piloto saiu irritado do autódromo, mas por outro motivo: seu motor quebrou e ele perdeu a chance de chegar em quarto lugar. "Estamos desperdiçando pontos importantíssimos", reclamou. Foi a segunda quebra do motor Ford em seu carro na temporada.

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