GP da Europa de 1999

23/07/2014

DE PERNAS PARA O AR
Aconteceu de tudo em Nurburgring: Frentzen na pole, vitória de Herbert, Trulli no pódio e Diniz de cabeça para baixo:
Por Reginaldo Leme
Temporada Dados do GP
Não houve GP mais maluco que o da Europa em 99. Nürburgring concentrou tudo que poderia acontecer de surpreendente numa corrida. Desde a definição da pole de Frentzen, passando pelo dramático acidente de Diniz, até a vitória inédita da Stewart, com Herbert, a antepenúltima etapa do Mundial foi daquelas inesquecíveis, que desafiam a lógica. E era a chuva, sempre ela, que o torcedor tinha de agradecer. Já no sábado, a classificação foi de enlouquecer. Na prática, o treino que definiu o grid durou menos que quatro minutos. Nesse período, os 22 pilotos fizeram os tempos que determinaram suas posições de largada. O melhor foi Frentzen, da Jordan, que cravou 1min19s910 em sua volta mais rápida e fez a segunda pole de sua carreira. A chuva ajudou a transformar a sessão numa loteria de resultados imprevisíveis. Heinz-Harald teve sangue-frio suficiente para lidar com as condições da pista do jeito mais eficiente. O asfalto estava molhado no início da sessão, graças a uma chuva de 40 minutos entre o treino livre e a classificação. Nos minutos finais, Frentzen botou gasolina para sete voltas rápidas, acreditando que o asfalto iria secar cada vez mais. Deu cinco, voltou para os boxes, fez um verdadeiro pit stop de corrida, colocando um jogo de pneus novos, e fez a volta da pole quando faltavam 14 segundos para o fim do treino. Os últimos três minutos foram frenéticos. A pole mudou de mãos cinco vezes, passando por Damon Hill, Ralf Schumacher, Mika Hakkinen e David Coulthard, antes de cair no cockpit amarelo de Frentzen. Para a McLaren, o resultado não chegou a ser um desastre. Mika largaria em terceiro e David, em segundo. A Ferrari foi a grande derrotada do sábado. Irvine cometeu um erro em sua última volta rápida e despencou para nono no grid. Nove pilotos diferentes, em algum momento, estiveram com a pole. A mais duradoura foi a de Rubens Barrichello, que ficou na frente por 27 minutos — mas quando a pista secou, dançou, e ele largou apenas em 15°, sua pior posição no ano. E o domingo acabou sendo o “dia dos nanicos”, aquele em que os grandes favoritos sucumbiram à chuva e deram oportunidade a pilotos de equipes pequenas de preencherem o pódio mais inesperado dos últimos anos. Herbert foi o vencedor. Atrás, chegou Jarno Trulli, da Prost. Depois, Barrichello. De quebra, Marc Gené ainda apareceu em sexto com a Minardi. Antes dele, dois carros “grandes", o Williams de Ralf em quarto e o McLaren de Hakkinen em quinto.
A corrida alemã, cujo maior atrativo seria a quádrupla pelo título mundial de 99, entrou para a história como palco da primeira vitória da Stewart e do terceiro triunfo da carreira de Herbert, que havia vencido duas vezes em 95, pela Benetton. Os postulantes à taça fracassaram. Só Hakkinen pontuou, assumindo a liderança isolada do campeonato. Irvine terminou em sétimo e ficou dois pontos atrás do finlandês. Frentzen abandonou com problemas elétricos e permaneceu com 50. Coulthard fez mais uma das suas, errou quando liderava a prova e bateu, mantendo os 48. O GP da Europa teve cinco líderes diferentes e uma espécie de “maldição da ponta” alijou quatro deles da corrida. Frentzen foi o primeiro, logo depois de seu primeiro pit stop. Depois Coulthard, que assumiu a barbeiragem. Na seqüência, Giancarlo Fisichella rodou sozinho. Por fim, Ralf teve um pneu furado, mas ainda conseguiu voltar aos boxes e terminou em quarto. Os pequeninos Herbert e Trulli foram os que lidaram melhor com a instabilidade do tempo. Duas pancadas de chuva durante as 66 voltas da prova embaralharam a cabeça da maioria dos pilotos. Uns colocaram pneus biscoito quando o asfalto começava a secar. Outros optaram pelos pneus para piso seco na hora em que a chuva apertava. Herbert fez dois pit stops, nas voltas 35 (pneus de chuva) e 47 (“secos”). Trulli parou nos boxes três vezes, a primeira na 28ª (“secos”), a segunda na 35ª (biscoito) e a última na 48ª (“secos” mais uma vez). Rubinho, por sua vez, errou na adivinhação. Com uma estratégia preestabelecida de um pit stop, parou na 37ª volta, pouco antes de a chuva apertar de novo. Colocou pneus para pista seca e se deu mal. Johnny, que largou em 14º, atribuiu o resultado à chuva que caiu no exato momento em que fez seu primeiro pit stop. “E fantástico dar ao Jackie (Stewart) a primeira vitória de sua equipe no ano em que seu nome vai sair da F-1”, falou o inglês. Barrichello disse que estava feliz pelo parceiro, mas confessou que parte dele estava triste por não dar à Stewart sua primeira vitória. “Tenho certeza que eles queriam que eu tivesse vencido. O Johnny deu sorte”, falou.
Sorte mesmo deu Pedro Paulo Diniz. Na primeira volta, ele sofreu um acidente pavoroso. Alexander Wurz desviou de Hill, cujo carro começou a parar de repente, e encontrou o brasileiro vindo por trás. Pedro decolou no Benetton do austríaco e seu carro capotou. O santantônio, que bateu de lado na zebra, não suportou o impacto e quebrou. Diniz ficou “enterrado” na grama, com o carro em cima. Só se salvou porque o colar de proteção do pescoço funcionou, e porque o cockpit da Sauber é alto. Pedro foi retirado do carro sete minutos depois, consciente e fazendo sinal de positivo. Levado ao centro médico do autódromo, foi depois transferido de helicóptero para a Uniklinik, em Bonn, onde passou por exames e foi liberado uma hora depois. A noite, voltou de avião para seu apartamento, em Mônaco, apenas com dores no ombro e na perna esquerda. “Na hora em que vi que ia capotar, me abaixei e senti a cabeça raspar na terra. Só deu tempo de rezar e pedir muito a Deus para me proteger”, disse o brasileiro.
O FIM DE SEMANA
BADOER INCONSOLÁVEL
Deu pena de Luca Badoer em Nürburgring. A 12 voltas do final, o italiano da Minardi estava em quarto, posição Inimaginável, quando o câmbio quebrou. Ele chorou feito criança. “É injusto, porque muitas vezes só se chega na frente quando os outros quebram, e hoje não, a gente lutou muito, foi uma lição de bravura", disse o piloto. Consolo: Marc Gené foi o sexto, e a Minardi marcou seu primeiro ponto em quase quatro anos - o último fora anotado na Austrália, por Pedro Lamy, em 12 de novembro de 95.

TROCA DE GENTILEZAS
Schumacher, que não ia correr, disse que Hakkinen era o favorito à vitória. Irvine ficou irritado e insinuou que o alemão estava fazendo corpo mole, e só não voltava a correr para não ajudá-lo a ser campeão. Alheio a tudo, Frentzen fez a pole no sábado, a segunda de sua carreira, e por pouco não ganhou a corrida.

CHUVA E NÚMEROS
Eles não faltaram em Nürburgring: primeira vitória da Stewart, primeiro pódio de Trulli e primeiro ponto de Gené; 34 pit stops, cinco líderes e nove pilotos se revezando na pole, no sábado; 175ª vitória da Ford, que não ganhava desde 94 em Jerez, com a Benetton de Schumacher; segunda pole da história da Jordan (a primeira foi de Rubinho em Spa/94); e, de quebra, dois contratos anunciados, a renovação de Zonta com a BAR e a assinatura de Irvine com a Jaguar, alguns dias antes da prova, por três anos.

FALTAM O FILHO E O LIVRO
Diz o ditado que um homem pode morrer feliz depois de criar um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. O último item Mika Hakkinen cumpriu em Nürburgring, numa esquisita homenagem dos organizadores ao título de 98. De qualquer forma, Mika ainda fica devendo o pimpolho e as memórias. “Posso trocar por dois campeonatos?“, perguntou o finlandês.


CRÔNICA: RUBENS BARRICHELLO
O GP da Europa começou divertido. Ao chegar na quinta-feira, fui logo fazer um trabalho na Ford, que era levar jornalistas para dar uma volta no antigo circuito de Nurburgring, com 22 km. O circuito está aberto e mantido até hoje. Fica difícil imaginar que lá foi onde Jackie Stewart venceu na Fórmula 1 pela última vez (1973), com chuva e neblina. No sábado, na qualificação, o tempo estava instável. Durante os primeiros 30 minutos, praticamente ninguém saiu dos boxes. A partir daí, pela incerteza do tempo, foi possível definir a estratégia ideal. Até o meio do treino, eu tinha a pole provisória. Depois a pista foi mudando e com um trânsito pesado nos últimos minutos. Pela primeira vez no ano, meu companheiro de equipe conseguiu ficar na minha frente, sendo que os dois carros estavam nas profundezas do grid (Johnny em 14° e eu em 15°), por causa da estratégia. Optamos pelos pneus mais duros, que nos penalizavam nos treinos, mas nos dariam vantagem para a corrida, se não chovesse. No domingo de manhã, o tempo parecia que ia se firmar, mas a meteorologia afirmava que choveria durante a corrida. Dito e feito. Na largada o importante era ganhar umas posições, mas estar seguro de não se meter em problemas, que acontecem sempre com mais frequência lá atrás. Na primeira curva, surgiu a primeira confusão, com Hill parando e o Wurz dando uma guinada para evitá-lo. Pegou o Pedro Paulo pelo meio. Na confusão passei o Johnny e mais um ou dois, e alinhamos atrás do safety-car por seis longas voltas. Com os pneus duros, saímos para fazer uma única parada.Perto da nossa parada programada, começou a chover somente numa parte do circuito. Foi quando a sorte entrou em jogo. Um após o outro, seja por erro do piloto, do box ou problema do carro, desapareceram Frentzen, Ralf, Fisichella e Coulthard, com Hakkinen e o Irvine quase uma volta atrás. O Johnny parou duas voltas antes de mim e pediu pneus de chuva. Segundo ele, viu uma nuvem escura que vinha para cima da pista. Eu não vi o céu desse jeito e pedi para continuar com os slicks. Foi aí que o Johnny, que estava atrás de mim, ganhou a corrida. Recomeçou a chover mais forte e o Trulli e o Johnny, que eram os dois únicos que fizeram a escolha certa de pneus e no momento certo, começaram a abrir. A chuva parou e a pista voltou a secar, quando Johnny e o Trulli pararam, mais uma vez na hora certa, para voltar para os slicks. Os dois voltaram na minha frente e parti para cima do Trulli. Em poucas voltas eu cheguei no italiano e aí comecei a buscar uma forma de passar. A pista tinha um trilho que estava seco mas, saindo dele, ainda estava molhada demais. Fiz de tudo, sem arriscar perder a minha posição de pódio para buscar dar à equipe uma dobradinha, mas o Trulli não errou nem deixou um único espaço. Toda a falta de sorte que o Johnny teve durante todo o ano foi compensada. Ao encontrar o Jackie no pódio, nos abraçamos longamente, assim como fiz com o Johnny. Gostaria de ter dado também a primeira vitória à equipe, ainda com as cores e o nome dele. Não deu. Mas fiquei muito feliz por todos nós e tentei ensinar ao Jackie como se faz uma sambadinha no pódio.

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