GP Argentina 1995

22/05/2016

HILL VENCE, COULTHARD BRILHA E ALESI SUPERA SCHUMACHER.
1995
Coulthard — 1ªpole — lidera ambas largadas, mas abandona. Hill impõe-se. Excelente recuperação da Ferrari — Alesi é 2º e também domina Schumacher. Acidente na 1ª curva. Boa prestação da Simtek e péssima da Forti. Grande enchente apesar do tempo. Reutemann é atração.

Automobilismo na Argentina é uma devoção. Mais do que no Brasil, onde, essencialmente, se torce por estrelas. O argentino sente as corridas com fervor latino — como os italianos, no seu monocromático amor pelos carros vermelhos — e com dedicação britânica com vivência e cultura automobilística. Só assim se explica que, sem nenhum piloto argentino na F1 , o Autódromo Oscar Galvéz tenha tido tamanha multidão, ainda por cima com os céus ameaçadores e a chuva diluviana dos quatro dias? É devoção, mesmo. À competição. O povo argentino não merecia ter sido afastado da Fórmula 1— por problemas político--econômicos — durante 14 anos. Para o Circo da F1, sempre desagradado com suas viagens à America do Sul, esta visita à Argentina foi uma agradável surpresa. Buenos Aires é realmente a mais europeia de todas as cidades sul-americanas. Andar pela Calle Florida, olhar para a amplitude da Avenida 9 de julio, parar em um dos muitos cafés com ar parisiense, ou passear pelo bairro da Recoleta são prazeres que temperam as obrigações de um fim de semana de GP. Sua arquitetura, seu urbanismo, sua disciplina e limpeza muito melhoradas, são para os europeus um agradável contraste depois da constante convulsão urbana de São Paulo. Não admira que muitos confessassem: "No GP do Brasil contamos os dias que faltam para voltar para casa; aqui lamentamos só ficar estes dias".
Vantagem técnica dos Williams
Recuperação técnica no final de 1994 e um carro muito bem conseguido para este ano permitem à Williams manter certa vantagem de performance sobre os Benetton ainda não totalmente desenvolvidos depois da troca do motor Ford V8 pelo Renault V10. Neste GP foi notória a superioridade dos Williams — mais estáveis e equilibrados — sobre os Benetton—inconstantes e difíceis de controlar. A expressão de Schumacher no final da prova retrata bem a sua frustração. Foi inédito o domínio de Hill sobre Schumacher sem intervenção de fatores estranhos.
Coulthard brilha e Ferrari renasce
Na realidade, o grande rival de Hill foi seu colega Coulthard, a grande figura do fim de semana. Não só fez sua primeira pole, como comandou com margem crescente ambas as largadas, foi atrasado por um problema elétrico, recuperou com melhor andamento, passou Schumacher, para abandonar vítima do mesmo problema. O adversário principal dos Williams durante todo o fim de semana foi Alesi e sua Ferrari, que está definitivamente renascendo. Alesi esteve soberbo na chuva discutindo sempre os melhores tempos.
1995

Duas largadas: a sorte de Alesi
Apesar do surpreendente andamento das Ferrari, que melhoraram muito desde Interlagos, com seis alterações nos V12, Alesi também teve muita sorte nesta prova. Seu GP nem teria passado da primeira curva: freou tarde demais, escorregou na sujeira da pista, subiu na zebra e ficou, com radiadores quebrados e motor parado. Só que era seu dia de sorte: outros bateram em vários pontos do circuito, obstruindo a pista, e a prova teve de ser interrompida, sendo dada nova largada. Alesi pode assim correr com o carro reserva que desta vez estava acertado para ele. Na segunda parte da prova fez uma exibição prodigiosa, chegou a liderar e foi segundo pela quinta vez. Mais impressionante foi a facilidade com que se superiorizou ao Benetton de Schumacher, atormentado durante todo o fim de semana por inconstante instabilidade. Terminou 26s atrás da Ferrari. Isto deveu-se em parte ao diferente rendimento dos vários jogos de pneus que obrigaram a mais trocas. Foi um problema geral que a Goodyear atribuiu à sujidade da pista deteriorar diferentemente os pneus. Emocionante até final, com várias trocas de líderes, este GP marcou o regresso do espetáculo à F1, embora o nivelamento de performances se restrinja aos cinco carros de ponta. Os outros são ainda mais figurantes.
OS TREINOS
Sendo este circuito novo, houve um dia extra de treinos livres para a climatização. E, bem que foi preciso pois previam-se chuvas, que iriam tornar o piso extremamente escorregadio devido à existência de muita poeira. Na 5' feira, Alesi foi o primeiro a entrar na pista ainda úmida e a dar espetáculo com sua pilotagem agressiva dominando o 412T2 para fazer o melhor tempo da primeira sessão com 1m35,187s, seguido de Coulthard e Berger. Com a primeira chuva forte e deu logo para ver a péssima drenagem do piso, com lagos e cachoeiras que provocaram um show de rodadas de todo o mundo. O primeiro e mais espetacular foi Panis, com uma pirueta de 360° diante do muro dos boxes — "derrapei na faixa branca pintada na pista", apontou ele, fazendo lembrar a batida de Mansell quando liderou brevemente o GP de Mônaco de 1984. Outros que não escaparam à dança na chuva: Diniz, Berger, Schumacher, Rubinho, Coulthard, Katayama. O estado da pista estava tão ruim que a média da melhor volta — Hakkinen — foi só 128km/h. Cinco pilotos fizeram médias inferiores a 100km/h!
Alesi brilha, mas Coulthard leva
Apenas o treino livre de sábado teve pista seca, e, nessas condições, Schumacher fez o melhor tempo — 1m31,376s. Nas demais três sessões, Alesi foi a estrela. Frentzen também esteve soberbo na 6ª feira, fazendo o 2° e 3° tempos. No entanto, quem acabou sendo o mais rápido nas duas qualificativas foi um oportuno e brilhante Coulthard que nos últimos minutos de cada sessão soube produzir uma volta-canhão no momento certo, com a pista em condições menos ruins e surpreender todo o mundo, inclusive Hill, que superou por 0,8s! Alesi, desiludido, em 5°, e Schumacher pouco pode fazer com um Benetton inguiável na chuva (na 6ª feira, só conseguiu 0,1 s melhor que Badoer). Para Irvine foi sua melhor posição de sempre no grid — 4°. Bandeiras vermelhas e acidentes foram atônica numa pista deficiente sob chuva.
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A CORRIDA
Domingo nasceu com céu ameaçador, prevendo-se novo dilúvio. No entanto, o autódromo começou a ficar repleto logo de manhã. Iria ser um sufoco. Para todos. O sacrifício compensou. Com um espetáculo como há muito não se via. Primeiro foram as duas largadas. Quem não gosta de uma batidinha inofensiva, causando a repetição de um dos momentos mais emocionantes de qualquer corrida?
Badoer — depois de excelente qualificação —, não alinhou na 2ª largada pois a Minardi atrasou seu programa de fabrico e não tinha carro reserva (indecisão entre motores Honda ou Ford).
Para a Peugeot foi um dia ruim: à 6ª volta quebrou o motor de Irvine e o de Barrichello teve o mesmo fim antes da metade da prova.
Para McLaren e Mercedes foi ainda pior. Blundell, em oitavo, não passou da nona volta, também num mar de óleo: primeiro, radiador quebrado; depois, motor.
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Coulthard dominador, mas azarado
Entretanto, Coulthard, em apenas seu 10° GP, ganhava vantagem a Schumacher — 4,36s à 5ª volta -, que tinha conseguido ganhar a Hill o sprint até à primeira curva. Até que à 6ª volta, na saída de uma curva direita, seu carro fica sem motor momentaneamente e ele é ultrapassado por Schumacher e Hill. No entanto, o Benetton não era páreo para os Williams e travava Hill, que conseguiu o comando à 11ª volta.
Coulthard voltou à luta e recuperou em relação a Schumacher, passando-o magistralmente, no final da reta, quando dobrava Martini. O escocês abandonaria logo depois, vítima do mesmo problema eletrônico, assumindo Schumacher de novo a liderança. No entanto sua liderança durou apenas uma volta, após o primeiro reabastecimento de Hill. Depois foi Alesi a comandar e a manter o ritmo. A Benetton optara por dois reabastecimentos, mas com o péssimo rendimento dos pneus, decidiu parar três vezes, o mesmo de Hill, enquanto Alesi parou apenas duas. Depois do seu primeiro reabastecimento, Alesi manteve-se sempre em segundo, na frente do campeão mundial, jamais sendo ameaçado, aponto de ganhar terreno a Hill — à 51ª volta a vantagem do inglês baixara para 4,12s. Depois garantiu a posição. Mas só depois de uma perseguição emocionante. No final acabou só a 6s de Hill. O público adorou. Berger foi atrasado pelo incidente Irvine e Hakkinen (foi 12° à 1ª volta) e teve uma Ferrari inguiável, até levando tempo a passar o Simtek de Verstappen. Foi à box e quando pensava abandonar foi detectado um furo. Perdeu 1m21s e voltou à pista. Com isto e com a parada do fabuloso Salo (foi 4°), Verstappen circulava com o Simtek em 6°, até reabastecer em mais 30s que o normal e abandonar. Ambos Forti arrastaram-se, mesmo conhecendo a pista (testaram com um F3000 em dezembro). Fraco. Wendlinger vai mal: bateu nos dois Pacific na 1ª volta. ❑
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O FIM DE SEMANA
"Lole" Reutemann — a grande figura
Governador da Província de Santa Fé — a terceira maior do país— Carlos Reutemann continua sendo uma das figuras mais populares do país. Ele é o "Senior Fórmula 1" na Argentina. Desde Fangio é o piloto argentino melhor sucedido: disputou 294 provas, das quais 146 GPs, com 12 vitórias, 6 poles e um vice-campeonato, em 1981, em disputa com Piquet. A Philip Morris — patrocinadora do GP — e a Ferrari, para promover a inauguração de seu novo importador e a próxima abertura de uma fábrica Fiat no país, trouxeram de Maranello uma Ferrari 412T1 (usada por Berger no Estoril, em 1994), com um custo de US$74.000. Reutemann recebeu um cachet de US$10.000 que doou aos hospitais de Santa Fé. Foi um excelente investimento promocional: "Lole" foi a maior atração deste GP. Na 5ª feira à tarde, com a pista molhada, "Lole" deliciou o numeroso público com seis voltas à pista, o que repetiria no domingo, uma hora antes da formação do grid. A última vez que Reutemann pilotara um F1 fora a 21 de março de 1982, no Rio, quando decidiu abandonar a F1 . Agora, aos 53 anos, "Lole" fez 2m11,44s à 6ª volta numa pista inundada, 11º tempo desse dia. Mesmo considerando o motor com mais 500cc e o maior apoio aerodinâmico, é obra, para quem não sentava num F1 há 13 anos e apenas teve algumas dicas de Berger sobre o câmbio automático que jamais usara. No domingo, a melhor de sua três voltas foi em 1m52,049s.
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Fangio recordado, mas poupado
Durante todo o fim de semana não foi mencionado o nome do penta-campeão mundial Juan-Manuel Fangio, o maior piloto argentino de sempre. Roberto Carozzo, autor da fantástica biografia de Fangio, explicou: "Fangio está muito mal, aos 83 anos, com graves problemas renais e de diabetes. Há mais de seis meses que passa longos períodos inconsciente. Para ser ser poupado a emoções fortes que lhe poderiam ser fatais, nem sequer lhe foi informado do regresso da F1 à Argentina". Claro que todo o povo argentino teria gostado de o homenagear, mas isso jamais voltará a ser possível com ele vivo. Na parede do box da McLaren-Mercedes, uma foto em homenagem ao grande homem, Presidente Honorário da Mercedes Argentina.
Autódromo Oscar Gálvez
Quando Fangio começou a ganhar provas na Europa, Juan Perón mandou uma comissão liderada pelo arquiteto Armando López León estudar as pistas europeias com vista à construção de um autódromo em Buenos Aires. Inaugurado a 9 de março de 1952, ali foram realizadas duas corridas ganhas por Fangio. Seu nome passou a ser Autódromo Municipal. A 18/01/53 realizou-se o 1º GP da Argentina de F1, ganho por Ascari (Ferrari) — 96 voltas em 3h1m04s. Villoresi (Ferrari) foi segundo, a 1 volta, e González (Maserati) 3,. Farina saiu da pista e matou 9 espectadores mal colocados. Até 12/04/81 disputaram-se 16 corridas de F1. Fangio foi o mais ganhador, com 4 vitórias consecutivas (53 a 57) e Emerson Fittipaldi o 2º, com duas vitórias (73 e 75). Na década de 80 o circuito foi rebatizado Oscar Gálvez, e nos últimos meses foi completamente remodelado para receber a nova F1. Este é um dos únicos 5 circuitos que se mantêm no mundial de F1 desde a década de 50 junto com Silverstone, Monte Carlo, Spa e Monza.
Gasolinas Elf homologadas
A Elf rehomologou na FIA as mesmas gasolinas que no Brasil provocaram as desclassificações de Schumacher e Coulthard. Isto confirma que a FIA estava certa — estas gasolinas não eram ilegais, apenas diferentes da amostra homologada; e que Michel Bonnet, da Elf, errou — nunca deveria ter homologado apenas uma amostra e depois fabricado o lote. Gasolina tem tantos componentes que é como um complicado prato de cozinha — pode por vezes ter sabores diferentes com os mesmos condimentos...
Moreno — professor de Diniz
Nos testes de inverno, no Estoril, falou-se da entrada de Pedro Lamy e seus patrocinadores portugueses para a Forti, ainda mais quando a Parmalat— patrocinadora principal da equipe — decidiu apoiá-lo. No entanto, Lamy e seu guru — Domingos Piedade —preferiram esperar por um lugar numa equipe melhor. Carlo Gancia chamou Moreno. Depois da Lotus, AGS, Coloni, Eurobrun, Benetton, Jordan, Minardi, Andrea Moda, esta é a sua 9ª equipe. Foi contratado apenas para os dois primeiros GPs. Carlo confidenciou-me: "Encontrámos US$1,5 milhão para manter Moreno até final do ano". Não lhe invejo o papel: carro ruim e tutor de iniciante (Diniz). De novo, o talentoso "Puppo" não irá longe. Deve ser sua última tentativa.
Homenagem a Carlos Ménem Jr
Carlito Ménem, filho do Presidente da Argentina, foi vítima de um acidente de helicóptero três semanas antes do GP, perto de Ramallo, uns 160km a nordeste de Buenos Aires. Piloto de ralis, Carlito, estreou com um Peugeot 504 em 1987, e seu maior sucesso foi a vitória do Grupo N no Rali da Acrópole, com um Ford Escort, em 1994. Carlito era um dos pilotos mais populares na Argentina e, junto com Reutemann, foi um dos grandes motivadores de seu pai para tornar realidade a volta da F1 ao país. Natural a homenagem que o pai lhe prestou publicamente: "Este GP é a melhor homenagem que podemos prestar a meu filho por todo o entusiasmo que ele põs na sua realização".
No sábado, o Presidente Ménem entregou a Coulthard o Troféu Carlos Ménem Jr pela sua pole.
Pole de Coulthard: 1º, ao 10º GP
Coulthard não só foi a grande figura do fim de semana, como fez sua primeira pole, no seu 9º GP. Foi a primeira pole de um escocês em 22 anos, desde o GP da Alemanha 1973 (Jackie Stewart). Mario Andretti (1968, EUA, Lotus) e Reutemann (1972, Argentina, Brabham) foram pole nas estreias, mas Coulthard é o 3º pole com menos GP: Damon Hill, 10 (embora tivesse participado em 6 treinos e não se qualificasse com o Brabham, em 1992); Clark, 16; Senna, 17; Emerson Fittipaldi, 19; Prost, 23; Stewart, 42; Schumacher, 42; Berger, 48; Mansell, 54; Alesi, 82.
Computadores adivinham tempos
O traçado do circuito é novo, mas os computadores podem prever os tempos por volta. Sobre o desenho da pista traçam retas e curvas de raio constante e com base na performance dos atuais F1. Depois, calculam acelerações, velocidades máximas e tempos. A Goodyear pouco errou: 1m31,5s e a melhor volta com pista seca foi 1m31,376s (Schumacher)!
Traçado demasiado "travado"
Este 6º circuito de Buenos Aires tem um aspecto maravilhoso, com seu vasto edifício de boxes, sala de imprensa e torre, um adequado anexo com salas e armazéns para cada equipe, tudo muito limpo e pintado. No entanto, o traçado é demasiado "travado" e pouco espetacular, todo de curvas de baixa. A média da melhor volta foi inferior a 170km/h — ridículo na F1 num circuito permanente. Coulthard apontou: "Não se chega nunca a pisar no máximo no freio ou no acelerador; logo que começamos a acelerar chegamos a outra curva."
Pole diamante da Williams
Foi a 75º pole da Williams. A de prata (Hungria 87) e a de ouro (Portugal 92) foram de Mansell.
Ferrari lidera pilotos e marcas
Pela 1ª vez desde a vitória de Mansell no GP Brasil 89, a Ferrari lidera ambos os campeonatos, de pilotos (Berger) e de construtores.
Os F1 recuperam o fôlego
Como já se previa, desta vez a FIA voltou atrás numa decisão: autorização para fechar as tomadas de ar dinâmicas, ganhando os motores uns 10cv.
Minardi: segurança aerodinâmica
Poucas alterações nos carros desde Interlagos. O M195 de Aldo Costa mostrou a mais evidente e interessante: carenagem em fibra de carbono nos triângulos superiores da suspensão dianteira. "Não esquecemos a tragédia de Imola e exploramos todas as soluções para o evitar", apontou Giancarlo Minardi. "Este novo conceito de triângulo dá mais rigidez à suspensão e mantém o tirante sob controle em caso de choque". Também ajuda na aerodinâmica...

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