GP do Japão de 1999

25/07/2014

FIZ O QUE PUDE, AMIGO...
Na última prova do ano, Schumacher larga mal, irvine não se esforça e Hakkinen, sem cometer erros, conquista o bi:

Por Reginaldo Leme
Temporada Dados do GP
Mika Hakkinen parece ter a vocação de tornar fáceis as decisões. Depois de um ano repleto de problemas, erros bobos e quebras inexplicáveis, o finlandês da McLaren tornou-se em Suzuka bicampeão mundial de F-1. Como em 98, levou a taça com uma vitória tranquila e sem sustos. Venceu o GP do Japão praticamente de ponta a ponta. Só não liderou a corrida no intervalo entre seu primeiro pit stop e a primeira parada de Michael Schumacher, que terminou em segundo lugar. A Ferrari, pelo terceiro ano consecutivo, perdeu um título na derradeira prova da temporada. Eddie Irvine, que tinha quatro pontos de vantagem sobre Hakkinen na classificação, acabou em terceiro e encerrou o campeonato com 74 pontos, dois a menos que o finlandês. Saiu do carro sorrindo. Dois dias antes, dissera que “ser campeão na F-1 é algo insignificante”. Sua atuação discreta foi coerente com o significado que atribuía à conquista, que a Ferrari persegue desde 79. O time italiano, pelo menos, ficou com o título de construtores. A tarefa de Hakkinen em Suzuka foi simplificada pela má largada de Schumacher, que estava na pole. O alemão patinou quando as luzes vermelhas se apagaram, Mika saltou à frente e em dez voltas já tinha 5s9 de vantagem sobre Schumi e 21s sobre Irvine, que estava em quarto — Olivier Panis, da Prost, que largou muito bem, foi o terceiro colocado durante a primeira parte da prova. O que também facilitou a vida do finlandês foi o fato de a Ferrari ter adotado uma estratégia convencional de dois pit stops para seus pilotos, idêntica à da McLaren e à de todos os que terminaram a corrida. Mika parou nas voltas 19 e 38. Schumacher foi aos boxes na 22ª e na 37ª. Irvine, na 23ª e na 32ª. Com isso, o GP do Japão teve poucas emoções e, a rigor, apenas uma posição de ponta trocada, entre Irvine e David Coulthard depois do primeiro pit stop.
A comemoração de Hakkinen foi sem sal como a corrida. O primeiro a cumprimentá-lo foi Irvine, ainda no parque fechado. Somente duas horas depois de receber o troféu e festejar com a equipe ele se soltou, quando já havia anoitecido em Suzuka. Atravessou os boxes, foi até a mureta e comemorou com os torcedores finlandeses que aguardavam nas arquibancadas. Mika disse que a largada foi o momento chave da corrida e que depois só teve de se preocupar em abrir uma boa distância sobre Schumacher e em não cometer erros. “Tivemos um ano muito difícil, desperdiçamos muitos pontos ao longo da temporada por erros e quebras, e por isso este título é especial”, comentou. “Decidir um campeonato na última corrida do ano é de dar nos nervos. É uma experiência que não recomendo a ninguém.” Hakkinen conquistou o 11° título de pilotos para a McLaren e entrou num grupo admirável de bicampeões, ao lado de Alberto Ascari, Graham Hill, Jim Clark, Emerson Fittipaldi e o próprio Schumacher. “Cheguei aqui sob muita pressão, e nessas horas é preciso acreditar, ser positivo e estar fechado com a equipe. Tenho muito a agradecer a todos, é um orgulho participar deste grupo”, disse Mika. O triunfo de Hakkinen acabou sendo merecido. Com a ausência de Schumacher em seis corridas, depois do acidente de Silverstone, o finlandês chegou a se complicar com uma batida estúpida em Monza e atuações medíocres na Malásia e em Nürburgring. A McLaren também colocou o título em risco ao permitir que Coulthard atrapalhasse Mika em Zeltweg e Spa. Mas o adversário era Irvine, que, embora consistente ao longo do ano, não chegou a brilhar em nenhum momento.
A esperança da Ferrari em Suzuka era Schumacher. O alemão precisaria suar sangue para derrotar Hakkinen e ajudar Irvine. E se nem Eddie fez isso para ganhar o seu campeonato, não seria Michael a se matar para dar a taça ao outro. Irvine nem parecia ter perdido um título mundial. Mal saiu do cockpit e tirou o capacete, ficou conversando animadamente com Schumacher, de quem, no fundo, talvez esperasse um pouco mais para ajudá-lo a ser campeão. Mas, se esperava, também não demonstrou. Eddie estava risonho e passava a impressão de que não estava dando a menor importância para a derrota. “Terceiro lugar até que foi bom para mim”, disse. “Não posso reclamar muito. Mika merece o título, ele foi fantástico hoje e teve mais chances de ganhar corridas neste ano do que eu”, continuou. “Para dizer a verdade, a corrida foi aborrecida. Eu estava com dores no pescoço por causa do acidente na classificação e não podia fazer mais do que ficar olhando nos telões e torcer para acontecer alguma coisa com o Mika.” Schumacher também considerou justo o desfecho do Mundial. Admitiu que largou mal e falou que já na volta de apresentação havia percebido que teria problemas. O alemão achou que cumpriu sua obrigação, de ajudar a Ferrari a ser campeã de construtores — o que não acontecia desde 83. “É muito difícil bater uma equipe tão forte quanto a McLaren”, disse. Mas não ficou satisfeito com o comportamento de David Coulthard, que quase o tirou da corrida. “Mika é um grande campeão e não há razões para que não comemore 100% o que conquistou. Mas sua equipe deve ser questionada sobre o que manda seus pilotos fazerem”, acusou. Depois de rodar e bater sozinho, Coulthard voltou à frente de Schumacher e, segundo o ferrarista, o fez perder dez segundos numa volta. Na verdade foram apenas três. “Coulthard era retardatário, ia tomar uma volta e ficou fazendo ziguezague. Pelo que fez aqui, me dá o direito de acreditar que me tirou da corrida de Spa no ano passado de propósito.” A resposta do escocês foi imediata. “Ele não pode questionar minha integridade. Acho que Michael está apenas tentando desviar as atenções do fato de que Mika o derrotou na pista e de que ele não foi capaz de ajudar Eddie a ganhar o campeonato."
O FIM DE SEMANA
TRISTEZA NA ITÁLIA
Cerca de 40 mil pessoas se reuniram na principal praça da cidade de Maranello, onde fica a sede da Ferrari, para assistir à prova em telões na manhã de domingo na Itália. Saíram frustrados com o resultado. A torcida não teve ânimo para comemorar o título de construtores. Pesou muito mais a tristeza pelo 20° ano na fila sem um piloto campeão do mundo.

TÍTULO INSIGNIFICANTE
Irvine minimizava o título desde sexta-feira em Suzuka. Lendo a autobiografia de Nelson Mandela, inspirou-se no líder sul-africano para justificar sua tranquilidade em caso de derrota. "Olhando a vida de Mandela, percebe-se como um título de F-1 é algo insignificante. Há outras coisas muito importantes na vida, além de ficar guiando um carro em círculos."

ECCLESTONE VENCE A F-1
Bernie Ecclestone chegou a um acordo para vender metade da Formula One Administration (FOA), a empresa que administra a F-1. O comprador foi o Morgan Grenfell Private Equity, um grupo financeiro ligado ao Deutsche Bank. Valor do negócio: US$ 1,3 bilhão. O Morgan fechou a compra de 12,5% das ações e se comprometeu em conseguir novos investidores para fechar os 50%. O grupo já é acionista da Arrows. Pelo valor acertado entre Ecclestone e o Morgan, é fácil calcular quanto "custa" a F-1: US$ 2,6 bilhões.

NÚMEROS PÓS-SUZUKA
Hakkinen tornou-se o 13° piloto da história a conquistar mais de um título; 27 pilotos já foram campeões desde 1950, primeiro ano da F-1; o título foi decidido em Suzuka pela oitava vez em 13 GPs no circuito; a Ferrari chegou a nove títulos de construtores e empatou com a Williams, que terminou em quinto, sua pior posição desde o sétimo lugar de 88; a Benetton terminou em sexto, pior posição desde o sétimo lugar de 84; Mika ganhou cinco GPs, o campeão com menos vitórias desde Prost em 89, que venceu quatro corridas.


FIM DA LINHA

Damon Hill abandona a Formula 1 após sete temporadas:
Quando o inglês Damon Hill alinhou o Brabham Judd no GP da Inglaterra no dia 12 de julho de 1992, em Silverstone, era dada a largada para uma vitoriosa carreira na Fórmula 1 que chega agora ao seu final. Aos 39 anos, Hill chegou a anunciar que a etapa inglesa do atual certame seria a de sua despedida, mas resolveu correr até o final do ano. Assim, Hill somou 115 provas, sete temporadas completas, 20 poles e 22 vitórias. Filho de um dos mais carismáticos pilotos dos anos 60, o bicampeão Graham Hill, Damon é o único filho de campeão mundial de Fórmula 1 a figurar na mesma exclusivíssima lista. Herdando do pai o desenho do capacete negro com listras verticais brancas (símbolo do Clube de Veleiros de Londres), iniciou nas pistas como piloto de moto, aos 19 anos. Em 1983, mudou-se para os monopostos, correndo na Fórmula Ford, depois na Fórmula 3 e na Fórmula 3000 até chegar à categoria principal. Sua trajetória na Fórmula 1 começou em 1992, como piloto de testes da Williams. No mesmo ano, participou de duas corridas pela equipe Brabham no lugar de Giovanna Amatti. Com a saída de Nigel Mansell da equipe após conquistar o título de 1992, Frank Williams efetivou Hill como segundo piloto de Alain Prost. Com o “carro do outro planeta” — que tinha suspensão inteligente —, venceu sua primeira corrida na Hungria. No ano de 1994, com Ayrton Senna no lugar de Prost, ele novamente se resumiria a mero coadjuvante, mas, com a morte de Senna, Damon se viu inesperadamente com o cargo de primeiro piloto e um dos favoritos ao título. A partir daí, começou uma disputa com o alemão Michael Schumacher, na época piloto da Benetton, que se estendeu até o outro ano. Tanto em 1994 como em 1995, a vantagem foi de Schumacher. Mas em 1996 veio a consagração de Hill. Com oito vitórias na temporada, ele conquistou seu único título. Mesmo assim, sua demissão não foi evitada. Daí foram somente resultados inexpressivos em 1997, quando competiu pela Arrows. O único significativo foi um 2º posto na prova da Hungria. Contratado pela Jordan em 1998, Hill obteve uma bela vitória (a primeira da equipe) sob a forte chuva de Spa-Francorchamps. No campeonato deste ano, ficou à sombra de Heinz-Harald Frentzen. Se para alguns Hill não passou de um piloto sem brilho, vencendo corridas apenas em razão de suas máquinas competitivas, para outros foi um dos pilotos mais técnicos, sabendo acertar carros como poucos. Independente disso, ficará a imagem de piloto técnico, falível, mas que foi responsável por grandes momentos da Fórmula 1.

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