GP do Canadá de 1999

17/07/2014

A VIRADA DE MIKA
Erro de Schumacher permite que Hakkinen reassuma a liderança 
do mundial, num dos GPs mais animados do ano.
Por Reginaldo Leme 
Temporada Dados do GP
A corrida mais animada dos últimos tempos no Canadá teve como saldo oito carros arrebentados, quatro acidentes no mesmo lugar, dez pilotos chegando até o final e um novo líder para o Mundial. Foram 69 voltas de erros, rodadas, excursões pela grama, ultrapassagens mirabolantes, duelos emocionantes e, no fim, a vitória do único piloto que não passou por nenhum susto durante a prova canadense. Mika Hakkinen, da McLaren, ganhou e assumiu a liderança do campeonato com 34 pontos, quatro à frente de Michael Schumacher. O alemão da Ferrari foi um dos bufões do domingo quente e ensolarado de Montreal. Depois de uma boa largada, liderava a corrida com relativo controle sobre seus adversários quando, no final da 30ª volta, arrebentou-se no muro da última curva do circuito. No mesmo ponto, antes, Ricardo Zonta, da BAR, e Damon Hill, da Jordan, haviam batido. Pouco depois foi JacquesVilleneuve a vítima da curva mais manhosa da pista. Por conta dos acidentes, a direção de prova foi obrigada a acionar o safety-car quatro vezes. Isso permitiu muitas trocas de posições nas relargadas e até uma espécie de “momento Indy”, quando, sob bandeira amarela, nada menos do que 12 pilotos foram para os boxes para fazer seus pit stops — entre as voltas 36 e 38, logo depois do acidente de Villeneuve. O primeiro incidente da corrida aconteceu na largada. Jarno Trulli, da Prost, foi para a grama na primeira curva e quando voltou acertou Jean Alesi, da Sauber, e Rubens Barrichello, da Stewart. “Foi um moleque”, esbravejou o brasileiro, que conseguiu trazer seu carro para os boxes e já havia saído do cockpit quando seu time o chamou de volta para continuar na prova. Um buraco na lateral esquerda foi tampado com fita isolante, mas o carro ficou instável, a direção torta, e Rubinho achou mais prudente abandonar.“Eu podia sofrer um acidente sério”, disse.
Naquele momento, Schumacher liderava a prova, à frente de Hakkinen, Eddie Irvine, David Coutlhard, Giancarlo Fisichella e Heinz-Harald Frentzen. Mesmo depois de sua batida e da de Villeneuve, das entradas do carro-madrinha e dos pit stops, as principais posições não se alteraram muito. Foi na terceira relargada que as coisas começaram a mudar, quando Coulthard e Irvine rodaram na disputa pelo segundo lugar. Fisichella e Frentzen aproveitaram, e o alemão, na 43ª volta, passou pelo italiano numa bela manobra. A três voltas do final ele sofreu o último acidente do dia. O disco de freio dianteiro do lado direito teve um defeito e Frentzen bateu forte, motivando a quarta entrada do safety-car, que só saiu da pista a poucos metros da bandeirada final — o piloto foi levado de helicóptero para um hospital da cidade, mas acabou sendo liberado apenas com dores no ombro e na perna. O melhor brasileiro da corrida foi Pedro Paulo Diniz, que terminou em sexto e marcou seu primeiro ponto no ano. “Largando em 18°, confesso que não esperava tanto”, comemorou o piloto da Sauber. “Meu único azar foi ter perdido duas posições na relargada.” De fato, não fosse uma bobeada na terceira relargada e Diniz festejaria um quarto lugar, que seria seu melhor resultado na F-1. “Foi uma pena o que aconteceu, mas no final o sexto está bom”, disse. Na relargada depois do acidente de Villeneuve, Pedro estava em sexto e dois pilotos à sua frente rodaram, Irvine e Coulthard. O brasileiro se atrapalhou e acabou perdendo duas posições, para Ralf e Herbert. O início da prova foi o melhor momento de Diniz no dia. Ele ganhou oito posições na largada e se livrou do acidente que tirou seu companheiro Alesi da corrida. “Foi briga o tempo todo. Agora é hora de virar a página e esquecer o mau começo do campeonato.” Louco da vida estava Jean, acertado porTrulli. “Não sei o que aconteceu com ele e nem me interessa, mas toda hora ele faz essas coisas na largada. Tem gente aqui cujo trabalho é julgar esse tipo de piloto e eu espero que desta vez ele seja punido com rigor”, falou o francês.
Irritação de um lado, entusiasmo de outro. Ninguém ficou mais feliz em Montreal do que Irvine, terceiro colocado, atrás ainda de Fisichella, da Benetton — também pontuaram Ralf Schumacher, da Williams, em quarto, e Johnny Herbert, da Stewart, em quinto. Com quatro ultrapassagens, uma delas espetacular sobre Herbert, Irvine acabou sendo o showman do domingo. O irlandês estava tranqüilo em segundo, atrás de Hakkinen, quando começou sua aventura à caça das posições perdidas. Foi na terceira relargada. Coulthard tentou ganhar o segundo lugar e os dois se tocaram, na 40ª volta. A partir daí, Eddie desembestou. Caiu para oitavo e, na 43ª volta, passou por Zanardi feito um foguete. Quatro voltas depois, atropelou Diniz. Na 53ª, foi a vez de Herbert, pela grama, no ponto mais perigoso da pista. E, na 58ª, não tomou conhecimento de Ralf. A recompensa foi o pódio, graças ao acidente de Frentzen. “Foi o maior barato', disse Irvine. Sobre a manobra com Herbert, brincou. “É bom um pouquinho de polêmica na F-1, não? Ele estava muito mais lento do que eu e naquela hora eu só podia ir pela grama, senão não conseguiria fazer a curva”, falou. Na McLaren, o sentimento era mais de alívio do que qualquer outra coisa. A equipe sabia que a Ferrari era favorita em Montreal e Mika disse que ficou surpreso ao ver Schumacher no muro. “Daí para a frente só me preocupei em manter a concentração para não cometer erros”, disse o finlandês, que chegou à 12ª vitória de sua carreira. A McLaren não ganhava no Canadá desde 92. Schumacher assumiu seu erro. “Saí do traçado e peguei sujeira. Devo desculpas à equipe por isso. Normalmente, cometo um erro por temporada. Espero que tenha sido o meu último neste ano”, afirmou, com um bico do tamanho do nariz de sua Ferrari.
O FIM DE SEMANA
FORD COMPRA A STEWART
Na quinta-feira, véspera dos primeiros treinos em Montreal, a Ford oficializou a compra da Stewart por US$ 160 milhões. "É o caminho para o futuro”, disse Jackie Stewart, fundador do time. "Quando assinei o contrato, não tive nenhum arrependimento, nenhum desconforto. Nunca me senti melhor, exceto quando resolvi parar de correr. Sei que fiz a coisa certa."

“OS QUATRO DO MURO”
Dava até nome de filme. Foram quatro os pilotos que bateram no mesmo lugar, o muro na entrada da reta dos boxes: Schumacher, Hill, Zonta e Villeneuve. Damon foi sincero. "Errei. Não posso culpar o muro”, falou. Ricardo também admitiu a barbeirada. "Os outros três que bateram são ex-campeões mundiais. Pelo menos fiquei em boa companhia", disse o brasileiro da BAR. Villeneuve, no entanto, fez drama. "É uma pena que um carro tão bom não chegue ao final por causa de seu piloto." Ele mesmo, no caso.

E MAIS NÚMEROS...
Ricardo Zonta, que voltava a correr pela BAR dois meses depois do acidente em Interlagos, foi o sexto colocado nos treinos livres de sexta-feira, seu melhor resultado no ano; no dia seguinte, no entanto, conseguiu apenas o 17° lugar no grid; quatro pilotos foram punidos com stop & go pela direção de prova: Badoer e Panis, por atrapalharem Fisichella, e Coulthard e Zanardi, por saírem dos boxes com luz vermelha; 262.244 pessoas estiveram no autódromo nos três dias do GP, 104.069 apenas no domingo.

CAPACETE PARA A GALERA
Jean Alesi, da Sauber, deu uma de jogador de futebol depois de conseguir o oitavo lugar no grid. Só que em vez de atirar a camiseta para a torcida, jogou o capacete. Sorte que não acertou ninguém, e o sujeito que pegou ficou feliz da vida. Ainda no sábado, Schumacher fez a pole, sua primeira no ano, e quebrou uma série de cinco seguidas de Hakkinen.

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