GP da Malasia de 1999

24/07/2014

NO TAPETÃO
Ferrari fez dobradinha em Sepang, é desclassificada, mas recupera os pontos seis dias depois no tribunal:
Por Reginaldo Leme
Temporada Dados do GP
A Malásia nunca vai-se esquecer de seu primeiro GP. E o mundo da F-1 jamais vai-se esquecer do GP da Malásia. Durante seis dias, o resultado da corrida de Sepang ficou sub judice. Na pista, a Ferrari foi soberana. Com a volta de Schumacher, fez a dobradinha, vitória de Irvine, e levou a decisão para Suzuka, duas semanas depois. Só que, três horas após a bandeira quadriculada, os dois carros vermelhos foram desclassificados. O delegado técnico da FIA Jo Bauer encontrou o que acreditava ser uma irregularidade nas medidas dos defletores laterais nas máquinas de Michael e Eddie. Faltava 1 cm na base da peça, em sua extremidade posterior. Mantida a desclassificação, Mika Hakkinen seria declarado o vencedor da corrida e, portanto, bicampeão mundial. Mas a Ferrari recorreu. A princípio, alegando que seus carros haviam sido vistoriados desde o GP da Europa, e nenhuma irregularidade havia sido encontrada. Depois, dizendo que a diferença de 1 cm não resultava em ganho de performance, e que o erro tinha sido involuntário. Só depois se soube como a Ferrari conseguiu a vitória no Tribunal de Apelações da FIA, na sexta-feira seguinte — o resultado só foi tornado público no sábado. Seus advogados, primeiro, leram o regulamento com atenção e descobriram que havia uma tolerância de 5 mm para tais peças. Na sequência, mandaram medir os defletores com sofisticados aparelhos e notaram que faltavam, na verdade, 5 mm, e não 1 cm. Portanto, as peças estavam dentro do limite de tolerância e os carros, legais. Os cinco juízes da FIA, reunidos em Paris, aceitaram a argumentação da Ferrari e a entidade foi obrigada a admitir que seu sistema de medição era falho. Assim, o campeonato foi salvo. “Sempre acreditamos que nossos carros eram regulares”, comemorou Luca di Montezemolo. “Estranho que um aparelho de medição que funcionava até a semana passada passe a ser imperfeito dias depois”, espetou Ron Dennis, insinuando uma marmelada cujo único objetivo seria levar a final para o Japão.
Passado o imbróglio jurídico, vale a pena voltar para Sepang. A corrida malaia foi um dos maiores shows de Schumacher, que acabou voltando a correr depois de muitas idas e vindas, três meses após o acidente de Silverstone. No dia 3 de outubro, ele dissera que só disputaria GPs de novo no ano 2000. No dia 4, fez um teste em Mugello e bateu. No dia 6, visitou o papa no Vaticano. No dia 7, quebrou o recorde de Fiorano em novos testes. No dia 8, superou a própria marca e avisou que estaria na Malásia, no dia 17, e no Japão, no final do mês. Se Michael queria provar alguma coisa, começou no sábado, marcando a pole. Foi um assombro: 1min39s688, contra 1min40s635 de Irvine, o segundo no grid, e 1min40s866 de Hakkinen, o quarto. No domingo, deu pena dos adversários. O alemão fez o que quis em Sepang. Largando na pole, saltou na frente e em duas voltas já abria 3s1 sobre Irvine, o segundo colocado. Atrás deles vinham os dois carros da McLaren, de Coulthard e Hakkinen. Na quarta volta, Schumacher tirou o pé e chamou Irvine. Sua idéia era simples e clara: colocar-se entre o companheiro de equipe e os dois rivais, permitindo que Eddie abrisse uma vantagem que lhe permitisse jogar com a estratégia de pit stops. Só não foi perfeito o plano porque na quinta volta Coulthard arriscou uma manobra inesperada e conseguiu passar Schumacher. Os dois chegaram a se tocar. Michael não se abalou. O problema de Irvine era Hakkinen, que estava atrás dele. Coulthard já não lutava mais pelo título e acabou abandonando com um problema na bomba de gasolina, antes de ameaçar a liderança do irlandês.
A partir daí, Schumacher ditou o ritmo mais adequado, enlouquecendo Hakkinen, que não conseguia ultrapassá-lo. O alemão alternava voltas na casa de 1min44 com outras em 1min40, mostrando que tinha carro para andar na velocidade que bem entendesse. Como uma sanfona, ia e vinha. Na 17ª volta, estava a 5s3 de Irvine, Na 21ª volta, deixou o parceiro abrir 11s6. Na 24a, reduzia a diferença para 8s. Eddie fez seu primeiro pit stop na 25ª passagem. Gastou 7s2 e voltou em quarto. Hakkinen parou duas voltas depois e a McLaren levou 8s7 para trocar seus pneus e encher o tanque. Na passagem seguinte, Schumacher parou: 10s9 nos boxes. Naquele momento, o alemão já havia decidido mudar a estratégia inicial de dois pit stops para apenas um. Irvine e Hakkinen ainda fariam uma outra parada. Na segunda parte da corrida, mais uma vez Michael se encarregou de segurar Mika, permitindo ao irlandês abrir 18s7 de vantagem até o segundo pit stop, na volta 41. O finlandês assumiu o segundo lugar e dava a impressão de que não ia parar mais. Mas parou, a nove voltas do final, caiu para quarto e só quando faltavam três voltas conseguiu ultrapassar Johnny Herbert para reassumir o terceiro lugar. Era tarde. Schumacher tinha chamado Irvine de novo, que recebeu a bandeirada em primeiro lugar. Schumacher, ao explicar sua tática de corrida, resumiu bem o que foi o GP malaio. “Eu sabia qual seria meu trabalho aqui. Como disse pelo rádio para a equipe, tinha de agradecer o que eles fizeram por mim em três anos e meio. Era natural que quando as coisas mudassem, como neste ano, eu fizesse o mesmo que espero que façam por mim. Eu preferia vencer, mas não faria sentido. As regras são assim, no início meu trabalho era dar uma vantagem ao Eddie. Não fiz nada de desleal com Mika. Fiz meu trabalho, primeiro, e depois economizei pneus. Tinha de pensar na eventualidade de ele fazer um pit stop só, porque estava de pneus duros e eu, de macios.” “Esse cara é demais!”, exultou Irvine. “Além de ser o melhor primeiro piloto do mundo, é o melhor número dois, também. Não sei o que vou fazer com ele no ano que vem. mas vai ser muito difícil ser seu adversário."
O FIM DE SEMANA
MICO ESCOCÊS
Foi em Sepang que Frank Williams teve de pagar uma aposta feita com Jackie Stewart. Ele dissera semanas antes que, se o time do escocês ganhasse um GP antes de mudar de nome para Jaguar, vestiria a horrenda calça xadrez do clã rival. Herbert ganhou a prova de Nürburgring e Frank não teve outra saída, senão posar para a posteridade com a peça lamentável.
PRIMEIROS EM SEPANG
Para os anais: o primeiro carro de F-1 a entrar na pista de Sepang foi o Prost de Trulli. A primeira volta completa foi dada por De La Rosa, da Arrows, em 2min05s902, com o asfalto molhado. O primeiro piloto a rodar no circuito malaio foi Diniz, da Sauber. O primeiro acidente aconteceu com Panis, da Prost, que teve os dois discos de freio dianteiros quebrados, rodou e bateu na barreira de pneus. Panis, aliás, anunciou na Malásia que estava deixando a F-1, para correr pela Mercedes no DTM no ano 2000.
DANÇA DA SECA
O medo de tempestades tropicais que pudessem atrapalhar o GP levou os organizadores a contratar um "bruxo" local, que com suas mandingas ia tentar fazer a chuva parar. No país, essa espécie de representante terreno dos deuses da natureza se chama "bomoh”, ou "shaman". "Vamos tentar de tudo", disse Basir Ismail, diretor da empresa proprietária do autódromo. Deu certo. Até quinta-feira, chovia todo dia, aguaceiros de assustar. De sexta a domingo, a água deu uma trégua e a prova aconteceu sem problemas.
LUXO E COMPETÊNCIA
Os malaios fizeram em Sepang o melhor autódromo do mundo. A um custo de US$ 120 milhões, construíram uma pista interessante e segura, que agradou a todos. Não bastasse o lado técnico, as instalações também deixaram todo mundo de queixo caído, como os escritórios com ar-condicionado no paddock, a sala de imprensa e os camarotes. Nota dez.

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